Infodemia: a epidemia de informações que coloca em risco sua saúde

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Cristiane Capuchinho (@criscapuchinho)

O vírus não se transmite em locais quentes e úmidos, comer alho previne a contaminação pelo coronavírus, gargarejo com água e limão mata o coronavírus na garganta. Essas são algumas das informações falsas que circulam nas redes sociais durante a pandemia.

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Em fevereiro, a OMS (Organização Mundial da Saúde) fez um alerta internacional contra a infodemia, o excesso de informações falsas ou enganosas que dificulta a comunicação sobre as medidas necessárias, aumenta o nível de ansiedade na população e pode causar consequências desastrosas em meio a uma emergência de saúde.

“As informações falsas, os mal-entendidos, os boatos, os conselhos para tratamento de doenças que não vêm da ciência, nada disso é novidade. Seguem uma lógica que é anterior à da internet que é a lógica do rumor”, explica a professora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) Geane Alzamora, dedicada ao estudo da disseminação de desinformação.

“O leigo, na ausência de uma crença mais sólida, acaba acreditando na pessoa que conhece, no contato pessoal, na informação que chega por meio de alguém de confiança”, detalha a pesquisadora.

Nos Estados Unidos, houve casos de intoxicação por ingestão de produtos de limpeza após o presidente Donald Trump sugerir a injeção de água sanitária contra o coronavírus . Na Inglaterra e na Holanda, antenas de transmissão 5G foram queimadas após uma onda de mensagens que ligavam os aparelhos à Covid-19 em uma tortuosa narrativa que incluía a China.

No Brasil, em meio ao turbilhão de informações falsas sobre prevenção contra o vírus, médicos do Distrito Federal e de São Paulo tiveram registros suspensos por venderem tratamentos sem comprovação científica prometendo aumentar a imunidade contra o coronavírus.

“O risco da desinformação é alimentar o pânico e a confusão entre a população. As pessoas não sabem mais em quem confiar e ficam assim mais vulneráveis à manipulação”, explica Nadia Naffi, professora de educação em contexto digital da universidade canadense de Laval.

Em abril, por sua vez, o presidente Jair Bolsonaro compartilhou um vídeo que apontava, falsamente, desabastecimento de alimentos por conta da quarentena de controle à pandemia determinada por governadores e prefeitos . Ao menos duas outras publicações do presidente foram apagadas pelo Twitter por serem consideradas um risco à saúde pública e um post seu feito em maio recebeu o alerta de “fake news” do Instagram.

Aumento de ansiedade e depressão

A pandemia aumentou os sinais de ansiedade e depressão na população pelo mundo todo. O risco da Covid-19, as restrições de circulação e a falta de perspectiva positiva sobre o futuro são algumas das hipóteses para explicar a piora da saúde mental, mas o mar de desinformação também entra nessa conta.

Uma pesquisa realizada pela universidade chinesa de Fudan, e publicada em abril na revista científica PLOS One, indica que quem usava com frequência as redes sociais reportaram mais sinais de ansiedade e depressão que aquelas que passavam menos tempo ou não usavam as redes sociais. 

O estudo, coordenado por Junming Dai, professor da Escola de Saúde Pública de Fundan, baseou-se na resposta de 4.872 pessoas acima de 18 anos a um questionário sobre práticas digitais, cotidiano e saúde mental. Os indicadores também foram piores entre aqueles que tinham completado apenas o ensino médio que entre os que tinham ensino superior.

Sem confiança, saúde pública fica em risco

O problema é agravado em momento em que boa parte da população mundial tem acesso à internet e quando as redes sociais viram a “janela para o mundo” de quem está em quarentena, mas ele já estava aí. 

Durante a epidemia de ebola na África ocidental entre 2013 e 2016, rumores ligavam a doença a uma falsa transmissão pelo ar ou por mosquitos. Muitos dos que acreditavam nessas informações foram os responsáveis por enterros de doentes sem cuidados que levaram ao aumento da contaminação pela doença que matou quase um terço dos doentes, segundo a OMS.

No Brasil, uma pesquisa feita entre 2017 e 2018, e publicada na Science Advances, indicou que as notícias falsas publicadas durante a epidemia de zika afetaram os cuidados e a prevenção contra a epidemia de febre amarela que veio na sequência. 

“As pessoas devem ter muita consciência de sua responsabilidade, do que elas vão compartilhar, do que vão ajudar a tornar mais visível nesse cenário de infodemia. Você pode compartilhar apenas para duas ou três pessoas, mas onde essa informação vai chegar, para quem vai ser passada, se vai ser descontextualizada, você não tem controle e tem que pensar nisso”, frisa Geane Alzamora. 

A pesquisadora do núcleo Conexões Intermidiáticas lembra que sem adesão social, as notícias falsas não proliferam. 

Como ajudar no combate à desinformação

1. Não compartilhe imediatamente

Viu uma informação no Facebook ou recebeu pelo WhatsApp, leia mais do que o título. Muitas notícias falsas têm erros gramaticais ou de digitação. Também é comum trazerem informações que se contradizem ou não darem a origem das informações.

2. Suspeite de conteúdos que causem reações emocionais muito fortes

As notícias inventadas são feitas para despertar uma resposta emocional e provocar a reação imediata. Muitas vezes vêm acompanhadas de muitas exclamações, da expressão “compartilhe sem dó” e outros pedidos de engajamento. 

3. O texto diz que estão tentando esconder essa “verdade”? Desconfie

Teorias da conspiração são centrais nessa cultura da desinformação que cria “verdades paralelas” e tentar tirar a credibilidade das instituições que antes eram vistas como referência.  

4. Pesquise o título da matéria no Google

Se for real, é provável que veículos de comunicação conhecidos tenham publicado. Se não, há diversos serviços que verificam conteúdo, como Agência Lupa, Aos Fatos, Boatos. Org ou Fato ou Fake.

5. É mentira? Denuncie a publicação nas redes sociais ou o contato

Redes sociais, como Twitter, Facebook, Instagram e Whatsapp estão melhorando suas políticas de checagem de conteúdo. Denuncie a postagem ou o contato para a própria rede social ou compartilhe  a postagem em grupos de checagem de fatos.

Fonte: Geane Alzamora, OMS e manual “Coronavírus: fake news e como identificá-las”.