"Pantanal" se posiciona contra homofobia com discurso importante de José Leôncio

José Leôncio em
José Leôncio em "Pantanal" (Reprodução Globo)

Nos próximos capítulos de "Pantanal", a trama vai se posicionar contra a homofobia e colocará José Leôncio (Marcos Palmeira) como responsável por educar os peões de sua fazenda e não aceitar as agressões sofridas por Zaquieu (Silvero Pereira).

Após sofrer ataques homofóbicos de vários peões, liderados pelo machismo desenfreado de Tadeu (José Loreto), Zaquieu desistirá de morar no "Pantanal" e deixará uma carta de despedida para a patroa, Mariana (Selma Egrei). O personagem chegou ao Pantanal deslumbrado pela beleza da natureza e ansioso pela aventura, mas não suportou ser motivo de chacota e violência diária por parte dos peões.

Inicialmente, José Leôncio não repreendeu seus funcionários e filhos machistas (Tadeu e José Lucas), mas finalmente entendeu a gravidade do que aconteceu após ser interrogado por Irma (Camila Morgado) e Mariana. As duas se revoltaram com a partida de Zaquieu e cobraram mudanças por parte do latifundiário. "Acho frescura ele ter ido embora", diz José Leôncio. "O que fizeram com o Zaquieu se chama homofobia. E não é frescura ou brincadeira, apesar de ser tratada como tal. É crime, e está na lei", rebate Irma.

Incomodado, José Leôncio será obrigado a rever o próprio machismo, e chamará os peões para uma conversa ríspida, sem excluir os filhos da bronca. "O que aconteceu para ele ir embora desse jeito?", questiona o fazendeiro. Tadeu tenta fugir de qualquer tipo de responsabilidade, mas José Lucas admite: "Acho que foi ignorância da gente ter rido do jeito dele. "E daquele jeito, tinha como não rir? Nós só rimos do jeito esquisitinho dele. O senhor tinha que ver o pulinho que ele deu", dispara Tadeu. rindo.

Sem entrar no clima de deboche, Leôncio lembra da semana na qual Jove (Jesuíta Barbosa) chegou no Pantanal, e que seu filho sofreu machismo e violência nas mãos de Alcides (Juliano Cazarré). "Isso que vocês fizeram tem nome e não é piada. Chama homofobia, e é crime", explica. "Então vamos todos presos, a começar pelo senhor", rebate Tadeu.

"Pois é isso mesmo que deveria acontecer se esse país fosse sério. Comigo, com vocês e com todo mundo que ri do 'jeitinho dele'. Xadrez. Pelo que eu vi, de um a cinco anos. A verdade é que nascemos e crescemos rindo disso, achando que o que um sujeito fazia entre quatro paredes era prova de caráter. Mas acontece que não é. E já que estamos aqui, quero dizer que, de hoje em diante, quem fizer pouco caso de uma pessoa pelo motivo que for, pode juntar suas tralhas e seguir seu rumo", dispara José Leôncio, deixando os peões chocados. Tadeu questionará se o patriarca fará o mesmo com os filhos, e o fazendeiro não hesita: "Começando por vocês sim, que é para servir de exemplo. Ponto final".

Evolução do personagem

É importante que a trama de Bruno Luperi tenha trazido uma evolução para o personagem de José Leôncio, especialmente pelo fazendeiro já ter sido tão machista em capítulos anteriores. Em uma cena dolorosa de assistir, José Leôncio disparou contra Jove e deu um show de machismo, misoginia e homofobia. A aproximação de Jove com Juma (Alanis Guillen) foi o que motivou a discussão entre pai e filho. O peão deu a entender que o filho estava se relacionando com a moça e não gostou quando o herdeiro respondeu que é possível gostar de uma mulher sem o interesse sexual. Em conversa com Filó (Dira Paes), Zé Leôncio afirmou que o filho é uma "fêmea", o chamou de vagabundo por não ter uma profissão e o criticou por não ser como os outros peões do Pantanal.

"Sou homem, meu pai. Não preciso sair no braço com outro cara, não preciso andar de cavalo e contar vantagem sobre mulher para ser mais homem ou menos homem que o senhor", se defendeu Jove. "Você só tem meu sangue. Você puxou sua mãe e aquele avô jogador de baralho (...) Eu não sou o pai que você esperava e você não é o filho que eu queria ter mais eu. Faz tua mala e vai. Volta para o seu mundo, Joventino. Vamos tentar esquecer na medida do possível o desgosto que um tem feito o outro passar", disparou o dono das terras.

Em coletiva de imprensa sobre a novela, Jesuíta Barbosa explicou que é importante que a trama atual deixe claro a homofobia e o machismo latente de alguns personagens. "O Jove é um personagem que se envolve de forma antagônica. Ele chega da cidade, um cara urbano, cosmopolita, e vai para um ambiente completamente diferente. A tradução dessa nova história tem uma possibilidade de discutir esse outro lado, que é o lado que cria esse conflito com o Pantanal. Tem uma representação forte pro lado do filho. Não fica paternalista, como se apoiasse o pai que quer que o filho seja macho, peão. Tem uma outra discussão, a partir desse ganho que tivemos nessas novas gerações sobre discussão sexual, sobre empoderamento. Acho que a gente consegue criar essa diversificação agora. Isso é o mais importante".

Da mesma forma, Murilo Benício (que interpreta Tenório) explicou que fez questão de interpretar o vilão. "Na primeira conversa que tive com o Bruno Luperi, falei para ele não aliviar nada. É bom que as pessoas reconheçam essa figura. Tenório é tudo que a gente entende como ultrapassado, mas ainda existe aos montes. É uma forma de espelhar isso para quem ainda não conseguiu evoluir".

Combate à homofobia

Intérprete de Zaquieu, Silvero Pereira também concorda que os personagens homofóbicos acabam trazendo a discussão para o público de "Pantanal". Em entrevista ao Gshow, Silvero explica que José Loreto tem dificuldade de gravar as cenas nas quais Tadeu escancara sua homofobia, mas que ver isso na TV é importante para conscientizar o público. "O Zé Loreto sofre demais com isso quando temos que gravar. Ele argumenta que o Tadeu é um cara muito bacana, e questiona o porquê dele agir dessa forma. Mas é muito importante que aquele personagem exista, porque essas pessoas existem na vida real e estão presente do nosso lado. A gente, que faz parte da comunidade LGBTQIA+, compreende essas micro-violências o tempo inteiro", afirmou.

Mesmo que a LGBTQIA+fobia seja crime no Brasil há mais de dois anos, a violência só cresce. De acordo com dados do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2021, o número de ocorrências contra pessoas LGBQIA+ cresceram 20% em relação a 2020.

No ano anterior, a média foi de 4 casos de LGTBfobia por dia, considerando lesão corporal, homicídio e estupro. O Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQIA+, especialmente mulheres pessoas trans, de acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). Em 2020, foram 175 pessoas trans assassinadas, sem contar o número de crimes não declarados.