"Pantanal": Violência contra Alcides pode deixar cicatrizes piores do que castração

Violência sofrida por Alcides em nova versão de
Violência sofrida por Alcides em nova versão de "Pantanal" deixa cicatrizes piores do que castração (Foto: Reprodução/Globo)

"Pantanal" está se aproximando de seu encerramento e, diferente do modo como conduziu o remake da trama até agora, Bruno Luperi fará uma grande mudança no desfecho de um de seus personagens. Ao invés de ser castrado, como o avô do autor, Benedito Ruy Barbosa, escreveu na versão original do folhetim, Alcides (Juliano Cazarré) será estuprado por Tenório (Murilo Benício) como forma de vingança por ter sido enganado pelo peão, amante de sua ex-esposa, Maria Bruaca (Isabel Teixeira).

A sequência ainda nem foi ao ar - está prevista para esta semana - e, mesmo com a garantia de que as cenas não serão explícitas, a violência tem gerado críticas por parte do público, que acredita que levar o estupro para as telas é algo "desnecessário". Porém, na verdade, o novo desfecho - que, vale pontuar, é tão ruim quanto a castração - não é uma mudança qualquer e esbarra em diversos assuntos relevantes atualmente.

Na proposta de Luperi, Tenório finalmente cercará Bruaca e o amante, iniciando a sua vingança na tapera abandonada. Em um momento da briga, o fazendeiro ameaçará estuprar a ex-esposa na frente de Alcides, forçando-o a assistir. Desesperado, o peão começará a xingar Tenório e pedirá para que ele o mate ao invés de atacar Bruaca.

As cenas ainda trarão uma referência à sua versão anterior e, com a faca no pênis de Alcides, Tenório esbravejará, dizendo que o castrará, repetindo o que faria "com um touro que inventa de cobrir a vaca do outro". Antes de cometer o ato, ele pedirá a Bruaca um motivo para não seguir com a castração, mas ficará ainda mais revoltado com a resposta da ex-esposa, que confessará o seu amor pelo peão. Tenório, então, arrastará Alcides para outro cômodo e cometera a violência. "Vou mostrar pra esse peão quem é teu macho", dirá o fazendeiro.

Para se vingar de Alcides, Tenório estuprará o amante da ex-esposa do fazendeiro (Foto: Reprodução/Globo)
Para se vingar de Alcides, Tenório estuprará o amante da ex-esposa do fazendeiro (Foto: Reprodução/Globo)

Violência contra homens existe, mas é pouco falada

São poucos os estudos sobre homens vítimas de violência sexual no Brasil, já que o grande número de vítimas é mulher e, em sua maioria, com até 13 anos de idade, conforme dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgados em junho deste ano. Porém, isso não quer dizer que eles não aconteçam, como ocorreu com Marcelo Adnet.

Em 2020, o humorista contou que foi vítima de violência sexual em duas ocasiões: "Na primeira, nem sabia o que era sexo. Ele começou a se aproximar de mim e pedir favores. Me chantageava dizendo que, se contasse algo a qualquer pessoa, meu cachorro morreria. Eu era muito ingênuo. Um dia, quando só estávamos eu e ele em casa, foi para cima de mim. Senti uma dor imensa, mas durou pouco porque meus parentes, que tinham ido ao mercado, voltaram para buscar a carteira”, relatou à revista "Veja" na época.

Na segunda ocasião, Adnet foi vítima de um amigo mais velho da família. “O pesadelo se repetiu. Ele não chegou a consumar o ato, como o caseiro, mas me beijou e passou a mão no meu corpo. Foram dois episódios difíceis”, recordou. Ele ainda disse que, apenas anos depois, conseguiu contar à família, como parte do processo de recuperação do trauma.

Em 2020, o ator e humorista Marcelo Adnet revelou ter sido abusado sexualmente duas vezes na infância, aos 7 e 11 anos de idade (Foto: Reprodução/Globo)
Em 2020, o ator e humorista Marcelo Adnet revelou ter sido abusado sexualmente duas vezes na infância, aos 7 e 11 anos de idade (Foto: Reprodução/Globo)

Recentemente, o ator David Júnior, de "Sob Pressão", também revelou ter sido vítima de abuso sexual durante a infância ao repercurtir uma reportagem da "Folha de S. Paulo", que retratou homens que são vítimas de agressão ou violência sexual quando menores. E, embora as vítimas sejam, frequentemente, crianças e adolescentes, há registros de estupro cometidos contra homens adultos, como em guerras, por exemplo.

Pesquisador de Direitos Humanos na Organização das Nações Unidas (ONU), o cientista social Thomas Osorio estuda violências sexuais cometidas durante conflitos armados.

Assim que são feitos prisioneiros, a espiral de crueldade tem início e progride para estupro ou outras inúmeras forma de tortura física e psicológica utilizando o sexo como arma, seja por meio de humilhação, flagelo genital, penetração de objetos, incestos forçados, castração e inclusive esterilização"Thomas Osorio, em entrevista à BBC

Janine Natalya Clark, que também pesquisa o tema pela Universidade de Birmingham, no Reino Unido, acrescenta que a violência sexual contra homens é usada como arma em conflitos, porque é capaz de desumanizar o homem, humilhá-lo e puni-lo, fatores que também cercam o estupro cometido por Tenório em "Pantanal".

Estupro para corrigir

Desde as palavras proferidas pelo fazendeiro até o ato em si, tudo tem a ver com o controle que Tenório tem e, naquela hora, decide exercer sobre Alcides. Mesmo que tenha usado o próprio corpo para cometer a violência, em nenhum momento o estupro poderia ser confundido com algo além da necessidade do fazendeiro de dominar, humilhar, punir e corrigir o amante de sua ex-esposa.

O estupro contra Alcides não afeta só a masculinidade do peão. A violência poderia ter acontecido com Bruaca, na frente de Alcides, e ele se sentiria da mesma forma. O fato de ele não conseguir mais "ser homem" após o acontecido, ou seja, não conseguir transar com a dona de casa, é um reflexo da lembrança do estupro, que o deixa impotente, assim como ficou enquanto era violentado por Tenório.

Culpado e envergonhado pelo que lhe aconteceu, Alcides confessará sua dor à amada: "Ele me matou por dentro! Não sei como vou olhar na cara daquela gente. Nem como é que vou olhar pra você. Minha vontade era estar morto", dirá o peão, sinal de que, embora não tenha sido emasculado, ele está debilitado psicologicamente após o estupro. Além disso, por mais que o corpo se recupere do ataque, o trauma jamais será esquecido e Alcides poderá ficar com uma cicatriz ainda pior do que a de uma castração.

Traumatizado por estupro, Alcides terá problemas para transar com Maria Bruaca em
Traumatizado por estupro, Alcides terá problemas para transar com Maria Bruaca em "Pantanal" (Foto: Globo/João Miguel Júnior)

Homem não é homem só por causa do pênis

Ainda que parte do público desaprove a mudança na história de Alcides, é bom lembrar que a castração mostrada na versão original também alimentou críticas, fazendo com que o autor, Benedito Ruy Barbosa, "consertasse" o atentado feito ao peão no final da novela.

Nas chocantes cenas da emasculação de Alcides, vivido por Ângelo Antônio no folhetim original, Tenório (Antônio Petrin) esquenta uma faca e a direciona à genitália do peão, fazendo-o jorrar sangue. Porém, com a revolta do público, posteriormente o peão revela à sua amada Bruaca (Ângela Leal) que o fazendeiro havia errado o "alvo" e ele não havia perdido seu pênis, deixando o caminho aberto para que eles pudessem manter suas relações sexuais de modo tradicional.

Convincente para a época, o final dificilmente funcionaria agora e, com a alteração na história, Luperi foge da fragilidade de uma solução forçada para o "problema" entre Alcides e Bruaca e, de quebra, não se prende a uma noção ultrapassada de que, para ser homem, é preciso ter um pênis.

Nos dias de hoje, abordar a história do ponto de vista falocêntrico seria apenas limitar criativamente a novela, além de torná-la reducionista e em desencontro com a realidade, considerando que identidade de gênero é uma pauta frequentemente discutida, com homens e mulheres transgêneros e travestis lutando, diariamente, para que suas identidades não sejam reduzidas a seus órgãos genitais.