Osso esculpido por neandertal pode ilustrar atividade simbólica

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Representação de um homem de Neandertal, no Museu Nacional da Pré-história de Eyzies-de-Tayac, em julho de 2004

A descoberta de um osso esculpido por um neandertal há 51 mil anos reforça a ideia de que essa espécie humana era capaz de atividade simbólica, há muito considerada uma capacidade única ao Homo sapiens, de acordo com um estudo publicado nesta segunda-feira (5).

Trata-se de um pequeno pedaço de osso encontrado durante escavações no norte da Alemanha em um local próximo a Einhornhöhle.

Com cerca de seis centímetros de comprimento e quatro de largura, possui dez linhas gravadas em um lado, seis das quais formam cinco divisas. Com uma precisão que exclui um gesto acidental.

Este desenho "provavelmente simboliza algo que tinha significado para os neandertais como um grupo", disse à AFP o Dr. Dirk Leder, arqueólogo do Escritório do Patrimônio da Baixa Saxônia.

As descobertas ligadas aos neandertais, ramo do gênero Homo que desapareceu há cerca de 40.000 anos, têm aumentado nos últimos anos. Assim como a curiosidade a respeito deste "primo" do homem moderno, há muito considerado sua versão mais crua.

Em artigo que acompanha o estudo, publicado na Nature, a paleoantropóloga britânica Silvia Bello lembra que os neandertais sabiam fazer ferramentas com ossos para tratar peles de animais e podiam realizar rituais fúnebres.

Mas muito poucas formas de arte foram atribuídas a eles. No caso presente, "tudo indica um conhecimento sofisticado e uma grande habilidade de trabalhar o osso".

Os autores do estudo admitem não compreender o significado da gravação, "mas estamos convencidos de que ele comunica uma ideia, uma história, algo que fazia sentido para um grupo", observa Leder.

Eles apontam como prova a escolha do suporte, uma falange de Megaceros, uma espécie de cervo gigante, agora extinta, e que naquela época raramente se aventurava a tão alta latitude.

Silvia Bello vê nisso "a escolha de um animal bastante especial, com um significado simbólico".

- Raridade -

O objeto, quando colocado em sua base "forma uma figura, com as vigas voltadas para cima", observa Bruno Maureille, paleoantropólogo da Universidade de Bordeaux.

Mas mesmo sendo um daqueles que "consideram que os neandertais tinham as mesmas capacidades cognitivas de seus contemporâneos", ele mantém "muita prudência" a respeito do caráter simbólico do objeto.

"Como esses objetos são muito raros, é difícil saber por que foram feitos, o que não significa que não tenham valor simbólico", disse à AFP.

Mais tarde, a partir de 40.000 anos atrás, quando os neandertais deram lugar ao Homo sapiens na Europa, este deixou uma abundância de representações pictóricas ou objetos que não deixam dúvidas sobre seu caráter simbólico.

A escassez de obras atribuídas aos neandertais talvez tenha uma causa bastante prosaica, segundo o Dr. Leder. A sua população "vivia em grupos separados, não muito interligados" e assim, "as suas produções poderiam ter desaparecido como ideia", por falta de transmissão.

Junto com o prof. Thomas Terberger, historiador da Universidade de Göttingen e principal co-autor do estudo, eles descartam que o trabalho do gravador do osso resulte de uma influência do Homo sapiens. Simplesmente porque foi executado alguns milhares de anos antes que este também se aventurasse para o norte.

O assunto continua sensível, observa o Dr. Leder, lembrando que até pouco tempo a ideia prevalecente era que "o 'grande' Homo sapiens forneceu ideias inteligentes para outras espécies".

Mas, no caso presente, segundo Marylène Patou-Mathis, historiadora do Museu Nacional de História Natural, "devemos abandonar a ideia de uma influência do Homo sapiens".

Ela é tão cautelosa quanto alguns de seus colegas sobre o significado a ser dado ao osso esculpido, que permanece "enigmático". Mas não duvida "que com os neandertais, ainda não chegamos ao fim das surpresas".

pcl/may/mpm

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