Meu bebê nasceu prematuro, com insuficiência respiratória e no meio da pandemia

Meu filho nasceu prematuro no meio da pandemia (Foto: Arquivo Pessoal)

Por Estefani Medeiros

No último dia 4 de Abril, o Ministério da Saúde emitiu um informativo incluindo puérperas e grávidas de alto risco entre os grupos de vulneráveis ao covid-19. Quase mês depois a doença virar notícia séria no Brasil, os hospitais já tomam medidas mais severas no atendimento a mães e recém-nascidos. Visitas suspensas, máscaras em médicos, motoristas de ambulância, seguranças, recepcionistas, enfermeiras e álcool em gel em cada manipulação nos pacientes. Mas, isso realmente acalma o coração de uma mãe prestes a dar a luz em meio a uma pandemia?

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Dei entrada no hospital no dia 17 de março, por volta das 17h30. Passei uma tarde tranquila até sentir leves contrações e perda de líquido. Minha bolsa estourou com 33 semanas e ainda não estava certa se o bebê nasceria naquela noite. 

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Uma semana antes tinha sido internada com um sangramento diagnosticado como descolamento da placenta, medicada e liberada para a casa depois de uma semana no hospital. Minha primeira fase de confinamento e picos de ansiedade. 

Na internação, junto com outras quatro mães no quarto, não pude ter meu companheiro como acompanhante (nenhuma de nós pôde). Em meio a relatos de violência obstétrica, dúvidas de iniciantes e notícias alarmantes sobre a mortalidade do vírus, me peguei enviando mensagens com taquicardia às 3h da manhã. 

"O mundo que meu filho vai nascer é bem diferente do que planejei há 8 meses atrás”

Liam nasceu com 33 semanas (Foto: Arquivo Pessoal)

Com a liberação veio o alívio da quarentena, mas não durou muito. Meu bebê não quis esperar. Não esperou chá de bebê, não esperou o mundo acalmar, não esperou a mamãe estar pronta, nem ensaio de barrigão pro Instagram. Ele nasceu na maca no quarto, após pelo menos quatro chamadas do meu marido na enfermagem, enquanto outras campainhas nos quartos vizinhos tocavam simultaneamente. Também não deu tempo de sala de cirurgia.

Conseguimos trazer uma enfermeira quando o corpo do bebê já estava metade pra fora. Não ouvi choro. Ele nasceu sentado e recebeu massagem cardíaca por estar cansado demais para respirar, nesse momento era meu companheiro quem não soltava a minha mão. Ele acompanhou o bebê por pelo menos quatro horas. Apaguei. Não peguei meu bebê no colo, não amamentei e não conheci seu rosto nesse primeiro momento, tão esperado por nós mães. A essa altura a notícia é que ele já estava sendo bem cuidado. Mas, só o conheci na manhã seguinte. 

O parto antecipado trouxe uma nova preocupação: um prematuro com insuficiência respiratória na UTI neonatal. Acordei com a informação de que o hospital em que fui internada não tinha vaga para a internação do bebê. E o hospital para onde ele seria transferido não tinha vaga pra mim. No dia seguinte à curetagem, me peguei assinando uma alta para sair com o meu filho de ambulância 12 horas depois do parto. Estava anestesiada demais pra pensar em mim mesma. 

"O medo do parto e da contaminação não pode ser maior do que a esperança”

Estefani e o pequeno Liam aos 3 meses (Foto: Arquivo Pessoal)

Nos primeiros dias de internação do meu bebê o meu companheiro ainda podia acompanhar as visitas sem proteção alguma. Máscara e touca eram só para a amamentação. Só nos dias que seguiram, esses itens passaram a ser itens obrigatórios para os funcionários. Nesse momento, a notícia de pacientes com suspeita de coronavírus no hospital já começavam a se espalhar.  E a gente entrou na neurose de limpar tudo que nos rodeava com álcool, lavagens de roupas incessantes, banhos e limpeza completa. Uma rotina que somada a duas horas de viagem, 8 horas de hospital e incontáveis lavagens de mão, rosto e trocas de absorvente se tornava exaustiva física e emocionalmente.  

Até ele ser liberado, uma semana depois, mal preguei o olho. Minha filha mais velha estava na avó a pelo menos quinze dias para evitarmos o contágio o máximo que pudéssemos, por isso as visitas constantes no hospital também fizeram com que me isolasse dela e dos avós. Foram dias longos e emocionalmente densos, de muita respiração profunda para tentar colocar a cabeça no lugar e ao mesmo tempo entender tudo que estava acontecendo. As palavras de conforto da família e amigos nos mantiveram de pé. 

Para as mães que ainda estão ou devem ir para o leito, a única coisa que posso dizer é que não é fácil, mas vai passar. Até lá, cuide de cada momento, de cada contato, e siga a risca as orientações com o recém-nascido. O medo do parto e da contaminação não pode ser maior do que a esperança em uma nova vida.

Provavelmente, sua família vai conhecer ele por vídeo, o puerpério vai ser dolorido, por isso, evite consumir notícias alarmantes, chame os queridos pra conversar, se alimente bem, amamente (ou alimente seu bebê) e durma o máximo que puder. Se conseguir antecipar a compra de itens básicos como fraldas e acessórios de bebê, faça. Do contrário, faça um chá de bebê online, não se culpe por não ter o quarto dos sonhos agora.

E o mais importante, respeite o isolamento. É possível, mesmo no hospital público, ser bem atendida e voltar para casa para uma recuperação saudável. Meu filho completou um mês em abril e o mundo realmente não é mais o mesmo, mas enquanto estivermos juntos e saudáveis, todo o resto pode esperar.