Para psicanalista, rapidez da internet tem gerado legião de frustrados e ansiosos

Sem dúvida alguma as redes sociais afetam nosso comportamento (Foto: Getty Images)

Por Nathan Fernandes

Quase metade dos jovens brasileiros acreditam que a internet causa sintomas de tristeza, ansiedade e depressão. Essa é a opinião de 41% dos entrevistados na edição de 2019 do Indicador de Confiança Digital, que avalia as perspectivas dos brasileiros em relação à tecnologia, conduzido pela Fundação Getúlio Vargas. 

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Para o psicanalista Marcelo Veras, as redes, de fato, têm a capacidade de alterar nossos comportamentos, nem sempre de uma maneira positiva. Autor do livro ‘Selfie, Logo Existo' (Ed. Corrupio) e coordenador do PsiU, um programa de saúde mental da Universidade Federal da Bahia, Veras conversou com o Yahoo! sobre transtornos mentais e desejos nas redes. 

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Yahoo - Jaron Lanier, um dos precursores da realidade virtual, chama as redes sociais de “impérios de modificação de comportamento”, porque elas nos induzem ao vício visando o lucro com publicidade. O senhor concorda?

Sem dúvida alguma as redes sociais afetam nosso comportamento. A prova é que o número de smartphones já superou largamente a população brasileira, ou seja forjou um mundo de adictos. Costumo dizer que deixamos de ser homo sapiens para nos tornar homo smarthphonicus. 

 Para mim, como psicanalista, me interessa saber como as redes sociais afetam o próprio inconsciente, ou seja, aquilo que não é transparente no comportamento humano. Como ele afeta, por exemplo, a forma como desejamos, como fantasiamos e sonhamos. Vivemos a utopia da transparência, de que câmeras, scanners, exames genéticos dirão a verdade do que é o ser humano. Mas acredito que não, o inconsciente terá sempre uma certa opacidade, felizmente a meu ver.

Yahoo - Cada vez mais cedo, as pessoas têm se deparado com transtornos mentais como ansiedade e depressão, principalmente os jovens, por conta do uso das redes sociais. É correto dizer que existem mais pessoas com depressão hoje do que antigamente?

Sob uma certa ótica, podemos dizer que sim. A própria Organização Mundial de Saúde coloca o século 21 como o século da depressão. Porém, discordo quando fazemos uma leitura dessa afirmação como uma psiquiatrização da existência. Temo que afirmações como essa levem meramente ao aumento do consumo de antidepressivos. 

 O que percebo é que a exigência de velocidade nas respostas imposta pelo ritmo das redes deixa todo mundo em estado de prontidão permanente, como se estivéssemos em um eterno chat. Obviamente, isso gera uma legião de frustrados, de ansiosos, de pessoas que desaprenderam completamente o sentido da espera e do planejamento, por exemplo. Por isso digo que muito do que se chama de depressão é, na verdade, frustração e insatisfação.

Yahoo - Como as redes sociais influenciam na percepção da nossa identidade?

Não apenas as redes sociais, mas o fato de vivermos em um mundo tomado por câmeras e por telas, faz com que a imagem de si tenha uma proporção distorcida e exagerada. Vivemos em um mundo que acredita realmente que uma imagem vale mais do que mil palavras, mas os verdadeiros valores identitários — aqueles que definem nossa história, que desenham nossos projetos, que recebemos e transmitimos pelas gerações — são sempre simbólicos. 

O mesmo acontece com o amor, a imagem pode ser responsável por paixões, mas é preciso lembrar que quando nos apaixonamos apenas pela imagem, estamos, na verdade, nos apaixonando por nós mesmos, nos projetando no outro. Um amor só sobrevive à paixão quando há palavras. Por isso, há tantos fracassos nas expectativas nos aplicativos de relacionamento, pois eles são uma caixa de ressonância do próprio narcisismo.  

Yahoo - Que tipo de confusão nos causa esse bombardeamento de desejos incentivado pelas redes sociais?

Estes não são verdadeiros objetos do desejo, eles surgem precisamente para tamponar a nossa pergunta, sempre difícil, sobre o que é o objeto do desejo, sobre o que desejamos realmente. Somos bombardeados por gadgets, que prefiro traduzir por “futilitários”. 

Isso nos induz a viver a vida como uma playlist, a todo momento nos mandam a seguinte mensagem: se você gostou dessa música, você vai gostar dessa outra; se você gostou do hotel x, vai gostar desse hotel y. O que passa despercebido é que, no fundo, esse é um dispositivo que estimula muito a segregação, pois apenas consumimos mais do mesmo, sem espaços para ouvir e experimentar coisas novas. 

Esse é um dos princípios do consumismo. A melhor maneira de aumentar o consumo é deixando o consumidor viciado. E, para nos tornamos viciados, precisamos consumir sempre mais do mesmo. 

Yahoo - Existe uma forma saudável de usar as redes sociais?

Sem dúvidas! E curiosamente as novas gerações estão percebendo isso. Se por um lado há milhões de adictos, vejo também crescer um movimento de cansaço entre os jovens diante das mídias sociais. A melhor maneira de usar a rede social é lembrando que ela não é um fim em si, ela deve apenas ser meio. Tudo nos leva concluir que a hiperconectividade apenas nos separa mais uns dos outros. O mesmo acontece com as imagens: de tanto ver imagens desaprendemos a enxergar. Quando usamos as redes sociais para estar no mundo, elas são formidáveis, inclusive os aplicativos de encontro.