'One Piece Film: Red' pode agradar a fãs, mas é um tanto bagunçado

FOLHAPRESS - Um produto como "One Piece Film: Red" traz uma série de questões para o espectador incauto -muitas que talvez passem despercebidas para as centenas de milhares de fãs que fizeram do filme da longeva série japonesa a segunda melhor estreia do Brasil na última semana, atrás apenas de "Adão Negro".

Primeiro, há os rumos da trama. Temos Uta, uma ídolo pop adorada pelas multidões, que vai rapidamente de deusa a vilã ao usar seus poderes para aprisionar os fãs num mundo virtual e onírico no qual ela pode tanto levar alegria infinita para quem queira escapar da realidade miserável quanto arruinar a vida de quem discorda do seu autoritarismo fru-fru.

Ainda que tenhamos quase duas horas dessa aventura previsível -o que não é o problema aqui-, os espectadores podem ter mais a sensação de estar vendo um episódio estendido da série do que de fato acompanhando algum desenvolvimento dramático, ainda que mínimo, próprio de um filme do gênero.

Daí que, ao dar apenas ênfase ao seu chamariz -uma personagem que tem parentesco com Shanks, o misterioso pirata ruivo de "One Piece" e ídolo de Luffy, o protagonista de chapéu de palha-, "Red" impõe uma barreira ao espectador que não acompanha a mitologia ou as centenas de personagens da franquia, que já passa dos mil episódios televisionados. Nesse caso, há de fato um bombardeio de referências e figuras conhecidas dos fãs.

Mas, ao fim, sua estrutura ainda é aquela do "perigo da semana", o que de alguma forma acaba sendo mascarado pelo requinte visual e sonoro desta produção -um musical recheado de ação e de cores, feito para fazer cair o queixo de quem assistir ao filme na telona, ainda que qualidade da animação do estúdio Toei aqui não seja tão superior à média.

Pode deixar a desejar aos que esperam que o cinema seja superior à TV, o que recentemente já não tem feito muito sentido. O resultado é competente na hora de mesclar a porradaria cheia de frases de efeito arrojadas e desfilar um festival de bonequinhos vendáveis.

Mas produtos como esses também fazem pensar que, para além da gama de matizes que podem brotar do universo particular de Eiichiro Oda (e da própria natureza de uma história de piratas), "One Piece" não é tão diferente de "Adão Negro" ou os filmes da Marvel. Pode ser também, nos seus piores momentos, propaganda, um comercial carnavalesco.

Posto isso, quem não tiver o mínimo de noção de quem sejam os diversos personagens que aparecem ao longo da trama pode ser perder na bagunça colorida com alguma facilidade. Lógico, há sinais claros de quem são os heróis, os tais Piratas do Chapéu de Palha (núcleo principal da série), de que estamos em um mundo gigantesco onde os governantes são corruptos e egoístas, a polícia (a Marinha) é truculenta e imoral, que há castas que se consideram superiores, e tudo mais que celebra a rebeldia -inclusive a de Uta- como uma forma, no limite compreensível, de expressão.

É genuíno, mas é menos mérito do filme do que, novamente, fruto de uma construção anterior. "Red" acaba se tornando mais um paratexto para quem quer ter conhecimentos enciclopédicos da série do que uma aventura pelos terrenos perigosos do metaverso -afinal, é isso que Uta promete em última instância.

Para isso, ainda no terreno das animações japoneses, vale mais se perder por entre o fabular "Belle", lançado nos cinemas brasileiros em janeiro, e que reconta o clássico "A Bela e a Fera" na era digital com muita competência e alguma ousadia na hora de tratar as relações entre utopia e vida.

Uta, por outro lado, parece remeter a ideais púberes que não raro mangás e animes destinados a adolescentes insistem em retratar. É algo semelhante ao que Goro Taniguchi, diretor de "Red", já mostrara em "Code Geass", anime no qual um príncipe adolescente é agraciado com um superpoder capaz de manipular as pessoas e reconstruir o mundo. Claro que depois o jovem idealista se torna vilão, assim como Uta aqui será vítima dos desajustes do mundo e da figura paterna.

No balanço, conhecendo a estrutura de arcos narrativos adotados pelos japoneses, essa história provavelmente se sairia melhor se fosse mesmo parte da série. Renderia episódios divertidos, feitos para quem tem uma noção mais completa desse universo.

Ironicamente, filmes como estes, mesmo com suas marcadas intenções mercadológicas, também lembram que o cinema ainda pode ter lá seu prestígio mesmo na era do streaming.

ONE PIECE FILM: RED

Avaliação Regular

Onde Em cartaz nos cinemas

Classificação 12 anos

Produção Japão, 2022

Direção Goro Taniguchi