Parceria entre chineses e russos na exploração espacial reedita embate da Guerra Fria

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Dos contratos milionários de Elon Musk com a Nasa aos voos suborbitais dos bilionários deste 2021, o setor privado parecia destinado a ser o ator mais relevante da exploração espacial neste primeiro quarto de século.

Parecia. Acompanhando sua ascensão fulminante na economia e na política, a China comunista reintroduziu o elemento estatal que marcou a fase pioneira e glamorosa do embate no espaço entre Estados Unidos e União Soviética.

Se Washington segue no jogo e Moscou detém a “expertise” que até hoje domina o voo espacial tripulado, embora sem caixa para poder ir além da operação de tecnologias existentes, Pequim está decidida a deixar o terceiro lugar na corrida.

Para tanto, recrutou em junho deste ano justamente os russos para desenvolver um ambicioso projeto espacial conjunto, que está em formação. Pelo plano, em 2024 os países visitarão juntos um asteroide e, depois, começarão uma série de missões lunares.

O objetivo é estabelecer uma base na Lua com capacidade de autonomia relativa, com água retirada da calota polar subterrânea do satélite e exploração mineral ativa. Tudo isso até 2030, provavelmente antes dos planos dos americanos de voltar ao local darem certo.

Não há valores divulgados, mas está claro que a agência russa Roscosmos entrará com tecnologia e material humano, enquanto os chineses da CNSA (Administração Nacional do Espaço Chinesa, na sigla inglesa) farão o mesmo e ainda pagarão a conta.

Hoje, os chineses (US$ 11 bilhões/ano) e russos (US$ 2,6 bilhões/ano) não chegam aos US$ 22,6 bilhões do orçamento da Nasa, a agência americana, em 2020. Mas a opacidade dos gastos da ditadura comunista em Pequim dificulta uma comparação precisa.

É uma parceria inédita a sino-russa, e reproduz no espaço o ambiente geopolítico da Guerra Fria 2.0 lançada pelos americanos contra os chineses em 2017, renovada neste ano pelo presidente Joe Biden.

O democrata, para frustração de quem acreditava que ele seria menos belicoso do que o antecessor, Donald Trump, declara sempre que pode que a China é a grande rival estratégica dos EUA e que a Rússia segue uma adversária perigosa no campo militar.

Durante a primeira Guerra Fria, iniciada após o fim da Segunda Guerra Mundial e encerrada com a dissolução do império comunista, os papéis principais eram da União Soviética e dos mesmos EUA.

Moscou saiu na frente, gerando a sensação mundial do lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik 1, em 1957, seguido pelo voo inaugural de um homem fora da Terra —o feito do cosmonauta Iuri Gagarin completou 60 anos em abril passado.

Movidos pela lógica da ultracompetição vigente, americanos se mexeram e, ao fim dos anos 1960, viraram o jogo com a chegada à Lua. O interesse público declinou lentamente, e o próprio ocaso soviético ao longo dos anos 1980 tiraram o brilho do setor —o último cosmonauta na estação Mir voltou ao solo para um país que não era mais aquele de seu passaporte.

Os chineses comeram pela beirada, limitados pela baixa tecnologia a seu dispor no período, quando passaram a ser adversários dos soviéticos no mundo comunista e cortejados pelos EUA, isso a partir da década de 1970.

Só lançaram um satélite em 1970. No pós-Guerra Fria, sua ascensão econômica começou a render frutos. Usando muito material russo, já que Moscou precisava de clientes tanto para seus excedentes militares quanto espaciais, desenvolveu um programa que enfim colocou Yang Liwei no espaço em 2003.

Era o primeiro taikonauta, palavra cunhada em 1998 para dar um caráter chinês aos seus astronautas —a designação russa é cosmonauta. "Taikong" é espaço em mandarim.

A evolução foi crescente, com melhores foguetes e naves, e neste ano o país conseguiu colocar os primeiros módulos de sua nova estação espacial, a Tiangong (“Palácio Celestial”)-3, em órbita com três taikonautas.

A aproximação entre Moscou e Pequim, que já foi cantada tanto por Vladimir Putin como por Xi Jinping como inexorável, marca o início do fim de um relacionamento que para muitos simbolizaria a possibilidade de paz com o fim da Guerra Fria.

Afinal de contas, com a aposentadoria dos ônibus espaciais após o desastre da Columbia em 2003, foram antigos módulos Soiuz (“União”, de União Soviética em russo) que levaram astronautas e cosmonautas para a Estação Espacial Internacional.

O esforço está acabando. Neste ano, os americanos conseguiram voltar a fazer voo tripulado com um foguete da empresa de Musk, a SpaceX. Cargas já são divididas entre transportadores russos e americanos.

Assim, o poderoso chefe da Roscosmos, Dmitri Rogozin, anunciou em julho que deverá abandonar a estação em 2024, quando acaba seu contrato com o projeto. Ele foi claro: a culpa é da política, no caso das sanções americanas por Putin ter anexado a Crimeia da Ucrânia em 2014.

Daí à aproximação com Pequim foi um passo lógico. Os chineses não são mais os toscos espaciais que já foram, é claro: além de tudo o que conseguiram, lograram colocar um jipinho em Marte neste ano, algo que os russos nunca conseguiram.

Algumas ideias são comuns aos planos de Musk, visto como um visionário, como o desenvolvimento de foguetes reutilizáveis.

Tudo isso é política, assim como nos idos dos anos 1950, mas com as espetaculares oportunidades que os investimentos em tecnologia aplicada aos extremos do espaço permitem: do onipresente GPS a cirurgias oculares, há uma infinidade de benefícios oriundos da corrida espacial.

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