Papai Noel negro festeja escolha: 'Temos que conquistar esse mundo'

Foto: Divulgação

Por Bianca Iaconelli, para o Yahoo

Quando recebeu o convite para dar vida a um papai noel, o metalúrgico aposentado Rubens Campolino, 70, confessa que, de cara, pensou em não aceitar. Afinal, pergunta ele: “Me diga você, não te causa estranheza?”. O medo era sofrer represálias por ser um homem negro. Ele exerce o papel do bom velhinho no Vale Sul Shopping, na cidade de São José dos Campos, interior de São Paulo, até o próximo dia 24 de dezembro, véspera de Natal.

O apoio veio por parte da família, com quem ele compartilhou o convite que partiu da equipe de marketing do estabelecimento. “A ideia do shopping é muito importante e os comentários negativos ou o preconceito que pudessem acontecer, a gente tem que deixar para lá, não dar importância. Tem que ir e conquistar os nossos espaços nesse mundo e não ficar preso a uma preocupação com o que os outros vão falar porque eles estão errados”, contou ele, que ostenta orgulhoso o título de Mister Terceira Idade de uma casa de cuidados com idosos da mesma região.

Rubens reveza o cargo com mais dois papais noéis, brancos. Ele comparece ao local por dois dias, descansando quatro na sequência. Para Luana Menêses, gerente de marketing do shopping, o sentimento com a escolha vai contra ao que imaginou Rubens. Ainda bem.

“Tê-lo conosco tem sido só alegria. Os clientes o adoram. É sempre atencioso, trata da primeira à última criança com o mesmo carinho e amor. A fila fica maior no dia em que ele está, temos recebido até pessoas de outras regiões para tirar fotos”, diz ela. E as crianças? “Ah, é por elas que fazemos isso. Da parte delas não há preconceito, só pedem presentes e abraçam muito”, conta Rubens.

Foto: Divulgação

Nas redes sociais, a repercussão também foi positiva. Uma breve passada pelo Twitter, Facebook ou Instagram para perceber o teor dos comentários. Muitos se posicionam até com certa ironia ao que citam ter ouvido no mundo “offline” como crítica pela atitude do shopping em romper o que seria uma realidade tradicional — bons velhinhos somente brancos. Alguns exemplos aproveitam para “lembrar” aos preconceituosos que a figura do papai noel faz parte do imaginário coletivo.

Figurino temático

Foto: Divulgação

Quem também  se orgulha de fazer parte da equipe que fez o Natal do shopping ficar tão comentado nesse ano é a figurinista Carol Lobato, nome por trás dos trajes de musicais famosos no Brasil, como Cinderela, Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz e Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro. “Quando me chamaram e contaram sobre o projeto, fiquei imediatamente apaixonada pela ideia. A encenação, o teatro por sua natureza, é um ato político. É nosso papel usar a arte como provocar reflexões e ajudar para que temas importantes sejam tratados com mais naturalidade por todos”, afirma.

Orgulho define, diz Carol

Nesse ano, como em anteriores, o centro comercial escolheu um tema para as festividades de final de ano. A inspiração nas florestas pode ser vista nos trajes dos papais noéis em referências como xadrez e os desenhos de plantas e flores. Em tom de brincadeira, Carol conta que seus sonhos de figurinista vão além: “Ainda vou fazer para eles uma roupa mais fresca, um Natal tropical e tipicamente brasileiro”.