'Os Fabelmans' é passo adiante na carreira errática de Spielberg

FOLHAPRESS - É tocante quando um artista de cinema se entrega, parcial ou totalmente, em toques autobiográficos de seus filmes. Woody Allen e Chantal Akerman costumavam fazer isso com muita inteligência. James Gray lançou recentemente o belo "Armageddon Time", com muito de sua infância.

Agora é a vez de Steven Spielberg. Em "Os Fabelmans", temos uma narrativa que recria, com boa dose de fantasia, como se deu sua descoberta e paixão pelo cinema, além de sua relação com a família entre mudanças e um divórcio.

A carreira de Spielberg pode ser dividida em quatro fases distintas. Inicialmente, o cineasta representava a faceta da nova Hollywood mais interessada em atingir um grande público. Por mais que Brian De Palma e Martin Scorsese declarassem desde cedo o desejo de fazer sucesso, foram Spielberg, Francis Ford Coppola e George Lucas que o perseguiram com maior afinco. Essa primeira fase dura até 1979 e a incompreendida sátira de guerra "1941".

A partir de "Os Caçadores da Arca Perdida", de 1981, tem início a segunda fase, da fábula juvenil que remetia ao entretenimento de formação do diretor, nos anos 1950.

Em 1985, surge a terceira fase, que vai correr em paralelo com a segunda até meados dos anos 1990. É quando Spielberg tenta superar sua síndrome de Peter Pan e faz cinema adulto, sóbrio. Assim, fantasias como "E.T.", de 1982, e "Parque dos Dinossauros", de 1993, convivem com dramas pesados como "A Cor Púrpura", de 1985, e "A Lista de Schindler", de 1993.

A quarta fase se inicia com "A.I. - Inteligência Artificial", de 2001, e se diferencia da terceira pela maior maturidade nos dramas e pela maior capacidade de realizar filmes realmente fortes, sem as habituais chantagens emocionais dos filmes adultos da terceira fase.

Podemos argumentar que essa maturidade já viria com "A Lista de Schindler" ou, principalmente, "O Resgate do Soldado Ryan", de 1998. Mas foi com "A.I." que se iniciou uma recuperação crítica de Spielberg na França, capitaneada pela revista Cahiers du Cinéma e completada na época do lançamento de "Lincoln", em 2012, mesmo após dois fracassos críticos seguidos -"As Aventuras de Tintim" e "Cavalo de Guerra", ambos de 2011.

Graças a essa quarta fase, tivemos também filmes como "Munique", de 2005, e "The Post", de 2017, em que o realizador se mostra finalmente dentro da tradição do cinema americano, continuador, ao menos na intenção e a milhas de distância, de John Ford, Alfred Hitchcock ou Orson Welles.

"Os Fabelmans" talvez inicie uma quinta fase, mas isso só poderá ser confirmado daqui a alguns anos. Essa fase seria marcada por uma espécie de autoanálise, um olhar para si mesmo que pode revelar camadas subterrâneas de sua formação, de seu mundo.

Quando o adolescente Sam Fabelman, vivido por Gabriel LaBelle, cria cenas de efeitos especiais para o tiroteio de seu pequeno faroeste inspirado em "O Homem que Matou o Facínora", que John Ford realizou em 1962, somos levados imediatamente ao Spielberg mais aventureiro, da série Indiana Jones.

Quando Sam descobre, montando um filme familiar, que sua mãe Mitzi, vivida por Michelle Williams, tinha um caso amoroso com o tio Bennie, aliás, Seth Rogen, que nem é de fato da família, somos transportados a "Louca Escapada", de 1974, seu filme mais sintonizado com o que ficou conhecido como a nova Hollywood.

Toda a sequência da descoberta é exemplar, filmada com um rigor artístico incomum em Spielberg. Mitzi toca piano, Burt, o pai, se emociona com a performance, Sam observa a emoção do pai depois de descobrir, mexendo na moviola, que sua mãe ama outro.

O trabalho da câmera nessa sequência é sublime, um dos pontos máximos do diretor. Remete a "Blow Up - Depois Daquele Beijo", de 1966, de Michelangelo Antonioni, em outra das diversas referências cinematográficas espalhadas por "Os Fabelmans".

O modo como é antecipado esse triângulo amoroso para o espectador, aliás, é bem interessante. Desde a primeira aparição do tio Benny sentimos uma tensão sexual entre os dois, algo que o pai, vivido por Paul Dano, finge não perceber, depois aceita, com profunda melancolia. Fora a sintonia entre os dois amantes, fazendo juntos os mesmos gestos, tomados por Spielberg de longe para que o espectador perceba as tensões em cena.

Mais importante que saber se esse episódio é autobiográfico, ou melhor, o que não é autobiográfico no filme, é perceber as filiações cinematográficas que Spielberg elenca. Primeiro, a grandiosidade de Cecil B. De Mille. Depois, com Antonioni e Hitchcock no meio do caminho, a maestria de John Ford. Este recebe uma homenagem notável na caracterização de David Lynch.

Se a ausência do pai é um motivo presente em muitos filmes de Spielberg, principalmente até o início dos anos 2000, aqui o pai é muito presente. Não à toa, Paul Dano tem a melhor interpretação de sua carreira. É bastante desafiado e corresponde brilhantemente, ao contrário de Michelle Williams e Seth Rogen, que resvalam na caricatura em alguns momentos.

A imagem-símbolo do cinema de Spielberg é a câmera se aproximando de um personagem que observa algum evento extasiado ou assustado. Ela está por todo o filme, mas ressurge com força na visita do tio Boris, interpretado por um funcionalmente exagerado Judd Hirsch. Este ensina o adolescente Sam sobre as dores da arte e suas palavras ficarão marcadas na cabeça do garoto. O carro vai embora levando tio Boris, mas no contracampo a câmera se aproxima do rosto de Sam, impressionado com a despedida do tio.

Talvez "Os Fabelmans" careça da precisão vista em "The Post". Provavelmente perde em poesia para "A.I.". Mas certamente é um interessante passo adiante na errática carreira de Spielberg.

OS FABELMANS

Avaliação Muito Bom

Quando Estreia nesta quinta (12) nos cinemas

Classificação 14 anos

Elenco Michelle Williams, Gabriel LaBelle e Paul Dano

Produção EUA, 2022

Direção Steven Spielberg