Na pandemia, aprendemos que mães não são as únicas responsáveis pelos filhos

As mulheres são sempre responsabilizadas pelo cuidado e bem-estar dos filhos (Foto: Getty Images)

Talvez uma das maiores lições que vamos tirar desta pandemia de coronavírus é que as mulheres não são as únicas responsáveis pela criação de um filho. Pelas redes sociais, temos visto mulheres comentando sobre as dificuldades de cuidarem de uma criança enquanto equilibram outras tarefas em uma situação totalmente atípica. 

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Entre cuidar da casa, fazer comida, garantir que os filhos fiquem entretidos, façam a lição da escola (transferida para casa), seguindo uma rotina minimamente próxima ao normal, e, muitas vezes, continuar trabalhando, a saúde mental das mulheres anda bastante comprometida — mas isso não é necessariamente uma novidade. Isso porque, historicamente, ficou sob responsabilidade delas o cuidado com as crianças, em tempo integral. 

As propagandas norte-americanas do pós-Segunda Guerra Mundial deixam essa diferenciação de papéis bem clara: para as mulheres, ter a casa perfeita e manter os filhos bem cuidados era a meta. Para os homens ficava reservado retomar o mercado de trabalho e garantir o sustento da casa. 

Porém, hoje vemos as consequências desse modus operandi: as mulheres estão estressadas, cansadas, sobrecarregadas e, até mais preocupadas do que os homens, já que as chances de elas perderem o emprego nesse período de pandemia é maior do que o dos homens. 

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Ao fim do dia, se uma criança fica doente, se ela tem febre, se pega o coronavírus ou se não se dorme bem por conta de uma dor de barriga, a culpa é sempre da mãe. Foi ela que não cuidou direito da criança, ela que não deu atenção o suficiente e ela que não foi responsável. 

Segundo a colunista Jessica Grose, do jornal 'The New York Times', existem registros da época anterior à Guerra Civil norte-americana (1861-1865) que explicam como criar uma criança era uma tarefa colaborativa e não individual. Parentes, amigos próximos e vizinhos faziam parte dessa vivência e ajudavam na criação e cuidados com os pequenos. Como resultado, a mãe não era vista como relapsa ou culpada se a criança ficava doente, por exemplo. 

Os índices de mortalidade infantil eram altos naquela época, nos anos 1700, mas a morte era vista como parte natural da vida e a vida de uma criança, assim como a de todos, estava nas mãos de Deus. Foi no século seguinte, após a Guerra, que os papeis masculinos e femininos começaram a ser determinados de forma mais exarcebada, e a mulher passou a ser vista como a responsável por tornar o lar um santuário. 

A tecnologia avançou muito, a medicina também, e hoje a probabilidade de uma criança morrer pelas mesmas causas, no Brasil, é menor do que naquela época. Ainda assim, a responsabilidade pelo bem-estar desse pequeno indivíduo segue sendo vista como da mulher. 

Segundo o IBGE, por aqui as mulheres que comandam os lares são maioria: mais de 50% das casas brasileiras são encabeçadas por mulheres, mães solo, que além de trabalharem precisam cuidar dos filhos. 

E tem mais. O suplemento "Aspectos dos cuidados das crianças de menos de 4 anos de idade", da Pnad 2015, mostra que quase 84% das crianças com essa idade (um total de 8,6 milhões) têm na mulher sua principal responsável, seja uma mãe biológica, de criação ou uma madrasta. 

Já na pesquisa Pnad Contínua de 2017, descobrimos que mais de 30% das mulheres acima de 14 anos cuidam de alguém dentro de casa, como um filho, um idoso ou um parente doente. Para os homens, o número cai para 21%. 

O mesmo vale para os cuidados pessoais dos filhos. No caso das mulheres, a sua atuação define 86,9% dos casos, enquanto, para os homens, a porcentagem é de 65%. O que entendemos com isso é que as mulheres cuidam mais dos filhos do que os homens. Tanto que em nenhum aspecto da pesquisa os homens superam as mulheres. Um dos únicos momentos em que esses números se aproximam é quando se fala em lazer e brincadeiras. Nesse caso, a atuação das mulheres é de 74% e a dos homens, 72,1%. 

Em um isolamento, quando pai e mãe precisam trabalhar na companhia dos filhos, e quando as dificuldades de manter a casa intacta ficam mais evidentes, percebe-se como essa tarefa não deve ser colocada nas costas de apenas uma pessoa. Já quando o assunto são as mães solo, a necessidade pode se mostrar de um jeito diferente, mas é a mesma: ter um sistema de apoio que possa colaborar nessa tarefa vira quase uma prioridade máxima. 

Mas, mais do que isso, a necessidade mesmo é de uma mudança na forma como pensamos a maternidade. Uma vez vista como solitária, volta-se a importância de ver a maternidade como algo coletivo. Se podemos pensar no cuidado com o próximo em tempos de pandemia dessa forma - afinal, ficar em casa é uma ação boa para todos, por exemplo -, porque seria diferente na formação de um novo indivíduo? Talvez ele se beneficie muito mais sabendo que pode contar com mais de uma pessoa. As mães, com certeza, agradecem.