Pandemia da Covid-19 'escancarou' as desigualdades no Brasil, afirma antropóloga Lilia Moritz Schwarcz na Flip

O Globo
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RIO — Professora titular de antropologia da Universidade de São Paulo (USP) e historiadora, Lilia afirmou neste sábado que a pandemia escancarou as desigualdades no Brasil, afetando sobretudo a população pobre e, principalmente, negra durante participação na edição digital da Festa Literária de Paraty (Flip).

— A pandemia entrou no Brasil como se fosse uma doença democrática, mas rapidamente mostrou que não tinha nada de democratica. Se podia ser democrática na contaminação, não era democratica no número de mortes. Ela afetou sobretudo as populações pobres e, dentre as populações pobres, nomeadamente as negras — afirmou Schwarcz. — Uma pandemia não traz nada, mas escancara algumas características do país. Nesse caso, a desigualdade.

A antropóloga, que é autora de diversos livros, como "Lima Barreto: visionário" e, mais recentemente, em 2019, "Sobre o autoritarismo brasileiro", esteve na mesa 6 da Flip, chamada "Sobre o autoritarismo", que foi mediada por Flavia Lima, jornalista e ombudsman do jornal Folha de S.Paulo, e Flavia Rios, socióloga e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Questionada sobre o presidente Jair Bolsonaro e seu governo, a antropóloga opinou que Bolsonaro é "um sintoma do nosso autoritarismo", que, segundo ela, não é o único elemento que explica o avanço desse sistema no Brasil.

— Na verdade, não se trata de um retorno. Ele [o autoristarismo] sempre esteve aí, um pouco de lado, com um pouco de vergonha, desde a Constituição de 88 — opina Schwarcz. — Não existe democracia plena, mas vamos dizer que nós tínhamos governo de perfil mais democrático, se não a gente não entende a eleição de Jair Bolsonaro.

Para ela, Bolsonaro faz parte de um movimento internacional que começou já em 2017, com governos que se caracterizam por serem formados por homens, que governam de forma "muito viril", que não conversam com a população, populistas e sempre com "frases curtas, rápidas, de fácil e breve absorção".

Segundo a antropóloga, a novidade foi como eles foram eleitos:

— O que é novo nesse momento no Brasil e fora é o fato que esses são governos populistas, autoritários e tecnocratas, ou seja, que conseguiram se eleger a partir das redes sociais. É uma novidade muito forte no mundo e muito forte no Brasil.

Ao final da conversa, Schwarcz destacou o fato da mesa ser formada por três mulheres, sendo duas negras. E salientou o papel do feminismo negro na sociedade, que "tem dado uma lição de moral, revertendo a História, contando uma outra narrativa":

— Eu estou convencida que nós não teremos uma democracia no Brasil, como dizem os movimentos negros, enquanto o Brasil for tão racista.

Mais mesas

Ainda neste sábado a Flip terá outras duas mesas. A primeira, às 18h, com o tema "Ancestralidades", com dois romancistas: um brasileiro, Itamar Vieira Junior, e um nigeriano, Chigozie Obioma, falando sobre a vida rural de personagens que vivem às voltas com religiosidades de matriz africana. O evento tem mediação de Ángel Gurría-Quintana, que é jornalista, editor e tradutor.

Mais tarde, às 20h30, a mesa "Transições", terá o músico Caetano Veloso e o escritor espanhol Paul B. Preciado, para falar sobre liberdade, contando sobre suas próprias histórias de quebra de paradigmas, também com mediação de Gurría-Quintana.