Adiamentos, fechamentos de salas, explosão do streaming: os efeitos do coronavírus no cinema

"Mantenha a calma", diz o letreiro de um cinema fechado em Beverly Hills, Califórnia, devido à pandemia de coronavírus que assola os EUA. Foto: Mario Tama/Getty Images

A pandemia de coronavírus afeta o mundo do cinema de um modo nunca visto antes. Estreias de superproduções, cujas datas haviam sido escolhidas meticulosamente pelos estúdios, foram adiadas; filmagens foram interrompidas, grandes eventos cancelados…

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E não é só em Hollywood. Com muitos países restringindo a circulação de pessoas, o simples fato de ir ao cinema será algo raro, por um período indeterminado, e produções no mundo todo estão sendo paralisadas, inclusive no Brasil. “É uma decisão difícil, mas com foco na vida”, resume Luiz Toledo, diretor de parcerias estratégicas da Spcine, entidade responsável por apoiar toda a indústria do audiovisual na capital paulista.

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“A gente se sente um pugilista lutando contra um adversário invisível”, resume Adhemar de Oliveira, responsável pelo Espaço Itaú de Cinema, que decidiu fechar temporariamente todas as suas salas, em seis cidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Brasília e Curitiba.

Com as consequências ainda em andamento, uma vez que o vírus continua a fazer um número crescente de vítimas em diversos lugares do planeta, é impossível prever todos os efeitos colaterais que podem trazer mudanças significativas à indústria do entretenimento nos próximos meses.

Listamos abaixo algumas deles:

Filmes adiados

Os produtores do novo título da franquia 007 foram os primeiros a tomar uma atitude drástica. O lançamento de ‘Sem Tempo Para Morrer’, que traz Daniel Craig pela última vez no papel de James Bond, passou de 10 de abril para 25 de novembro. Estima-se que o adiamento possa ter custado até US$ 50 milhões ao estúdio.

Nos últimos dias, superproduções como ‘Viúva Negra’, ‘Mulan’, ‘Um Lugar Silencioso 2’, ‘Velozes e Furiosos 9’, ‘Os Novos Mutantes’ e até a dobradinha nacional ‘A Menina que Matou os Pais’ e ‘O Menino que Matou Meus Pais’, sobre o caso Suzane Von Richtofen, tiveram suas estreias postergadas. Grande parte destes longas ainda não tem nova data para chegar aos cinemas, exceto o nono capítulo da franquia ‘Velozes’, adiado para abril de 2021.

Nesta semana, por exemplo, nenhum filme tem estreia marcada no Brasil, um fato inédito. “ A gente não faz nada sozinho. Mesmo que o cinema estivesse aberto, não teria o que passar”, lamenta Adhemar de Oliveira.

Alguns dos lançamentos mais aguardados deste ano ainda podem ter mudanças no calendário caso o cenário não melhore nos próximas meses. É o caso de ‘Mulher-Maravilha 1984’ (previsto para 4 de junho) e ‘Godzilla vs Kong’ (28 de maio).

Cinemas fechados

Diante de um panorama tão volátil e todas as recomendações para que as pessoas permaneçam a maior parte do tempo em casa, evitando locais com grande circulação de pessoas, muitos cinemas estão com pouquíssima procura e/ou decidiram simplesmente fechar as portas. Com a baixa demanda e grandes com salas de exibição nos Estados Unidos e Europa temporariamente desativadas, o efeito já pode ser sentido nas bilheterias.

No último final de semana, o número somado pela arrecadação de venda de ingressos no território norte-americano foi de apenas US$ 55 milhões, o pior dos últimos 20 anos, com uma queda de 45% em relação ao final de semana anterior. E a situação tende a piorar por algum tempo.

No Brasil, os governadores do Rio de Janeiro e Distrito Federal determinaram o fechamento de todos os cinemas destes estados por ao menos 15 dias. Em São Paulo, o governo sugeriu a paralisação por um mês, mas redes como Cinemark e UCI continuam operando.

Em comunicado à imprensa, a Feneec (Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas) justificou a decisão dizendo que “as equipes de profissionais que atuam nas salas de cinema estão recebendo informações sobre como realizar a manutenção e a higiene para garantir que o ambiente esteja seguro”.

De acordo com o comunicado, “no momento, não há orientação do Ministério da Saúde para alterações e restrições no funcionamento das salas e as sessões estão confirmadas. Como é um quadro de mudanças constantes, seguiremos respeitando as orientações das autoridades de saúde”.

Com as salas no Rio de Janeiro fechadas, a Cinemark ofereceu um plano de demissão voluntária aos funcionários, iniciativa que recebeu diversas críticas nas redes sociais nesta semana. A alternativa para quem trabalha na rede e quiser manter o emprego é um programa de qualificação, no qual o funcionário ficará sem trabalhar participando de cursos online e receberá até cerca de 80% de sua remuneração líquida, excluídos os adicionais de auxílio transporte e alimentação. A proposta ainda precisa ser aprovada pelo Ministério do Trabalho.

Já o Espaço Itaú continua pagando seus funcionários normalmente, de acordo com Adhemar. “Estamos apostando numa vitória rápida sobre o coronavírus”, torce. “Vivemos uma situação inédita e por isso seguimos as restrições das autoridades sanitárias”. Ainda assim, ele admite que o tamanho do prejuízo é difícil até mesmo de mensurar e vai depender de uma coordenação conjunta entre estúdios, distribuidoras e redes de cinema. “Temos uma escuridão pela frente”, vaticina.

Produções paralisadas

A crise gerada pelo alastramento do coronavírus deve iniciar um verdadeiro efeito cascata no cinema, com impactos que serão sentidos também nos próximos anos. Isso porque as filmagens de muitas produções foram paralisadas por enquanto. A lista inclui, entre outros, ‘Missão: Impossível’, ‘The Batman’, ‘A Pequena Sereia’ e séries como ‘Riverdale’, ‘Stranger Things’ e ‘The Morning Show’. É provável que o atraso nas gravações resulte em adiamentos de suas respectivas estreias.

Mesmo que o público tenha que esperar um pouco mais para ver essas atrações nas telas, o problema maior é pensar nos milhares de profissionais que terão suas atividades interrompidas por um período indeterminado. Em São Paulo, por exemplo, a Spcine suspendeu todas as filmagens na cidade a partir desta semana, seguindo uma determinação da prefeitura.

De acordo com Luiz Toledo, diretor de parcerias estratégicas da entidade, os produtores encararam a decisão de forma compreensiva. “As produtoras não tinham uma determinação clara e vinham enfrentando essa situação de incerteza junto a suas equipes”, explica. “A partir do momento que há uma determinação concreta, o mercado inteiro se orienta”.

Para Toledo, há algo mais importante em jogo. “Por mais que haja impacto econômico, o que se prioriza no momento são vidas”, justifica. “O custo do espalhamento do vírus é maior do que o dessa paralisação”.

Ele ainda garante estar atuando junto às Secretarias do Trabalho, de Turismo e de Relações Internacionais para mapear tudo que está acontecendo e pensar em ações que possam mitigar os efeitos da parada. Por enquanto, a Spcine anunciou apenas a liberação gratuita do catálogo de seu serviço de streaming por 30 dias.

Festivais cancelados

O calendário de festivais e eventos cinematográficos também tem sofrido os efeitos da pandemia. O norte-americano SXSW, que nos últimos anos vinha crescendo em importância ao destacar o melhor das produções independentes e apostas de grandes estúdios e estava previsto para acontecer na cidade de Austin, no Texas, de 13 a 22 de março foi cancelado.

O Festival de Cannes, principal vitrine do cinema de arte, também corre o risco de não acontecer tão cedo. Embora os responsáveis pela organização do tradicional evento no litoral francês ainda não tenham se pronunciado oficialmente, tudo indica que não haverá como manter a data original, de 12 a 23 de maio.

Por aqui, o É Tudo Verdade, dedicado aos documentários, também passou por uma adaptação. Primeiro fará somente sessões virtuais online, no período inicialmente previsto para sua realização “real” em São Paulo e Rio de Janeiro (31 de março a 5 de abril), e deslocou sua versão presencial para setembro, ainda sem dias definidos.

Estreias simultâneas

Com o fechamento das salas e um grande número de pessoas em casa, o estúdio Universal decidiu que colocará alguns de seus lançamentos disponíveis para aluguel via streaming, na mesma janela de lançamento inicialmente prevista para os cinemas.

O longa de terror ‘O Homem Invisível’ (que chegou às salas em 27 de fevereiro), o suspense satírico ‘A Caçada’ e o romance ‘Emma’, algumas das principais apostas da empresa para este primeiro semestre, estarão disponíveis para o público norte-americano ver em casa a partir desta sexta-feira. O escritório brasileiro da Universal ainda não anunciou se fará algo parecido por aqui.

De qualquer forma, o plano pode servir como um teste e abrir um precedente importante na indústria, diminuindo ainda mais o período entre um filme chegar ao cinema e depois ao serviço de streaming, mesmo quando todo esse estado de emergência passar.

Explosão do streaming e dos canais de TV

Por falar em streaming, serviços como Netflix, Amazon Prime Video e Globoplay certamente serão ainda mais consumidos, com boa parte da população mundial em quarentena.

Até mesmo canais de TV devem se beneficiar do contexto e ver a audiência aumentar. No que chama de uma “ação social”, o Telecine, por exemplo, liberou o sinal de seus canais para todos os clientes de TVs por assinatura.

“A ação do Telecine nesse período delicado em escala global reitera o compromisso da marca com o propósito de levar o cinema até as pessoas”, informa o departamento de marketing da empresa, em resposta à reportagem. “Nesse momento, o entretenimento em casa é melhor forma de oferecer conforto para toda a sociedade conseguir enfrentar o momento delicado que o país enfrenta.”

Valorização dos realizadores

Ainda tentando ver um lado positivo em tudo isso, talvez este período de confinamento forçado marque um reencontro do público com uma visão mais afetuosa a respeito de quem faz o audiovisual. Muitos trabalhadores do setor têm compartilhado nos últimos dias um lembrete de que as histórias que irão nos distrair nas próximas semanas são fruto do esforço de roteiristas, cineastas, figurinistas, atores e tantos outros profissionais da área.

“Pode ser uma oportunidade de sensibilização”, concorda Luiz Toledo. “Fica uma sensação de esperança para que este momento seja uma reflexão sobre a importância de valorizar o audiovisual nacional”.

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