Será que cansamos das celebridades e dos influenciadores?

Gal Gadot, a Mulher-Maravilha, foi amplamente criticada nas redes por suas ações referentes à pandemia do coronavírus (Foto: Instagram)

Quando a situação fora de casa beira o caótico (ou passa dele), o que acontece com as celebridades? Bom, temos visto de perto como aqueles que antes eram praticamente venerados por fãs e explorados pela própria mídia hoje perdem a relevância se, no mínimo, não usam a sua voz e poder de influência para mudar ou amenizar a situação global. 

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Sim, essa parece uma tarefa muito difícil para alguns poucos que entraram de cabeça na fama - e conseguiram ficar lá. Seja por conta da profissão em si, como os atores mais bem pagos de Hollywood, seja por conta da internet, a fama sempre foi um objeto de desejo daqueles que se viam longe dela. Mas agora que todos precisam ficar dentro de casa pelo bem comum, será que a fama é tão interessante assim? 

É fácil perceber, na verdade, que não é um bom momento para ser famoso, como disse um artigo do 'New York Times’, publicado em março deste ano. O vídeo repleto de celebridades cantando a música 'Imagine’, de John Lennon, em um projeto encabeçado por Gal Gadot é prova viral disso: a ideia de que um famoso precisa apenas mostrar o rosto e passar uma mensagem de positividade e união deixou de ser o suficiente no momento que a situação mudou, e o sistema tal qual o conhecemos começa a mostrar algumas das suas maiores falhas. 

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Outro ponto é um que não podemos deixar de citar aqui: o privilégio. Uma das maiores influenciadoras norte-americanas, Arielle Charnas, causou revolta online ao ser diagnosticada com COVID-19 e mostrar o seu dia a dia com a doença. Dentre os equívocos cometidos por ela, estão sair da cidade de Nova York para passar a quarentena em outra cidade menor (um movimento que se mostrou comum entre a alta sociedade nova-iorquina), abraçar e beijar os filhos, mesmo doente, nos Stories, e um comentário do marido dizendo que só pessoas "gostosas" pegam o vírus. 

Para deixar a questão mais próxima, não precisamos cruzar o continente. Por aqui, as lives bem produzidas dos muitos músicos brasileiros têm deixado claro os seus privilégios. São milhões de visualizações para vídeos bem feitos, com som de ponta, múltiplas câmeras e até convidados… Com certeza, o tipo de coisa que não foi feita só pelo próprio artista com o seu próprio celular. 

Uma imagem dos bastidores de uma live da dupla sertaneja Jorge e Mateus viralizou porque mostrava o nível da aglomeração para transmitir o evento - uma foto mostrava um garçom circulando pelo ambiente com uma bandeja. Vale notar que a assessoria de imprensa da dupla negou a aglomeração e explicou que a equipe trabalhou em turnos justamente para evitar que muitas pessoas ficassem juntas em um mesmo espaço. 

Arielle mora em um país onde não existem hospitais e atendimento médico público, e mostrou nos Stories como recebeu ofertas de médicos que eram amigos para fazer o exame de diagnóstico da doença. Tanto lá quanto aqui, a falta de testes o bastante para todos engana os números que, dizem, é bem maior do que os registrados até agora. Por um lado, pelo menos por aqui podemos contar com o Sistema Único de Saúde, mas é ilusão acreditar que ele tem recursos o suficiente para lidar com uma pandemia. Aliás, vale citar que nem o sistema público e nem o privado conseguem atender tantos contaminados ao mesmo tempo.

Alguns dos maiores nomes brasileiros, como Luciano Huck, Neymar e o músico Thiaguinho se uniram para incentivar as pessoas a doarem pela causa. A ação foi amplamente criticada justamente porque juntavam pessoas conhecidamente ricas. Neymar, acusado de sonegação de impostos em valores milionários no Brasil, doou, sozinho R$ 5 milhões destinados em parte à UNICEF e, em parte, ao fundo criado por Luciano para o combate à doença. 

O tal fundo, aliás, arrecadou um total de R$ 1,5 milhões. Comparado à riqueza das pessoas envolvidas e considerando que outras celebridades fizeram doações maiores e mais direcionadas ao combate - Lionel Messi doou um milhão de euros para hospitais na Espanha e na Argentina, e Cristiano Ronaldo doou 35 leitos de UTI totalmente equipados para hospitais portugueses -, a crítica do público parece válida. 

Voltando ao mundo da música, enquanto Madonna postou no Instagram uma série de vídeos de viés artístico (e que com certeza contaram com uma grande equipe para serem feitos), Lady Gaga desenvolveu um festival online em prol da Organização Mundial de Saúde e já arrecadou doações milionárias de grandes empresas, como a Apple, e outras celebridades para o fundo da OMS de combate à doença.

É sobre conexão e não sobre fama

A ideia não é maldizer doações ou a vida pública dos famosos. Pelo contrário, neste momento quanto mais ajuda, melhor - principalmente se a ajuda puder ser resumida em "fique em casa". A questão é que o que antes parecia desejável para muitos, agora se mostrou praticamente uma maldição. 

A ideia de ser rico, famoso e influente cai por terra quando essas pessoas deixam de lado o mais importante: a conexão com o próprio público. Quando todos estão em casa o tempo inteiro, colados na internet, a busca por autenticidade cresce - e muito, como diz a aceleradora do mercado de influência YouPix -, e a tolerância para o superficialismo e a falta de engajamento chega no seu nível mais baixo. 

É um rever de valores. Colocar pessoas em pedestais, invejar sua fama, dinheiro, casas gigantescas e milionárias nos lugares mais paradisíacos do mundo era comum e até incentivado. Mas quando o bem mais precioso é a conexão com outra pessoa, uma busca por algo que alivie a dor que todos sentem - seja física, por conta da doença, ou emocional, por causa do distanciamento -, aqueles que não oferecem um mínimo de empatia e consciência social serão considerados irrelevantes. 

É por isso que tem-se falado tanto sobre taxarmos as grandes fortunas, distribuição igualitária de renda e investimentos em saúde, educação e, claro, pesquisas científicas. No fim das contas, as vidas perfeitas de alguns e os seus privilégios mais machucam do que ajudam em um momento quando boa parte da população luta pelo mínimo. 

Essa é, mesmo, uma fase de virada para a humanidade, em que é bem possível que aqueles que não se colocarem em um lugar de empatia, cuidado e conexão com os seus próximos, que lutem junto por aqueles que precisam e que usem as suas vozes para gerar mudanças pelos que estão preocupados demais tentando sobreviver mais um dia terminem a quarentena completamente esquecidos.