Maria Bruaca dá a volta e simboliza liberdade das mulheres oprimidas em "Pantanal"

Maria Bruaca em
Maria Bruaca em "Pantanal" (Reprodução Globoplay)

Queridinha do público, Maria Bruaca (Isabel Teixeira) se empoderou nas últimas semanas de "Pantanal" e passou a lutar contra a opressão de seu marido, Tenório (Murilo Benício). Após anos de opressão e silêncio, Maria finalmente começou a se liberar e vislumbrar um mundo além de sua fazenda.

Quando descobriu que Tenório tem outra família em São Paulo, Bruaca virou o jogo e começou a experimentar sua liberdade sexual com Levi (Leandro Lima) e Alcides (Juliano Cazarré), que se tornou amante da patroa nos capítulos mais recentes da novela.

Em uma cena já emblemática de "Pantanal", a personagem se recusou a fazer sexo com o marido, e reafirmou que não é uma das muitas propriedades do latifundiário. A cena acontece após a dona de casa transar com Levi e pedir desculpas para sua imagem de Nossa Senhora de Fátima. “Sabe, te ver rezar assim está me dando vontade”, disse o fazendeiro. Ela respondeu que estava com vontade apenas de orar e Tenório rebateu.

“O que foi, mulher? O que faço com a minha vontade?”, ele questiona. “Já falei que não quero. Você faz o que quiser. Eu que não vou falar o que quero na frente da minha santa”, responde ainda de frente para Nossa Senhora de Fátima.

Tenório, então, fala sério: “Tá bom, mas uma hora a gente vai ter que sentar para acertar essa história, viu. Sou seu marido e tenho meus direitos.” E é quando, empoderada novamente, ela o rejeita com veemência antes de deixar o quarto: “No meu direito de mulher traída, lhe digo: ‘Vai cobrar da sua outra’”.

Empoderamento

Feliz com o sucesso da personagem Maria Bruaca, Isabel Teixeira comemorou a libertação da personagem e afirmou que o público se comove ao ver uma mulher tão sofrida finalmente ter uma vida com algum tipo de alegria.

Para a atriz, a chegada de Guta (Julia Dalavia) é o estopim para que Maria entenda que sua vida precisa mudar de uma vez por todas. Após morar longe do Pantanal, a filha de Tenório e Maria retorna para o local com uma educação libertadora, novas noções de relacionamento e questiona a decisão da mãe de permanecer atada à Tenório após descobrir que o marido tem outra família

"Ela estava cristalizada naquele cotidiano e viveria ali naquela casa para sempre. De repente, a Guta (Julia Dalavia) chega numa 4x4. A cena é até emblemática, ela rompendo ali aquele terreno numa linha reta para mudar tudo. Quando a Bruaca descobre a outra família do Tenório, é como se o chão concreto dela entrasse em um abalo sísmico. Ela tenta se segurar, literalmente. Se apoia nos móveis, na sexualidade", opinou a atriz em entrevista para a colunista Patricia Kogut, do jornal "O Globo".

Sobre o affair de Maria Bruaca com Alcides, Isabel Teixeira explica que a verdadeira responsável pela libertação sexual e social da personagem é ela mesma. "É maravilhoso isso, uma delícia. E o legal é que cada um deles tem a história própria. Não é o Alcides que salva a Bruaca, ela que se salva. E isso conversa muito com o mundo de hoje. Eu tenho uma filha, Flora, de 11 anos, e a realidade dela não é mais a da Bela Adormecida, que fica ali paralisada esperando o príncipe. Não. A salvação é um processo de dentro para fora. Então, a trajetória de casal é também uma trajetória de autoconhecimento de cada um deles".

Casos reais

Alana* conheceu o namorado, na época fazendo campanha para deputado federal, enquanto estagiava em uma empresa de comunicação em São Paulo. O começo do relacionamento foi um sonho: encontros em vários restaurantes e bares na cidade, festas e fins de semana assistindo série e viajando para cidades próximas.

De idade próxima e valores aparentemente semelhantes, o casa logou decidiu morar junto, dividindo despesas em uma das metrópoles mais caras da América Latina. O início da vida a dois sob o mesmo teto também começou de forma romântica e respeitosa, e Alana comemorou ter encontrado um parceiro dedicado e honesto.

Após alguns meses, no entanto, tudo mudou. O namorado perfeito, dedicado e respeitoso passou a controlar as roupas de Alana, suas amizades e suas saídas sozinha para a rua. Em seguida, foi o emprego de Alana como jornalista que sofreu: no início de carreira, a então jovem não podia mais dedicar tempo a pautas externas. Sua dedicação ao trabalho passou a ser chamada de ambição mesquinha, já que o tempo para escrever uma reportagem deveria ser totalmente voltado a cuidar do namorado.

O que era "amor" rapidamente virou prisão, e Alana começou a ser acusada de traições que jamais havia cometido. Poucos meses depois, antes de um ano de relação, a jornalista descobriu que o namorado tinha outra namorada e um filho pequeno em uma vida alternativa que criou em outra cidade. "Ao todo, precisei de mais de cinco anos para me libertar. Minha relação com meu trabalho foi completamente envenenada, perdi inúmeras oportunidades, possíveis promoções e até vagas internacionais. Só consegui me libertar após ser espancada. Ali, percebi que estava em um relacionamento abusivo e, com a ajuda de meus amigos, denunciei o caso na polícia e consegui uma medida restritiva", explicou ao Yahoo.

Infelizmente, relacionamentos abusivos como o de Alana são comuns no Brasil. Os dados recentes são assustadores, mostrando um estupro a cada dez minutos e um feminicídio a cada sete horas em 2021. O ano apresentou 56.098 estupros (incluindo vulneráveis), um crescimento de 3,7% em relação ao ano anterior. Os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2022, relativos à violência letal e sexual de meninas e mulheres, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Vítimas marginalizadas

Quando falamos de violência e vulnerabilidade social, proximidade com diferentes aspectos marginalizados aumenta o número de possíveis danos. Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, apontam que o número de mulheres trans que buscaram atendimento em unidades hospitalares por terem sofrido algum tipo de agressão explodiu nos últimos dois anos.

Só em 2022, o estado do Rio de Janeiro já contabilizou 146 casos suspeitos ou confirmados, quase um por dia. O número se aproxima do total do ano passado, que bateu o recorde da série histórica, iniciada em 2015: 159 registros. A capital somou, entre janeiro e maio de 2022, mais que o dobro do número de casos de 2021 inteiro. Já são 73 notificações este ano, contra 29 no ano passado.

*O nome da fonte foi trocado para preservar o anonimato dela.