Osesp volta ao país e brilha com música sacra e contemporânea

***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 08.12.2020 - Ensaio da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), durante a pandemia, na Sala São Paulo. (Foto: Karime Xavier/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 08.12.2020 - Ensaio da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), durante a pandemia, na Sala São Paulo. (Foto: Karime Xavier/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Brilho artesanal e contemplação. Após a bem-sucedida turnê pelos Estados Unidos, onde predominou a energia vibrante do repertório brasileiro, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp, retornou à sua temporada regular na Sala São Paulo nesta quinta-feira (27) com um programa dedicado a Igor Stravinsky, Frank Martin e Joseph Haydn.

Com dificuldades de locomoção devido a um entorse no tornozelo, o programa só foi assumido por Thierry Fischer, o regente titular, na segunda parte. O programa teve direção de William Coelho na longa seção inicial com a participação do Coro da Osesp.

Não deveria ser necessário ter de retornar à metafísica da música do século 19 para justificar a independência da música instrumental perante teatro, vídeo e literatura, mas em tempos em que a manifestação sonora rapidamente é espremida como mera "trilha", e relegada como secundária no mundo da cultura, nunca é demais ressaltar o papel autônomo da pura linguagem dos sons como condutora de ideias e afetos.

E, se as nossas temporadas de ópera ainda oscilam em quantidade e qualidade, os concertos sinfônicos -não apenas os da Osesp, mas igualmente da Cultura Artística, que trouxe nesta mesma semana a incrível Filarmônica de Câmara Alemã de Bremen- têm protagonizado, ao longo dos anos, algumas das mais memoráveis experiências sonoras aqui em São Paulo.

A "Sinfonia em Três Movimentos", de Stravinsky, que fechou o programa, retoma em grande estilo -e com extraordinário apuro de escrita- o jogo brutal de acentuações não regulares sobre figuras pulsantes de sua "Sagração da Primavera", de 1913. Na sinfonia, piano e harpa se revezam na amarração de blocos sonoros justapostos.

A qualidade principal da performance dessa obra foi a primorosa equalização. Fischer se comunica muito bem com a orquestra, trabalha em alto nível a sonoridade, e a tendência é que a sincronia dos ataques evolua ainda mais em precisão ao longo dos concertos de sexta e sábado.

Com humor fino e o jogo incessante de surpresas que caracteriza a sua personalidade artística, Haydn evoca, em sua "Sinfonia nº22", apelidada de "O filósofo", um diálogo improvável entre corne inglês, instrumento de madeira com palheta dupla, e trompa, do naipe dos metais, que travam um debate sem falsas acusações, em que perguntas são sempre respondidas -e onde os mediadores, as cordas graves, nunca precisam oferecer "direitos de resposta" fora de contexto.

O ponto alto do concerto foi, no entanto, a primeira parte, em que cada seção da "Missa para Dois Coros", do suíço Martin, foi alternada com as respectivas partes da "Missa para Coro e Duplo Quinteto de Sopros", também de Stravinsky.

Compor uma missa significa tomar as partes fixas do ritual latino -Kyrie, Glória, Credo, Sanctus e Agnus Dei, em geral- e usar o texto milenar como base para uma música autoral. Depois, podem entrar, na composição, técnicas contemporâneas, ironias, dúvidas e até mesmo devoção espiritual.

Martin faz uma música que descende verticalmente, ou mesmo sai de dentro para fora de nós; Stravinsky, por seu turno, parte da terra e tenta se elevar, sem medo de fracassar no intento. Martin adentra as entranhas das palavras, conta o que se passou "antes de todos os séculos"; Stravinsky extrai do texto uma beleza estranha, que precisa dos instrumentos para se concretizar.

O Coro da Osesp, que também participou da turnê americana, encheu a Sala São Paulo de beleza, com variações muito sutis de timbre e intensidade, até o derradeiro "dai-nos a paz" do "Agnus Dei" final.

Ao longo dos últimos 13 anos o público da Osesp se habituou à presença do diretor artístico Arthur Nestrovski nos concertos. Nesta mesma quinta-feira foi anunciado -de forma honrosa, porém súbita e inesperada- que ele deixou o cargo, em mudança de governança que causa apreensão. Sua ausência fez parte do concerto.

OSESP - STRAVINSKY, HAYDN E MARTIN

Avaliação Muito bom

Quando sex., 20h30; sáb., 20h30

Onde Sala São Paulo - Pça. Júlio Prestes, 16, São Paulo

Preço R$2 a R$230, em osesp.com.br

Classificação Livre