Como o Brasil de Paulo Guedes virou uma cópia pirata do filme "Parasita"

A família Kim, os "parasitas" do filme vencedor do Oscar. Foto: Reprodução

Fora do Brasil, quem acompanhou a cerimônia do Oscar pelo Twitter, no domingo (9), provavelmente ficou confuso ao ver nos assuntos mais comentados o nome de Paulo Guedes ao lado do vencedor de melhor filme, melhor filme estrangeiro, melhor direção e melhor roteiro original. Tem piada que só dá para entender com a legenda em português.

Parasita”, do sul-coreano Bong Joo-Ho, se consagrava poucos dias após o ministro da Economia de Jair Bolsonaro, que recebe R$ 8,2 mil por mês em auxílio para morar e comer, usar um adjetivo homônimo para se referir aos funcionários públicos de seu país. A frase: “o funcionalismo teve aumento de 50% acima da inflação, além de ter estabilidade na carreira e aposentadoria generosa. O hospedeiro está morrendo, o cara virou um parasita”.

Se Deus é brasileiro, ele caprichou no roteiro -- um roteiro mais perto do nonsense na obra de Joo-Ho do que do documentário de Petra Costa, “Democracia em Vertigem”.

O filme mais falado dos cinemas em muito tempo mostra como é inconciliável o convívio pacífico entre classes diante de um modelo de desenvolvimento econômico baseado na pilhagem, na superexploração e na precarização.

Esta relação não é de simbiose, como o título presume.

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A divisória imaginária construída pelo diretor coloca em lados opostos a família Park, milionária, e os Kim, que moram numa espécie de porão escuro e claustrofóbico abaixo da linha da rua e em situação de miséria ganhando merrecas empilhando caixas de pizza. O conflito na hora da remuneração descortina a falácia, hoje consagrada, de que contratantes e contratados podem negociar em condições iguais quando a relação é mediada pelo tudo ou nada, pegar ou largar -- a fila de miseráveis produz novos candidatos a trabalhos precários em escala industrial. Todos são facilmente substituíveis.

A grande virada acontece quando o filho desempregado dos Kim vai trabalhar como professor de inglês na casa dos Park, uma mansão localizada no ponto alto da cidade onde não faltam espaço, luz, ventilação - e, claro, escadas. 

Lá, ele se transforma em arquiteto de um plano que consiste em, literalmente, forjar identidades e currículos para instalar, como parasitas, o restante da família naquela casa, que passa a ser um território em disputa.

Numa primeira leitura, era possível sair do cinema com um ponto de interrogação na testa: se a família rica, aparentemente educada e cordial, acolheu a família pobre, por que os desafortunados da história não aproveitaram a oportunidade sem se rebelar? Por que quiseram dar um salto maior que a ganância para ocupar um lugar que supostamente não era deles?

As perguntas mostram como as relações de exploração estão naturalizadas no inconsciente de parte do público. Como na vida, o filme mostra que existem mais coisas entre um bairro e outro do que supõe a gratidão de ser tratado como parte da família.

No alto, a família disposta a usurpar o espaço fingindo subserviência estava protegida das enchentes que devastavam o baixio da cidade, como aconteceu em São Paulo ao longo da semana.

Acontece que, conforme o imaginário, aquele não era o lugar deles, e isso fica subentendido toda vez que o pai da família Park, um executivo de uma empresa de tecnologia, reclama do cheiro dos empregados e os elogia quando eles não ultrapassam “a linha” da intimidade.

A cordialidade era, assim, uma distância calculada em metros, limites, cheiros e acordos tácitos que permitem ascender apenas para prestar serviço e morrer afogado na volta para casa.

Só que isso não é um acordo. É rendição.

Por aqui, enquanto parte da população também sofria com chuvas, enchentes e alagamentos sem alegoria das cidades que privilegiam a segurança do topo, o ministro Paulo Guedes, não contente com a ironia dos parasitas premiados no Oscar, tentava mostrar o lado bom da alta do dólar, esta que ameaça fazer estragos no orçamento ordinário de quem está na fila do pão, dizendo que nos tempos de valorização do real a festa era tanta que até a empregada ia para a Disney.

Qualquer semelhança com a madame da família Park, que chama de bênção a chuva que limpou o céu para a festa ensolarada do filho e estragou os móveis da casa dos empregados, não é mera coincidência.

O mesmo ministro que, dias atrás, lamentou a incapacidade dos pobres de poupar, já atribuiu à fome dos miseráveis o apetite destruidor das florestas em solo nacional.

De frase em frase, como numa cena de “Parasita”, é possível sentir a coceira no nariz do chefe da Economia toda vez que se refere ao pobre -- na última, ao discorrer sobre quem pode e quem não pode pegar avião, a associação com Caco Antibes, o psicótico personagem demofóbico de Miguel Falabella em “Sai de Baixo”, ficou inevitável.

Uma coisa não se pode negar: o desprezo em nada difere daquele manifestado pelo chefe, Jair Bolsonaro, que nos tempos de deputado já calculava peso de pessoas negras com arrobas e lamentava que em seu país pobre não sabe controlar sua “prole”; serve para votar com diploma de burro no bolso.

A faixa presidencial não o impediu de endossar, há poucos dias, uma fala pavorosa de Alexandre Garcia, segundo quem era não bom nem pensar o que os brasileiros fariam com o Japão caso as populações entre os países fossem trocadas.

É este espírito do tempo, que no Brasil transformou caricatura em personagem real, que o filme de Bong Joo-Ho conseguiu captar. Uma pena que esta elite governante que se gaba da própria ignorância já não vai ao cinema.

Em tempo: para quem ainda não viu, o filme vencedor do Oscar, que em novembro estreou em apenas 60 salas, será exibido agora em 248 locais em todo país. Boa sessão e bom espelho para todos.