Pós-Carnaval de 'Fim de Festa' traduz aura de ressaca do Brasil atual

CLARA BALBI
SÃO PAULO, SP, 03.03.2020 - O ator Irandhir Santos na pré-estreia do filme

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Carnaval não acabou ainda quando Breno, policial vivido por Irandhir Santos em "Fim de Festa", volta para casa, suas férias interrompidas pelo assassinato de uma turista francesa.

Os restos de fantasia ainda estão jogados no sofá quando ele é obrigado a encarar o cenário mórbido do crime, o usuário de crack que serviu de testemunha, a escandalosa camiseta com os dizeres "Emma, eternamente viva em nossos corações" que a sogra da vítima veste.

O assassinato da alemã Jennifer Kloker, ocorrido na região metropolitana do Recife numa folia de dez anos atrás, inspirou a trama (e a camiseta).

Mas o cineasta Hilton Lacerda -roteirista central para o cinema pernambucano desde os anos 1990, que aqui dirige o segundo longa- conta que a decisão de situar a narrativa no feriado foi, acima de tudo, simbólica.

"Esse Carnaval de que falo não é uma data específica, mas um vácuo de tempo em que as coisas pareciam dar certo e, de repente, nos demos conta de que era Quarta-Feira de Cinzas", diz. "É como o Brasil, que tenta ir para frente, mas sempre leva uma rasteira."

A ressaca que se abate sobre o país hoje, aliás, contamina todo o longa, vencedor dos troféus de melhor filme e roteiro do último Festival do Rio.

Um grupo de jovens tenta prolongar os dias de festa com uma suruba eterna, mas é obrigado a se confrontar com as questões raciais que os dividem. As máscaras logo dão lugar ao desejo, enunciado por diversos personagens, de ir embora do Brasil.

É o protagonista Breno, no entanto, que mais incorpora esse desânimo. Irandhir Santos conta que partiu de sintomas corporais da ressaca para compor o personagem de fala pausada e olhar exausto.

Um detetive nos moldes dos filmes noir de antigamente, ele é o oposto do que se esperaria de um policial brasileiro. Aceita com naturalidade a homossexualidade do filho, com quem compartilha o nome de batismo. Fuma maconha. Quanto à violência, tão arraigada na sua profissão, parece relegada a um passado misterioso.

"Ele usa o trabalho para fazer autoanálise", diz Santos. "As perguntas que ele faz nos inquéritos são quase que para ele mesmo, como se houvesse um espelho na sua frente."

A angústia do policial transparece no corpo. Breno é cheio de manias -ajeita golas das camisas alheias, afivela e afrouxa o relógio, batuca qualquer superfície disponível. Da Quarta-Feira de Cinzas até o domingo, não consegue dormir.

Seu estado de espírito é diametralmente oposto àquele de Clécio, que Santos interpretou no primeiro filme de Hilton Lacerda, "Tatuagem", de 2013. O líder da trupe teatral Chão de Estrelas era debochado e não tinha medo de desafiar a censura militar.

Lacerda afirma, no entanto, que as duas tramas não são tão distantes assim.

"Às vezes, penso que não prestaram muita atenção ao 'Tatuagem'", diz o cineasta. "Como nos outros filmes que escrevi, estava falando sobre como aquela liberdade do Chão de Estrelas era muito restrita. Toda vez que esses núcleos anárquicos ultrapassam uma fronteira são punidos."

O ator Rodrigo Garcia interpreta Paulete em cena de 'Tatuagem', dirigido por Hilton Lacerda Flávio Gusmão/Divulgação        Na visão do diretor, o Breno de "Fim de Festa" é filho da euforia da democratização daquela época -e se desespera ao constatar que o futuro de emancipação previsto por seus pais nunca chegou.

Santos concorda. "Ele é carne de carnaval, mas congelada. Era um cara que brincava, que pregava o amor livre."

Mesmo havendo paralelos entre os dois longas, as filmagens de "Tatuagem" e de "Fim de Festa" tiveram climas bem diferentes, diz o ator.

Em parte, porque as gravações do segundo coincidiram com o período eleitoral, que levou Bolsonaro ao poder. "Era um set de ressaca. Foi num momento em que vislumbrávamos isso que hoje está acontecendo", diz, sobre a crise que o cinema nacional atravessa desde o ano passado.

Questionado se a chegada de Regina Duarte à Secretaria Especial da Cultura, oficializada em cerimônia nesta semana, pode ajudar a reverter esse pessimismo, Santos responde que não.

"Não tenho como desatrelar o cargo dela desse governo, que é muito claro em seu ataque à arte. Nosso cinema vai voltar a respirar quando ele sair."