Os antivacinas good vibes: por que recusar vacina é ato egoísta e põe em risco a saúde pública

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Recusar vacina não é pensar no bem-estar (Foto: Getty Images)

Não só por ideologias políticas ou crenças em medicamentos sem comprovação científica que vacinas contra a covid-19 estão sendo recusadas - ainda que sejam a maneira mais segura e eficaz de se proteger da doença.

Um movimento específico contra a vacinação – que antecede a pandemia causada pelo Sars-CoV-2 – tem adeptos bem diferentes daqueles que podem surgir em sua mente quando falamos do tema. São pessoas que seguem um estilo de vida baseado no bem-estar, o que vai da prática de yoga e adoção do veganismo até a confiança em terapias alternativas, espiritualidade e misticismos.

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As crenças não merecem ser julgadas, afinal, cada pessoa tem autonomia e liberdade para acreditar no que quiser e aderir a quaisquer práticas que acreditem beneficiar sua saúde ou bem-estar. Mas quando se trata de uma doença altamente infecciosa como a covid-19, deixar de receber um imunizante não se trata apenas de quem toma essa decisão – mas de colocar em risco à saúde de outras pessoas.

“Sua liberdade vai até onde entra o bem comum. Não se vacinar influencia, sim, a vida dos outros, já que pode contribuir com a transmissão”, aponta Danielle H. Admoni, psiquiatra da UNIFESP (Escola Paulista de Medicina).

Com taxas mais altas de infectados, o vírus não só causa mais vítimas, mas também fica mais fácil que novas mutações surjam.

“É um ato egoísta. Existe um abismo entre uma vida saudável e deixar de fazer coisas que protegem a sua saúde e a saúde coletiva”, avalia Admoni.

Uma questão ética não levada em conta por quem decide não se vacinar, explica a médica, é o fato de que os impactos da recusa vão além de questões diretamente ligadas à pandemia. “Imagine que essa mesma pessoa que não quis o imunizante sofra um infarto ou um atropelamento, e precisa de uma vaga na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). O que acontece que se estiver em lotação máxima justamente por conta daqueles que não se vacinaram?”, indaga.

E a empatia?

Quando partem desses grupos específicos, os argumentos antivax (anti-vacina) geralmente demonstram boas intenções e apelam para que outros “não julguem” essa decisão.

A afirmação recente de Doutzen Kroes, modelo holandesa e ativista do meio ambiente, seguiu esse raciocínio. "Não serei forçada a tomar a vacina. Não serei obrigada a provar minha saúde para participar da sociedade. Não aceitarei a exclusão de pessoas com base em seu estado de saúde. A liberdade de expressão é um direito pelo qual vale a pena lutar, mas só podemos resolver isso unidos na paz e no amor!", escreveu, em seu Instagram, no dia 17 de setembro.

A ideia de ter uma saúde já boa o suficiente, sem que haja a necessidade de provar isso para ninguém – nem de receber um imunizante contra um vírus possivelmente mortal, é também bastante comum entre os antivax – mas não faz o menor sentido.

A média mundial aproximada aponta que se 100 pessoas forem infectadas pelo Sars-CoV-2, entre 3 a 7% morrerão (as taxas variam de acordo com a região). Um número bem maior que isso representa a parcela daqueles que ficarão gravemente doentes e possivelmente terão sequelas.

“O que determina quem estará nesses grupos são fatores genéticos e ambientais ligados à imunidade que não podem ser conhecidos antes que as pessoas sejam infectadas. É impossível prever quem estará em cada grupo somente analisando a saúde de uma pessoa”, esclarece Jefferson Russo Victor, biomédico imunologista e professor do curso de Medicina da Unisa (Universidade Santo Amaro).

O que é sagrado em uma pandemia?

Outro argumento comumente empregado é sobre o corpo ser sagrado, e as vacinas, experimentais – o que as tornaria não confiáveis. No entanto, o professor explica que os imunizantes classificados assim são aqueles que nem sequer foram testados em humanos, apenas em animais, o que não é o caso de nenhuma vacina contra a covid-19.

Em países desenvolvidos ou em desenvolvimento, como o Brasil, para que sejam testadas em humanos, vacinas precisam ser aprovadas por agências reguladoras. Aqui, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que tem grande alinhamento com as agências internacionais, é responsável por esse controle.

“Os critérios usados por essa agências impedem a aprovação de uma vacina experimental que não tenha a segurança verificada cientificamente. A vacina da Pfizer é inovadora por usar RNA mensageiro, mas a BioNTech, empresa alemã que a criou, já trabalha com essa tecnologia há mais de 10 anos. Não é uma tecnologia que acabou de ser inventada, só é a primeira vez que é usada em larga escala”, explica Jefferson Russo Victor.

Há também o perigo de disseminar essas ideias para milhares de pessoas, como fez a modelo holandesa. “Aqueles com vozes influentes precisam ter consciência do que estão compartilhando. Muita gente acredita no que lê ali. É como dizer para não tomar remédios para doenças mentais, como a depressão, mesmo quando há indicação médica. São coisas cientificamente documentadas”, aponta a psiquiatra.

Mas também é importante dizer que nem todos aqueles que acreditam em formas de medicina não tradicionais são contra a vacina da covid-19 ou outros tratamentos já comprovados cientificamente.

Do ponto de vista da estudante de Terapia Ayurveda, Mariana Gimenes, 25, o bem-estar coletivo é a prioridade. “Há muito sobre a pandemia que não sabemos e eu sou muito a favor de questionarmos, mas acho que não tem um argumento forte o suficiente que me convença de não tomar a vacina.”

“Eu tomei as duas doses prezando pela saúde pública, por entender que somos todos um e me preocupar com a saúde do próximo. Não posso arriscar prejudicar o outro e é justamente isso que Ayurveda ensina.”

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