A toxicidade de ouvir constantemente a mensagem "não desista"

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A toxicidade de ouvir constantemente a mensagem "não desista". Foto: Getty Images

Não desista nunca.

Não se renda jamais.

É preciso se esforçar mais.

Essas frases são a verdadeira representação da ditadura do voluntarismo, a ditadura do "sim, eu consigo", custe o que custar. E quando não conseguimos, é porque somos preguiçosos demais, não nos esforçamos o suficiente, ou somos fracos mesmo.

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Dessa forma, frases que foram pensadas para motivar e dar força acabam provocando o efeito oposto: elas levam à exaustão e condenam as pessoas a sentir sempre o sabor amargo do fracasso.

Talvez a realidade não seja tão inspiradora, mas às vezes, para seguir em frente, precisamos dar um passo atrás; para crescer, precisamos aprender a abandonar os projetos, sonhos ou pessoas que não ocupam mais um lugar relevante em nossas vidas.

Manter metas inatingíveis é prejudicial para a saúde física e psicológica

Ninguém duvida de que é preciso ter perseverança para superar obstáculos, uma qualidade importante e até admirável. Objetivos ambiciosos exigem um compromisso sério e muito esforço. O problema começa quando nos agarramos a metas inatingíveis ou que perderam sua razão pelo caminho, só porque pensamos que não podemos desistir. Em momentos como esses, desistir e tomar outro rumo é uma decisão mais sábia do que continuar tentando várias vezes sem sucesso.

Quando nos esforçamos para alcançar um objetivo impossível, muitas vezes vivemos experiências contínuas de fracasso que acabam sendo muito prejudiciais. Ficamos condenados a viver uma variante deprimente do filme "Feitiço do tempo", em que a realidade se repete continuamente, vamos ficando cada vez mais abalados, sem autoestima e sem eficácia pessoal, até que acabamos acreditando que somos inúteis.

O pior é que, em muitos casos, essa perseverança nem sequer vem da motivação pessoal, mas sim da pressão social. Acreditamos que desistir é sinônimo de fracasso e que os outros nos julgarão mal por isso. O medo do julgamento social e o estigma implícito da desistência acabam motivando o comportamento que mantém as pessoas vinculadas a metas inatingíveis que já não significam nada.

As consequências dessa teimosia acabam nos afetando psicologicamente, mas o impacto negativo também pode se estender à nossa saúde física, como verificaram os psicólogos Gregory E Miller e Carsten Wrosch. Ambos analisaram as consequências da frase "não desista" em 90 adolescentes que lidaram com metas inatingíveis ao longo de um ano.

Eles descobriram que aqueles que tiveram mais dificuldade em desistir das metas apresentaram concentrações crescentes de proteína C-reativa, uma molécula inflamatória que dá origem a várias doenças.

Eles concluíram que "quando as pessoas enfrentam situações em que não conseguem atingir um objetivo fundamental da vida, a resposta mais adaptativa à saúde física e mental pode ser desistir desse objetivo".

Desistir no momento certo permite explorar novas oportunidades

A história de Tina Kiberg pode nos ajudar a entender melhor a importância de desistir de certos objetivos. Segundo conta um amigo dela, Lars Hee, quando criança, Kiberg tocava violino. Embora praticasse muito, ela não conseguia se destacar. Um dia, percebeu que, mesmo com muito esforço, não se tornaria nunca uma grande violinista. Em vez disso, descobriu a aptidão para cantar. Deixou o violino, começou a fazer aulas de canto e se tornou uma cantora de ópera de renome mundial.

Se Kiberg não tivesse desistido do violino, provavelmente hoje seria uma violinista medíocre. Ter coragem de desistir, expandir os horizontes e procurar a verdadeira vocação foi a receita para o sucesso dela.

Um estudo realizado na Universidade de Concórdia constatou que a possibilidade de desistir de objetivos inatingíveis está associada a menos estresse, menos pensamentos intrusivos sobre problemas pessoais e o sentimento de ter maior controle sobre a própria vida. Por outro lado, a tendência de obsessão com objetivos inatingíveis foi associada a um maior nível de estresse, mais pensamentos negativos indesejados e um menor senso de controle.

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Desistir no momento certo permite explorar novas oportunidades. Foto: Getty Images

Isso significa que há tempo para tudo, para tentar e para desistir. Determinação não significa continuar fazendo o que não está dando certo por pura teimosia. A ideia não é cair e se levantar só para cair de novo. Determinação significa ter capacidade de definir sonhos e metas amplos o suficiente para ser alcançados mesmo se os planos A e B falharem. Significa ter inteligência e flexibilidade suficiente para não se comprometer de forma incondicional com um caminho quando suspeitar que é um beco sem saída.

Precisamos lembrar que, geralmente, quando uma porta se fecha, muitas outras se abrem. Se continuamos batendo na porta fechada, não podemos aproveitar as portas abertas. Se nos agarramos a algo impossível, não só ficamos presos, mas fechamos as portas para novas oportunidades. É preciso ter em mente que "escolher um caminho significa abandonar outros. Querer percorrer todos os caminhos possíveis é acabar não percorrendo nenhum", como bem observou Paulo Coelho.

Às vezes, é preciso muita coragem para desistir de um objetivo

Saber desistir de certos objetivos, projetos ou pessoas no momento certo pode ser sinal de maturidade e sabedoria. Na verdade, às vezes é preciso mais coragem para desistir do que para perseguir um objetivo. Admitir que não podemos alcançar uma meta depois de investir tempo e esforço pode ser doloroso.

<strong>Às vezes, é preciso muita coragem para desistir de um objetivo. Foto: Getty Images</strong>
Às vezes, é preciso muita coragem para desistir de um objetivo. Foto: Getty Images

Podemos sofrer pensando que seria um custo irrecuperável e que temos que continuar apenas para não jogar esse investimento fora. Não percebemos que, se depois de várias tentativas sem sucesso não chegamos a lugar algum, a coisa mais sensata a fazer é explorar novos horizontes e investir em outros objetivos. Quando descobrimos que algo não é para nós, talvez faça mais sentido desistir. Isso não significa que somos fracos ou conformistas, mas que valorizamos nosso tempo, energia e recursos de forma justa e decidimos investi-los com sabedoria.

Se as circunstâncias mudam ou nós mudamos, o plano que tínhamos elaborado pode não ser mais viável ou significativo. Se o mundo muda o tempo todo, não há razão para que nossos objetivos permaneçam inalterados. Temos o direito de reavaliar nossos objetivos e repensar nossos planos. Temos o direito de desistir quando algo impossível nos faz mal. Temos o direito de mudar de direção quando encontramos um objetivo pessoal mais significativo ou satisfatório.

Não há nada de errado em reconhecer que podemos estar errados ou que preferimos percorrer outro caminho, que queremos trocar algo que não funciona por algo que é possível alcançar. Não é uma desculpa para ficar mudando de objetivo o tempo todo, deixando todos os projetos inacabados, mas sim uma oportunidade de retomar nossas vidas quando, depois de muitas tentativas malsucedidas, nossos objetivos acabam trazendo mais sofrimento do que felicidade.

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