Oscar 2020: a vitória da história dos vencidos

Bong Joon-ho, diretor de "Parasita", grande vencedor do Oscare 2020. Foto: Kevork Djansezian/Getty Images

Em uma das cenas de “Ford vs Ferrari”, a personagem de Caitriona Balfe, mulher do piloto interpretado por Christian Bale, puxa uma cadeira de praia e se senta na varanda para assistir, entre o tédio e a indiferença, a mais uma briga entre o marido e seu melhor amigo, um ex-piloto e designer de automóveis vivido por Matt Damon.

De onde ela está podemos observar a luta, em forma de corrida, dos concorrentes ao Oscar de melhor filme em 2020, a começar pela história dos meninos briguentos que lançam à pista a obsessão de um herdeiro da Ford, inseguro e pouco confiável, em fazer frente com as máquinas da Ferrari após ser destratado em uma tentativa frustrada de aquisição.

Apesar das inovações técnicas, e truques que fazem de um postulante a épico como “1917” parecer um longa sem cortes, a vista de quem sentou na varanda parecia cansada das mesmas histórias sobre gângsters que não souberam envelhecer, bravos soldados, pilotos incansáveis e mocinhas salvas pelo personagem bronco que tira a camisa e mostra os músculos em cima do telhado e solta os cachorros contra invasores como quem avisa que nenhum herói precisa ter mais de duas falas para mudar a História. Precisa de virilidade.

Então tá.

O cansaço temático talvez explique o apelo a obras que ao menos flertaram com a originalidade, como a história do garoto da Juventude Hitlerista de “Jojo Rabbit” que tem uma jovem judia no sótão de casa e descobre que pode manejar seu destino enquanto a escuridão, e o controle das luzes que vêm de fora em forma de notícias, estiver a seu favor.

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Ou o movimento de trás pra frente de “História de um casamento”, que não acaba no altar, mas investiga seu fim após uma mãe (Scarlett Johansson) condenada a ser satélite do dramaturgo apontado como gênio decidir tomar as rédeas do destino e dar as cartas.

O buzz em torno da produção da Netflix já apontava que o conflito adulto, sem heróis salvadores ou recuos táticos das guerras pela sobrevivência, está agora pintado sem romantismo, ao contrário da aliança entre o motorista branco e preconceituoso com o músico e compositor negro que apanha sozinho durante a história -- e que provocou a ira de quem via em “Green Book” um retrato em fotocópia da subordinação que prometia denunciar. 

A advogada interpretada por Laura Dern, melhor atriz coadjuvante, precisou tirar os sapatos e oferecer um abraço para a futura cliente ao nomear como “escroto” o ex-marido com quem o acordo de conciliação estava emparedado. Ganhou sua estatueta ali.

O recado estava dado: o mundo de 2020 retratado na tela não estava propício a acordos, como a guerra intestina pelo impeachment do presidente americano dias antes já prenunciava. No tiroteio, soou como ingenuidade, quase um realismo fantástico no realismo das trincheiras, a integridade das cartas que atravessam rios de sangue e água doce para chegar intacta ao seu destino.

Os tempos eram de tiro, porrada, bomba e riso involuntário de personagens perturbados, espoliados e fora do controle como “Coringa”, que deu a Joaquin Phoenix o Oscar de melhor ator -- e venceria com folga os concorrentes premiados dos anos anteriores.

Mas nenhum dos indicados fugiu tanto ao padrão dos heróis, mocinhos e bandidos das produções ali anunciadas como “Parasita”. Quem assistiu ao longa de Bong Joon-ho, grande vencedor da noite, sabe como é ingrata a missão de quem ensaia a sua sinopse. Do que fala? Do que se trata? Que lado toma? Que lições deixa?

Premiado com o Oscar de melhor filme, melhor longa estrangeiro, melhor direção e melhor roteiro original, “Parasita” é sobretudo a história sobre um conflito insolúvel, uma disputa de espaço no terreno da espoliação em uma época de desigualdade ultrajante, de oportunidades escassas -- e cujos canais são abertos na marra, como machadadas de revide em conexões eletrônicas que permitem a golpistas e golpeados conseguirem dinheiro para ser o que quiserem, inclusive boas pessoas e bons profissionais.

É esse jogo de poder incrustado na arquitetura de Seul, que vale para qualquer cidade, que transforma o longa sul-coreano num grito do espírito do tempo que andava aprisionado nos porões das mansões e das superproduções de Hollywood, apertando botões, acendendo as luzes e oferecendo tributos a quem ocupa o andar de cima e já não reconhece, ou finge não reconhecer, o funcionamento das engrenagens que o levaram até ali. 

Só que a luta não é (só) pelo topo, é pelo direito de morrer no porão e agradecer a oportunidade de quem tampa o nariz para não encarar os cheiros dos corpos reais.

Se em “Coringa” essa escadaria da decadência está nas ruas prestes a explodir, em “Parasita” ela está, literalmente, introjetada nas casas das melhores famílias -- aquelas que dizem ver o empregado como alguém da família enquanto os obrigam a entreter os filhos em fantasias que não constavam do contrato. Longe daquela casa, o caminho está obstruído pela precarização.

Ao vencer o Globo de Ouro, em janeiro, Bong Joon-ho lançou o desafio: quando a barreira das legendas for superada, todos poderão conhecer filmes incríveis. O dele é um mergulho profundo na construção de oito personagens, quatro homens e quatro mulheres que dividem a cena e os graus de complexidade, na disputa por território, o grande nó civilizatório do cinema e do mundo que pretende retratar, e que não forja herói algum, apenas senso de oportunidade.

No Oscar, o cineasta vencedor fez questão de dar seu recado na língua nativa, prestando tributo também aos ídolos que o assistiam embasbacados na primeira fileira, a começar por Martin Scorsese.

O anúncio, claro, tinha de ser de Jane Fonda, atriz que já cansou de ser algemada por anunciar o fim do mundo todo fim da semana.

A guerra das legendas mal começou.