“Pantanal” provoca discussão sobre reforma agrária, embora flerte com estereótipos

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Juliana Paes interpreta Maria Marruá (Foto: Reprodução/Globo)
Juliana Paes interpreta Maria Marruá (Foto: Reprodução/Globo)

Rural e urbano, cidade e campo, relações de poder, violência, sexo: tudo é cuidadosamente simbólico e significativo no remake de “Pantanal”. O folhetim estreou na Rede Globo no fim de março e, desde então, tornou-se a nova febre do brasileiro. É também uma produção lucrativa para a emissora, que já embolsou mais de R$ 230 milhões.

A novela evoca temas como reforma agrária, luta pela posse da terra no Brasil, violência no campo, sexismo, e outras lacunas adoecidas do país. Assistir a sofrida Maria Marruá (Juliana Paes), retirante que perde muito de sua vida para as disputas de terra, nos aproxima do cenário agrário brasileiro, embora ele seja muito pior.

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Cenário de 2021: aumento de 75% nos assassinatos

Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) referente a 2021 revelam um aumento de 75% nos assassinatos (relação a 2020) em consequência de conflitos no campo. Além disso, foram dois massacres e aumento de trabalho escravo no campo.

Ainda de acordo com números da CPT, das 109 mortes registradas em 2021, contra 09 registradas em 2020, 101 ocorreram no território Yanomami, em Roraima, em decorrência da ação de garimpeiros.

Vale lembrar que o cenário também é preocupante quando falamos de queimadas no Pantanal. Segundo o MapBiomas, iniciativa do Observatório do Clima, 57% da área do Pantanal já foi queimada. Entre 1985 e 2020, nenhum bioma foi tão atingido pelo fogo.

28% do bioma foi consumido pelo fogo nos primeiros 10 meses de 2020

Conforme WWF Brasil, as queimadas de 2020 foram piores já registradas no Pantanal. Embora isso também tenha a ver com dinâmica da natureza no local, a ocorrência de incêndios propositais são práticas inadequadas que põem em risco a conservação da área.

O rural brasileiro nas telinhas

Benedito Ruy Barbosa, autor da versão original de “Pantanal”, exibida na TV Manchete na década de 90, não traz o ambiente rural em suas produções à toa. Sua infância tem uma imersão interessante no campo, já que nasceu em Gália, interior paulista.

É o que conta Antônio Hélio Junqueira, autor do trabalho “Narrativas do rural brasileiro na obra teleficcional de Benedito Ruy Barbosa: territórios do imaginário do desejo e dos conflitos pela terra”. “No período posterior à censura imposta aos produtos culturais da televisão, Benedito Ruy Barbosa veio a se destacar em três novas tramas rurais: 'Pantanal' (Rede Manchete, 1990), 'Renascer' (Rede Globo de Televisão, 1993) e 'O rei do Gado' (Rede Globo de Televisão, 1996-1997), consideradas pela crítica como uma trilogia do autor sobre a ruralidade brasileira e que se expandiu com a inclusão de 'Velho Chico', em 2016", pontua Junqueira.

Embora o “rural” seja tema comum, existe um problema: geralmente é retratado sob a ótica “do outro”, impregnada de um imaginário colonizador sobre como vivem as populações dessas regiões. “Deslumbre, fascínio, sedução e morte decorrentes do contato com criaturas fantásticas, mitológicas, são elementos recorrentes no universo simbólico medieval e tornam-se heranças coloniais que se reproduzem de modo abundante tanto no folclore amazônico ribeirinho, quanto no árido interior nordestino, nas bordas e costas atlânticas, nos meios dos matos e dos oceanos desse imenso Brasil”, escreve o professor.

Concorda com ele Idalice Rodrigues, da direção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Mato Grosso. “No Pantanal tem muita gente, muitas comunidades ribeirinhas, quilombolas… É um território ocupado por gente, por bicho. A novela poderia ter atualizado isso”, salienta em entrevista ao Yahoo.

MST e a organização dos trabalhadores rurais no Brasil

Embora Idalice faça questão de acompanhar a novela, devido a temática, ela está ligada mesmo é na organização dos trabalhadores rurais da sua região. Hoje, o país possui cerca de 33 milhões de pessoas sem moradia, segundo o relatório lançado pelo Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos. Desse número, cerca de 24 milhões vivem nos grandes centros urbanos.

A diretora faz parte de um grupo cada vez maior de mulheres que estão tomando a frente da luta pela terra. O MST hoje está com 80 mil famílias acampadas, muitas em áreas de conflitos. "Falar em Reforma Agrária, no inconsciente das pessoas, é mexer com a propriedade privada de terra, com o individual", diz Idalice.

O Movimento Sem Terra no Brasil afirma que "a forma de ocupação de nossas terras pelos portugueses estabeleceu as raízes da desigualdade social que atinge o Brasil até os dias de hoje". Organizado em 24 estados nas cinco regiões do país, o MST quer lutar por mudanças sociais no país a partir da descentralização das terras. Portanto, a Reforma Agrária aparece como principal bandeira do movimento.

Hoje, o Brasil é o país que mais exporta soja e tem o maior rebanho bovino do mundo. Ainda assim, estamos prestes a voltar ao Mapa da Fome da ONU. Os últimos dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), referentes a 2018, apontavam mais de 10 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave - 3 milhões a mais do que em 2013.

Afinal, por que falar de Reforma Agrária ainda assusta?

É preciso reconhecer que o remake se atualizou e deixou para trás o que “envelheceu mal”, assim como carrega dentro do elenco atores, atrizes, produtores, preocupados em minar estereótipos. Ainda assim, sem folhetins para “amaciar” ou até romantizar a luta de terras no Brasil, o tema segue censurado e “assusta” o brasileiro. O desconhecimento sobre nossa própria história pode ser uma das causas, mas o processo de marginalização constantemente feito com o assunto, gera distância.

Para Israel Bezerra, professor da Secretaria de Educação do Ceará e geógrafo vinculado ao Laboratório de Estudos Agrários, Territoriais e Educacionais (LEATE) da Universidade Federal do Ceará (UCF), o tema ainda é tabu porque há, como ele denomina, uma “pedra angular” na nossa sociedade, a propriedade privada. “No momento que se fala de reforma agrária, que se tenta estabelecer um parâmetro onde há garantia de produzir, de plantar, isso atinge em cheio o âmago de uma sociedade que tem a propriedade privada como algo fundamental”, explica.

O especialista, que também acompanha “Pantanal”, acredita que a novela pode criar um “elo de empatia” com cidadãos urbanos, fazendo com que pensemos nas condições dos trabalhadores do campo. Por outro lado, o debate pode não ser aprofundado da forma que deveria, já que a novela tem seus próprios objetivos (entretenimento, comercial). "O Brasil não é somente urbano, ele é agrário. Infelizmente nós temos dificuldade de conhecer a nossa própria realidade. Nessa perspectiva, de tirar essa invisibilidade que há sobre o espaço agrário, talvez (o folhetim) se apresente como fundamental, mesmo que a emissora que apresenta a novela seja uma das principais defensoras do modelo de concentração fundiária que nós temos", avalia.

Para Israel, uma simplificação pode prejudicar uma interpretação do mundo concreto, “mas o fato de ser trazido para a população brasileira de que o campo não é formado por indivíduos invisíveis, já é um elemento extremamente importante”, reconhece.

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