Péricles Cavalcanti investiga a evolução humana em disco que vai do dub ao choro

*ARQUIVO* SAO PAULO, SP, 04.05.2016:  Pericles Cavalcanti, compositor  -   Abertura da exposicao Rever, de Augusto de Campos, com curadoria de Daniel Rangel. (Foto: Bruno Poletti/Folhapress)
*ARQUIVO* SAO PAULO, SP, 04.05.2016: Pericles Cavalcanti, compositor - Abertura da exposicao Rever, de Augusto de Campos, com curadoria de Daniel Rangel. (Foto: Bruno Poletti/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A especulação sobre o destino da espécie humana frequentou a mente do compositor Péricles Cavalcanti no período de criação de seu novo álbum, "Saltando Compassos", que chega às plataformas digitais. "A Grande Jornada" é uma canção-irmã de "Depois da Terra", e a distância entre as duas é a mesma da origem ao fim do mundo.

"Fomos um bando em debandada na savana/ Depois cruzamos o deserto e o mar aberto/ Atrás de água e alimento/ Atrás de abrigo e assentamento/ Falta muito pra chegar, ô mãe?/ Falta muito pra chegar, ô pai?", diz a letra de "A Grande Jornada". A outra canção questiona o mundo após o fim: "Depois da Terra/ Depois de flora e fauna exterminadas/ Depois do Sol/ Depois que toda luz for apagada".

"Lee Perry, do reggae fundamental, do dub, foi uma referência pra ‘Grande Jornada’. Eu queria uma coisa que tivesse o clima dos dubs. Na hora em que fui cantar, surgiu o assunto da evolução da espécie. É o que me interessa mais, fora da ficção", conta Cavalcanti, de 74 anos. "Sou um leitor de teoria da evolução. Leio muitas coisas sobre antropologia."

A convite do músico, o cineasta Jorge Furtado e o diretor de fotografia Alex Sernambi criaram um clipe para "A Grande Jornada". A animação incorpora momentos civilizados e bárbaros da evolução humana —as grandes navegações, as guerras mundiais e a conquista do espaço. Cavalcanti reconheceu alguma semelhança entre sua música e o curta "Ilha das Flores", de Furtado, que, a seu ver, reflete pelo lixo o destino da humanidade.

"‘Grande Jornada’ é a aventura da espécie humana. A gente ainda está longe de chegar à terra prometida da paz", afirma Jorge Furtado. "Chamei Alex Sernambi, artista plástico, muito bom nas colagens, pra fazer o clipe pensando nessa história da humanidade. Criamos uma teoria unificada, tipo Deus criou o Big Bang pra começar a história propondo um acordo. E viemos até hoje, com as guerras e os refugiados".

Nove anos depois de "Frevox", Péricles Cavalcanti fez seu primeiro álbum de inéditas. Apenas três das 14 canções foram compostas antes da pandemia. "No repertório dos discos anteriores, sempre regravei coisas do Asdrúbal Trouxe o Trombone ou músicas que Adriana Calcanhotto ou Gal Costa gravaram. Mas isso já não aconteceu no EP ‘Clássicos Daora’, de 2019. O novo álbum não tem regravação. Não tem isso de raspar o tacho".

"Saltando Compassos", título extraído da última faixa, tem participações de Adriana Calcanhotto, Marietta Vital, Ana Frango Elétrico, Leo Cavalcanti, seu filho, e do membro da banda pop argentino-mexicana Paté de Fuá, Yayo Gonzalez.

O salto de compassos traduz seus saltos de gêneros. A influência dos dubs de Lee ‘Scratch’ Perry se afirma em "A Grande Jornada"; do trap, em "Vai Dar Certo". O choro clássico de Jacob do Bandolim o inspirou em "Choro Alegre". Das sugestões da música pop de países africanos, veio o "Afrocanto". Ele então salta para o samba-choro "Maneira", em parceria com Arnaldo Antunes. E deste parte para o bolero-bossa "Eso Que Tu Llamas Amor" e a bossa nova de "Seja o Que For".

"No caso do ‘Afrocanto’, eu vi um documentário sobre música pop no Senegal. A música pop africana é maravilhosa. Isso foi uma referência, quis armar umas coisas que tivessem uns riffs de guitarra com aquele suingue próprio da música africana. E a letra tem a ver com a libertação. Talvez seja a música mais ligada ao momento político."

As experiências musicais em Londres, a partir de outubro de 1969, reverberam de alguma forma no faro experimental do compositor, que só estreou em disco muito mais tarde, em 1991. "Havia uma tendência nos anos 1960, que se mantém hoje, de não distinguir alta e baixa cultura. E nisso entra a experimentação. A vivência da música popular, no final da Swinging London, foi fundamental para nós todos —eu, Caetano Veloso, Gilberto Gil", afirma Cavalcanti.

"A música inglesa pop dos anos 1960 criou uma maneira de produzir disco. Tive proximidade com a maneira relax dos ingleses de fazer música. Muitos deles não são grandes músicos, se comparados tecnicamente com os americanos. Os ingleses são meio amadores, mas ver aquilo acontecer com um acabamento pop tão bom nos influenciou. Eu nem sabia que ia compor."

Cavalcanti gravou o disco no estúdio montado em seu apartamento em São Paulo. Esse estilo de produção se repete desde o álbum "O Rei da Cultura", de 2007. "Quando a gente põe a mão na massa, pode errar. E há acasos que ajudam. Só não dá pra gravar bateria e quarteto de cordas. Eu pude experimentar mais. E experimentar soluções".

SALTANDO COMPASSOS

Onde Nas plataformas digitais

Autor Péricles Cavalcanti

Produção DeleDela

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