Otimistas vivem por mais tempo e com melhor qualidade de vida

O copo sempre está meio cheio (Foto: Getty Images)

Por Cristiane Capuchinho

Em momentos de incerteza, você espera que aconteça o melhor? Você se definiria como um otimista em relação ao seu futuro? Se respondeu não a essas perguntas, acenda o alerta.

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Pesquisas científicas apontam a existência de uma relação entre uma expectativa otimista do futuro e uma vida mais longa, com melhor qualidade de vida, com menos problemas psicológicos, como a ansiedade e a depressão.

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“Não estamos falando do otimismo como pensamento sempre positivo de que tudo vai dar certo e ponto. Esse otimismo, que chamamos de irrealista, não vai melhorar sua saúde”, explica Márcia Calixto, psicóloga que estudou o otimismo em seu doutorado na PUC-Campinas.

“Tem que ter expectativas positivas sobre o futuro, mas é preciso um senso de autoeficácia, ou seja, que sensação de que ele pode mudar as coisas, e ter persistência”, detalha a coordenadora do curso de psicologia do Centro Universitário Salesiano de São Paulo.

Um estudo publicado em setembro por pesquisadores da Universidade de Boston e da Universidade de Harvard analisou dados de saúde de mais de 70 mil pessoas e concluiu que mulheres e homens mais otimistas viveram mais tempo que os pessimistas.

Para chegar a esse resultado, as informações de saúde de dois estudos anteriores foram usadas: um com dados de 69,7 mil mulheres, acompanhadas entre 2004 e 2014; outro com informações de 1,4 mil norte-americanos, seguidos na pesquisa por 30 anos, de 1986 a 2016.

Os grupos foram divididos em quatro grupos, conforme respostas mais ou menos positivas em testes psicológicos de otimismo. Os pesquisadores identificaram que as mulheres mais otimistas viveram em média 14,9% mais que as suas companheiras mais pessimistas. Ou seja, para pessoas com uma expectativa de vida de 70 anos, a diferença é de uma década.

O efeito se repetiu entre os homens, a diferença era de 10,9% entre os mais otimistas e os mais pessimistas. Entre as mulheres, a chance de chegar aos 85 anos foi 1,5 vez maior entre as mais otimistas, e entre os homens, foi 1,7 vez maior.

Para esse resultado, os pesquisadores controlaram a comparação em relação a condições socioeconômicas e de saúde dos pacientes, para evitar o efeito de outros fatores sobre o resultado da longevidade.

Uma pesquisa anterior feita a partir dos dados populacionais dessas mulheres, publicada no ‘American Journal of Epidemiology' em 2017, já havia demonstrado que mulheres mais otimistas tinham risco de morte menor que o das pessimistas para diversas doenças, inclusive as cardíacas (38% menos risco) e o câncer (16% menos risco).

Mais otimismo, mais saúde

Tudo tem um lado bom (foto: Getty Images)

Apesar de não termos estudos ainda que estabelecem uma relação de causa-consequência entre a forma de ver o futuro e a qualidade de vida, o resultado aprofunda o conhecimento do efeito positivo do otimismo na saúde.

Uma das hipóteses é a de que pessoas mais otimistas “consigam regular as emoções e seus comportamentos, além de conseguir superar de maneira mais eficiente momentos de estresse e dificuldades”, aponta a pesquisadora e coautora do estudo Laura Kubzansky, da Universidade de Harvard.

A relação entre a forma positiva de perceber o futuro e sinais de bem-estar psicológico está bem documentada na literatura médica e há instrumentos de questionário usados para a avaliação da forma de ver a vida, em uma escala entre o pessimismo e o otimismo. No entanto, a avaliação das características cognitivas no tratamento da saúde ainda é muitas vezes usadas com foco nos pontos negativos, que podem atrapalhar o tratamento.

“No hospital, muitas vezes a avaliação vai focar em traços psicopatológicos que vão dizer se o paciente tem sinais de depressão, estresse, ansiedade, coisas que vão reduzir sua adesão ao tratamento de um câncer, por exemplo”, cita Márcia Calixto.

Para a psicóloga, no entanto, a avaliação das características positivas permite o mapeamento da situação e, assim, criar estratégias de intervenção que potencializam os tratamentos de saúde.

“Por que há pessoas que com o diagnóstico de câncer vão assumir que aquilo vai levar à morte e outras vão parar e pensar em buscar as formas de tratamento? A pessoa otimista tem uma tendência a buscar todas as ferramentas para superar todas as adversidades e assim continuar”, detalha.

O campo de estudo é considerado promissor na saúde, pois é possível desenvolver atividades para aumentar o chamado otimismo realista, ou seja, a interação entre expectativa positiva da pessoa em relação ao futuro, autoeficácia e persistência.

E como fazer isso?

Rotinas como relembrar coisas boas que aconteceram no seu dia ou momentos que trouxeram bons sentimentos podem ajudar. O exercício de tentar entender como foi que algo bom aconteceu e o que você pode fazer para chegar a esse resultado ajudam a melhorar a expectativa do futuro e desenvolver a sensação de autoeficácia. Isso pode ser feito individualmente em um diário ou de maneira orientada em uma terapia.

O objetivo é buscar em si mesmo outras formas de pensar a situação. Se a questão é se sentir impotente diante do tamanho e da profundidade dos problemas, uma estratégia é tentar focalizar o que você pode fazer no âmbito da sua vida para combater aquele problema localmente, pode ser melhorar o tratamento dos idosos começando pelos vizinhos, por exemplo, ou discutir racismo com as pessoas da sua vida. A possibilidade de alterar a realidade no seu entorno, mesmo que em pequena escala, dá a sensação de poder agir para melhorar a vida.

“Se alguém diz ‘as coisas nunca dão certo para mim’, todo o trabalho será buscar com ele evidências na realidade para desconstruir essas chamadas crenças irracionais. Temos a tendência de pensar de maneira absolutista nas coisas, ‘sempre’, ‘nunca’. Essas falas muito extremistas são lugares para trabalhar na terapia questionando”, explica a psicóloga de abordagem cognitivo comportamental.