Oscar 2021 | O que deu certo e não deu no novo formato - review do Chippu

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A 93ª edição do Oscar aconteceu no último domingo (25) e trouxe uma série de mudanças para o formato tradicional da cerimônia. O local mudou do tradicional Dolby Theater para a mais íntima Union Station em Los Angeles, a ordem de prêmios foi alterada - inclusive o momento em que Melhor Filme foi eleito - e até mesmo ângulos de câmeras foram diferentes. Algumas coisas funcionaram, outras foram desastrosas.


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Dirigido por Glenn Weiss e produzido por Jesse Collins, Stecey Sher e o celebrado diretor de cinema Steven Soderbergh (Onze Homens e um Segredo, Magic Mike), a promessa do Oscar 2021 era ser como um filme, afinal Soderbergh foi constantemente mencionado como o comandante criativo da produção. Vimos isso logo no primeiro minuto, enquanto Regina King entrava na Union Station para começar a cerimônia e entregar os prêmios de Roteiro. Havia música, gráficos coloridos e estilosos, aspect ratio com barras pretas, foco e desfoco.


Parecia, mesmo, um fiilme.


Parte dessa energia se manteve ao longo de toda a noite. Particularmente na questão visual, o Oscar impressionou constantemente. O jeito que a câmera se movimentava, até mesmo em participações pequenas como a de Bong Joon-ho e sua tradutora (e futura cineasta) Sharon Choi em Seoul tinham um cuidado extra na questão da direção de fotografia. Bryan Cranston passeando pelo Dolby Theater, dessa vez vazio, era algo digno de uma cena na telona. Viola Davis apresentando o In Memoriam com o mesmo peso na voz que aplica em suas atuações nos transportou para Viúvas ou Um Limite Entre Nós.


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Tudo isso foi exibido com mesas nos quais os indicados de mesmos filmes sentavam juntos - uma marca registrada do Globo de Ouro - utilizando a luz natural de Los Angeles e uma identidade visual mais colorida e moderna. Para muitos, estas mudanças devem ter feito pouco efeito. Com certeza parte da audiência mais casual, que mal sabe o nome de todos os concorrentes, deixou passar algumas das alterações, mas cinéfilos e fãs da arte devem ter apreciado a abordagem que Soderbergh e companhia trouxeram.


O que com certeza passou despercebido para muitos e foi gritante para os aficionados é a mudança na ordem de prêmios. Exceto, é claro, quando chegamos no final, mas já já falamos sobre isso. Ao invés de iniciar com a tradicional categoria de Melhor Ator ou Atriz Coadjuvante, garantindo que uma estrela famosa suba no palco nos primeiros 20 minutos, a Academia deu o pontapé inicial com ambas premiações de Roteiro. As alterações não pararam por aí.


A primeira grande troca veio na categoria de Melhor Direção, dada a Chloé Zhao com exatamente uma hora de transmissão. Foi uma escolha sábia que trouxe mais energia para a cerimônia no momento em que, talvez, o sono comece a bater, a espera fique longa e o interesse baixo. Zhao se tornou apenas a segunda mulher a levar pra casa a estatueta e o momento foi digno da atenção de todos, servindo como uma dose de cafeína para o Oscar.


Entretanto, se a mudança de Melhor Direção deu certo, a das últimas três categorias foi quase um acidente aéreo. Tradicionalmente, as duas de atuação vem logo após Melhor Filme, que encerra a transmissão. Este ano a ordem foi invertida, começando a previsível vitória de Nomadland e partindo para Atriz e Ator, respectivamente. O entendimento geral era que a ideia era finalizar o Oscar com a provável vitória de Chadwick Boseman, concluindo o evento com um discurso emocionante de sua esposa e celebrando o falecido artista.


Tudo saiu pela culatra quando Anthony Hopkins levou o prêmio, surpreendendo a todos (inclusive o próprio ator, que estava dormindo). Hopkins merece o troféu, sua atuação em Meu Pai é brilhante, mas o clima no fim ficou muito estranho, especialmente levando em conta que o vitorioso estava em sua casa no País de Gales e não havia nem feito a viagem até Londres, onde indicados europeus haviam se reunido. O Oscar, então, terminou com uma foto do homem que um dia foi Hannibal Lecter.


Não é culpa de Hopkins, claro, e a ideia de colocar Melhor Filme antes num ano onde esta categoria era muito previsível, terminando com outras mais dramáticas e cheias de celebridades, não é, em si, ruim. Mas por conta da expectativa gerada em cima da vitória póstuma de Boseman e da ausência de Hopkins (Olivia Colman iria subir para aceitar o prêmio em nome de Anthony, mas o Oscar encerrou as atividades antes que ela pudesse fazê-lo) acabaram transformando o que devia ser um grande momento numa daquelas horas onde todos trocam olhares por conta da vergonha alheia.


Ao todo, ainda foram três horas de cerimônia, mas por razões melhores. A gordura foi cortada. Todas as apresentações musicais foram para o pré-show, não tivemos montagens, apenas uma esquete de comédia aconteceu. O que consumiu o tempo foi o que devia ser o foco - os vencedores. Não houve corte nos discursos, todos puderam falar à vontade e isso trouxe tanto cenas emocionantes como Thomas Vinterberg (Melhor Filme Internacional) lembrando de sua falecida filha, como hilários, tal qual Daniel Kaluuya (Melhor Ator Coadjuvante)agradecendo seus pais por terem transado para gerá-lo.


Mas o final é o que todos lembram, e infelizmente o final do Oscar 2021 ficou marcado por falta de comunicação, planejamento e até mesmo sensibilidade. A cerimônia como um todo não foi ruim, várias mudanças foram bem-vindas, mas a Academia ainda parece não ter encontrado a visão que precisa para esta aguardada noite.