'Passei a odiar o meu marido após a nossa filha ter nascido morta', diz mãe

“Consumida e sem vida como eu estava, nunca passou pela minha cabeça que ele estivesse lidando com tudo da melhor forma possível” - RooM RF

Em homenagem ao mês de conscientização em relação a bebês natimortos e mortes neonatais, nossa redatora descreveu o impacto que a morte traumática da sua primeira filha provocou no seu casamento

Nada poderia ter me preparado para o que senti após a morte da minha primeira filha durante a gestação. O vazio brutal na minha barriga, que até então crescia normalmente, o encolhimento gradual dos meus seios inúteis, o espaço vazio na minha casa, a onda de desespero intensa e impiedosa que envolvia tudo e fazia com que eu sentisse que não conseguia respirar.

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Isso teria sido uma bênção, de certa forma, já que eu queria morrer.

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Ainda assim, eu me levantava todos os dias. Bom, quase todos os dias. Fazia um café, tomava banho, colocava absorventes dentro do meu sutiã. Olhava para a televisão sem realmente ver o que estava passando. Varria as pétalas caídas dos buquês de condolências e não conseguia entender por que as pessoas enviam flores, que morrem bem na sua frente, para consolar alguém em relação à morte.

O meu marido? Ele estava bem. Ele trabalhava, dormia, ele preparava comida e comia. Regularmente. Toda vez, aquilo era como um soco no meu estômago. Eu não conseguia comer; como ele conseguia? Era a prova de que ele não se importava. De que ele não queria um bebê. Ele saía de casa com frequência, algo que eu não conseguia fazer por medo do universo promover um desfile de mulheres grávidas e bebês na minha frente, só para me torturar.

Ele havia perdido um membro da família em decorrência de um suicídio no ano anterior, e eu comparava e analisava minuciosamente as suas reações e percebia que, no nosso caso, a intensidade não era a mesma. Passei horas e horas em fóruns de luto online; ele não. Eu chorava em sessões de terapia; ele ficava desconfortável e era monossilábico. Eu não consegui acreditar quando ele falou em voz alta sobre a preocupação em relação ao efeito da notícia para sua mãe, que “já havia passado por tanta coisa”.

O luto pode nos tornar egoístas. Consumida e sem vida como eu estava, nunca passou pela minha cabeça que ele estivesse lidando com tudo da melhor forma possível – não apenas com a perda da sua filha, mas com a perda da sua esposa. Não houve um momento em que eu considerei que eu, minhas ações e a minha inação, pudessem ser um insulto para ele, assim como as dele eram para mim.

A volta da minha menstruação deu início a uma nova fonte de conflitos: eu estava fértil e pronta para tentar de novo. Então, nós íamos tentar de novo, certo?

Mesmo que o “sexo com hora marcada” não fosse algo tão problemático e sem alegria, o emprego dele, que requer viagens repentinas, significava que agir no momento certo sempre seria complicado. Eu implorei a ele que bloqueasse semanas do seu calendário, e briguei quando ele disse que aquilo não era viável. Ele falou que nós havíamos engravidado com facilidade antes, que não havia pressa, que talvez devêssemos nos dar um tempo para nos curarmos, antes de pensar em tentar de novo. Eu odiava a crueldade casual da sua biologia, odiava o fato de precisar dela para fazer um bebê, o odiava por ser fértil todos os dias da semana por anos a fio, enquanto eu tinha apenas uns poucos dias, por um período finito de tempo.

O luto pode nos enlouquecer. Com o tempo eu reconheci a pessoa que me tornei, uma pessoa que, privada de qualquer autonomia verdadeira, tentava recuperar o controle com acupuntura, dieta e, bizarramente, a remoção de objetos afiados ou pesados do quarto. Eu brigava com o meu marido se ele tomava uma cerveja, andava de bicicleta ou saía para nadar. Eu estava tentando, por que ele não estava fazendo o mesmo?

Anos depois, temos três filhos maravilhosos e saudáveis, e tatuagens iguais comemorando a vida da nossa primeira filha. Visitamos o local onde suas cinzas estão espalhadas, mas eu ainda fico surpresa quando ele diz “É hoje? Quantos anos?” diante da minha observação de que chegou o aniversário dela. Como ele não sabe?