Oscar 2021: Entenda os indicados a Melhor Filme

Natália Bridi
·10 minuto de leitura

A seleção do Oscar 2021 é a mais diferente dos últimos anos. Essa mudança, porém, não é apenas fruto das muitas tentativas de inovação que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas vem fazendo desde a polêmica do #OscarSoWhite, mas sim consequência direta da pandemia global que afetou Hollywood completamente, da produção à distribuição. Assim, grandes títulos pensados pelos estúdios para a premiação foram adiados (como o West Side Story de Steven Spielberg), deixando espaço para títulos que chamaram atenção ao longo do ano, mas que dificilmente passariam no corte ainda conservador da Academia.

Entre os oito filmes indicados a Melhor Filme, apenas Mank, a aposta da Netflix, entra na categoria “produção ambiciosa autorizada pelo potencial de levar uma estatueta para casa”. Já os demais longas se dividem entre as atuais conversas sobre divergências políticas e discriminação racial nos EUA (Os 7 de Chicago e Judas e o Messias Negro); retomam com personalidade as conversas iniciadas pelo movimento #MeToo (Bela Vingança); dão novas vozes ao sonho americano (Minari e Nomadland) ou são dramas intimistas sobre a condição perecível do corpo humano (Meu Pai e O Som do Silêncio). Apenas por essa seleção diferente, vale dizer, o Oscar 2021 já entregou o grande prêmio para o público, muito antes da cerimônia que será realizada em 25 de abril.

Leia também:

Para você conhecer melhor os filmes deste ano, falo mais sobre cada um dos títulos indicados a Melhor Filme a seguir:

Os 7 de Chicago

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Sacha Baron Cohen), Melhor Roteiro Original (Aaron Sorkin), Melhor Montagem (Alan Baumgarten), Melhor Fotografia (Phedon Papamichael), Melhor Canção ("Hear My Voice")

Onde ver: Netflix

Como o próprio título diz, essa é a história dos "7 de Chicago", um grupo de ativistas anti-Vietnã acusado de conspiração e de cruzar fronteiras estaduais para criar tumultos durante a convenção do Partido Democrata em Chicago, em 1968. Aaron Sorkin, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por "A Rede Social" (indicado também por "Moneyball" e "A Grande Jogada"), terminou o script em 2007, quando Steven Spielberg pretendia comandar o longa, mas a greve dos roteiristas e divergências sobre o orçamento acabaram engavetando o projeto. Mais de dez anos depois, Sorkin assumiu também a direção do filme, sendo esse o seu segundo trabalho no posto depois da sua estreia em "A Grande Jogada".

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Google News

Rodado em 36 dias entre Chicago e Nova Jersey, o filme carrega a marca de Sorkin, com diálogos rápidos e cenas dinâmicas. A história complexa, repleta de particularidades da política americana, é retratada de forma acessível, mais voltada para o entretenimento da situação do que para a reconstituição histórica. Esse é um filme de tribunal que não se perde na burocracia e assume a caricatura criada pela cobertura da mídia da época a seu favor. Os personagens são exagerados e grandiloquentes, o que acrescenta carisma à narrativa, principalmente pelas mãos de Sacha Baron Cohen, indicado como Melhor Ator Coadjuvante.

Judas e o Messias Negro

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Daniel Kaluuya e LaKeith Stanfield), Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Canção ("Fight for You")

Onde ver: O filme foi lançado nos cinemas brasileiros e ainda não tem previsão para chegar às plataformas de streaming.

Baseado em uma história real, "Judas e o Messias Negro" conta como Fred Hampton, líder dos Panteras Negras em Chicago, foi morto pelo FBI graças à colaboração do informante William O'Neal. Dirigido por Shaka King, que escreveu o roteiro com Will Berson, aproveitando a estrutura criada por Kenny e Keith Lucas, o longa se aproxima do thriller policial para fugir dos moldes da cinebiografia convencional.

Essa escolha narrativa cria um retrato eficiente de conspiração e das tensões raciais nos EUA, ao mesmo tempo em que mantém reverência à figura de Fred Hampton, uma dinâmica que serve bem à proposta escancarada pelo título: essa é a história de um messias e do discípulo que o traiu. Retrato que ganha vida pela fotografia ágil e próxima, quase documental, e pelas atuações eloquentes de Daniel Kaluuya (o Messias) e LaKeith Stanfield (o Judas), que evitam simplificar uma trama construída entre extremos.

Minari - Em Busca da Felicidade

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator (Steven Yeun), Melhor Atriz Coadjuvante (Yuh-jung Youn), Melhor Direção (Lee Isaac Chung), Melhor Roteiro Original (Lee Isaac Chung ), Melhor Trilha Sonora Original (Emile Mosseri)

Onde ver: estreia prevista para 22 de abril no Brasil, porém não há informação se será lançado no formato híbrido (plataformas digitais e salas de cinema)

Minari nasceu de uma última tentativa. O diretor e roteirista Lee Isaac Chung estava considerando se aposentar do cinema e já havia aceitado um trabalho como professor quando resolveu tentar mais uma vez, buscando inspiração na sua própria história.

É por isso que Minari se estrutura como uma reminiscência, tomando seu tempo entre momentos prosaicos e os fatos que narram a trajetória de uma família de origem sul-coreana em busca de uma vida melhor em uma fazenda no interior dos EUA. Em meio às dificuldades no processo de construção desse sonho, como os conflitos entre o casal e a falta de água para irrigar a plantação, também surgem momentos doces na descoberta desse novo espaço. Na sua “última tentativa” no cinema, Lee Isaac Chung fez suas memórias ganharem vida com um roteiro sensível, a fotografia iluminada de Lachlan Milne e um elenco carismático, com destaque para o adorável Alan Kim e os indicados ao Oscar Steven Yeun e Yuh-jung Youn.

Nomadland

Indicações: Melhor Filme, Melhor Atriz (Frances McDormand), Melhor Direção (Chloé Zhao), Melhor Roteiro Adaptado (Chloé Zhao), Melhor Montagem(Chloé Zhao), Melhor Fotografia (Joshua James Richards)

Onde ver: O filme tem previsão de estreia para 15 de abril no Brasil, porém não há informação se será lançado no formato híbrido (plataformas digitais e salas de cinema)

Nomadland começou a tomar forma em 2017, quando Frances McDormand e Peter Spears compraram os direitos do livro da jornalista Jessica Bruder que retrata o fenômeno dos americanos mais velhos que optam por uma vida nômade, vivendo em vans e buscando trabalho em diferentes locais dos EUA. Depois de ver Domando o Destino, a dupla decidiu apresentar o projeto para a cineasta Chloé Zhao, que aceitou escrever e dirigir a adaptação.

Trabalhando pela terceira vez com o diretor de fotografia Joshua James Richards, Chloé Zhao, que também assina a montagem, dá ao filme uma estética realista, quase documental. Nesse processo, a equipe também vivenciou o estilo de vida que retrata, dormindo em vans durante as filmagens e o contou com a presença de nômades reais como Linda May, Swankie e Bob Wells no elenco. O resultado é uma versão de On The Road, o clássico de Jack Kerouac, sem o ritmo da benzedrina ou as ilusões da juventude, focando na contemplação de uma vida que já passou e da vida que pode ser estrada a fora.

Bela Vingança

Indicações: Melhor Filme, Melhor Atriz (Carey Mulligan), Melhor Direção (Emerald Fennell), Melhor Roteiro Original (Emerald Fennell), Melhor Montagem (Frédéric Thoraval)

Onde ver: O filme tem previsão de estreia para 22 de abril no Brasil, porém não há informação se será lançado no formato híbrido (plataformas digitais e salas de cinema)

A diretora e roteirista Emerald Fennell (mais conhecida do público por interpretar Camilla Parker Bowles na série The Crown da Netflix) vendeu a ideia de Bela Vingança em 2017, quando apresentou para a LuckyChap Entertainment (produtora de Margot Robbie) como seria a cena de abertura do longa, que mostra a protagonista Cassie em mais uma noite de caça a homens que abusam de mulheres desacordadas.

O filme é geralmente descrito como uma história de vingança surgida do movimento #MeToo, mas a assinatura de Fennell dá ao longa inúmeras camadas que também o tornam mais complexo, e controverso, dentro da sua proposta. Para contar a história de Cassie, que busca justiça pelo próprio assédio e pelo estrupo sofrido por sua melhor amiga na faculdade de medicina, o filme mistura a linguagem clássica das comédias românticas com Alfred Hitchcock, exagerando diálogos e situações para estabelecer o contraste entre aparência, intenções e consequências. Indicada na categoria de Melhor Atriz, Carey Mulligan carrega todas as camadas de Cassie, cujo futuro promissor descrito no título original (Promising Young Woman) foi destruído por um sistema em que a vítima carrega a culpa.

Meu Pai

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator (Anthony Hopkins), Melhor Atriz Coadjuvante (Olivia Colman), Melhor Roteiro Adaptado (Christopher Hampton e Florian Zeller), Melhor Montagem (Yorgos Lamprinos), Melhor Design de Produção (Peter Francis e Cathy Featherstone)

Onde ver: Now, Itunes (Apple TV) e Google Play. A partir do dia 28 de abril, o filme ficará também disponível também para aluguel, nas mesmas plataformas e também na Sky Play e Vivo Play.

Baseado na peça Le Père, escrita por Florian Zeller (que também assina a direção e o roteiro ao lado de Christopher Hampton), Meu Pai se destaca por usar a linguagem cinematográfica para representar a degradação da mente de um antes orgulhoso engenheiro.

A atuação visceral de Anthony Hopkins combinada com o design de produção e a montagem são fundamentais para criar esse retrato, baseado nas memórias de Zeller sobre a degradação mental da sua avó. O espectador é constantemente levado a tentar compreender os espaços e situações de acordo com o funcionamento errático da mente do seu protagonista.

O Som do Silêncio

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator (Riz Ahmed), Melhor Ator Coadjuvante (Paul Raci), Melhor Som( Nicolas Becker, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Carlos Cortés e Phillip Bladh), Melhor Roteiro Original (Darius Marder, Abraham Marder e Derek Cianfrance), Melhor Montagem (Mikkel E.G. Nielsen)

Onde ver: Amazon Prime Video

O Som do Silêncio nasceu de um projeto abandonado de Derek Cianfrance, sendo retomado por Darius Marder, que assina a direção e o roteiro com seu irmão Abraham Marder. Para contar a história do baterista que precisa aceitar a perda da sua audição, o cineasta buscou comprometimento, levando 13 anos para encontrar um elenco que aceitasse encarar o desafio.

O resultado é um filme que usa artifícios técnicos como a montagem e som para criar uma experiência sensorial que é intensificada por atuações extremamente sensíveis dos indicados Riz Ahmed e Paul Raci. Essa é uma narrativa de redescoberta e aceitação que não cai na romantização ao falar sobre reinventar conceitos, não superá-los.

Mank

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator (Gary Oldman), Melhor Atriz Coadjuvante (Amanda Seyfried), Melhor Direção (David Fincher), Melhor Som (Ren Klyce, Jeremy Molod, David Parker, Nathan Nance e Drew Kunin), Melhor Design de Produção (Donald Graham Burt e Jan Pascale), Melhor Trilha Sonora Original (Trent Reznor e Atticus Ross), Melhor Cabelo e Maquiagem (Gigi Williams, Kimberley Spiteri e Colleen LaBaff), Melhor Figurino (Trish Summerville), Melhor Fotografia (Erik Messerschmidt)

Onde ver: Netflix

David Fincher pretendia rodar Mank, escrito por seu pai Jack Fincher, logo após concluir Vidas em Jogo (1997) e teria Kevin Spacey e Jodie Foster no elenco. O projeto, porém, foi barrado pela insistência do cineasta em rodar a história em preto e branco, concretizando seus planos apenas anos depois da morte do pai, que faleceu em 2003.

A ideia de Mank, que conta a história do roteirista Herman J. Mankiewicz e do desenvolvimento do roteiro de Cidadão Kane surgiu de um artigo publicado por Pauline Kael em 1971 que questionava o crédito de Orson Welles na criação do filme pelo qual foi imortalizado. Fincher, porém, afirma que seu interesse não estava em questionar a autoria do clássico, mas de falar sobre o homem que tinha aberto mão dos créditos por seu trabalho e depois mudou de ideia. Para tanto, o cineasta mistura metalinguagem e homenagem na sua construção estética. O resultado é sofisticado, porém mais próximo de ser um objeto de estudo sobre cinema do que de apresentar Mankiewicz ao espectador.