Obra de Padura que reflete sobre Cuba e seus exilados ganha edição no Brasil

SYLVIA COLOMBO
*ARQUIVO* Sao Paulo, SP, Brasil 02/07/2014 - Leonardo Padura, escritor - Segundo dia da Feira Literaria Internacional de Paraty. (Foto: Bruno Poletti/Folhapress)

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Há muitas razões para pensar que, para Leonardo Padura, 64, sua obra mais importante seja "O Homem que Amava os Cachorros" (ed. Boitempo). Afinal, com ela, ganhou projeção internacional, além de ter sido um desafio gigante executado por ele com maestria.

Mas para o escritor cubano, seu principal livro não é esse, e sim "O Romance de Minha Vida", lançado originalmente em 2002, e agora editado em português, pela mesma editora.

"Era uma fase boa da minha vida, em que eu tinha acabado a série policial com o detetive Mario Conde e me sentia aberto para abraçar um projeto completamente diferente, e acabei escolhendo este, uma investigação livre, fictícia, da vida de José Maria Heredia."

É sobre um poeta, nascido em Cuba, que é considerado um dos primeiros poetas românticos da América e também um dos primeiros escritores cubanos a buscar o exílio, por razões políticas. Era membro da maçonaria, pró-independência e sua produção era marcada pela bandeira da liberdade para Cuba e de um exultante entusiasmo patriótico.

Com isso, teve de se mudar para o México, onde acabou morrendo muito jovem. "Para mim, ele é uma espécie de Lord Byron cubano", conta Padura. Mas, para capturar sua essência, preferiu adotar um estilo ficcional. Nele, logo vão surgindo semelhanças entre o protagonista, o escritor buscado e o próprio autor, como se ali houvesse um jogo de espelhos.

A história começa com o retorno de um exilado para as ilhas, Fernando Terry, que tem como desafio encontrar uma obra perdida de Heredia. A busca pelo manuscrito o leva a conhecer seu pensamento durante os tempos da colônia, uma Cuba que Terry não conhecia. Enquanto isso, sua trajetória vai revelando paralelos, histórias em comum a tantos cubanos, ainda que por razões distintas: o exílio, a busca por um ideal artístico e patriótico, seu lugar no mundo como habitante de uma ilha.

"Eu creio que ele viveu sabendo que sua vida era como um romance, por isso o comparo a Lord Byron, por isso creio que é um dos nossos primeiros românticos, e tenho uma grande admiração", diz Padura. E acrescenta: "Eu creio que Heredia, por sua atuação na maçonaria, por ter se engajado na independência, pelo modo como desenvolve seus textos, talvez tenha sido o primeiro cubano a ter real consciência de que era cubano."

Para ele, Heredia também inaugura um destino comum a tantos escritores cubanos --dos quais Padura é uma exceção, pois jamais deixou o bairro em que nasceu e cresceu, em Havana --que é a do exílio.

"Ele inaugura o exílio político, outros o seguirão, até mais célebres, como José Martí, que virou o grande prócer da independência", diz Padura.

E complementa: "No século 20 vieram então outros tipos de exílio, dos que estavam contra ou simplesmente eram perseguidos pela Revolução aos que buscam vidas melhores. O exílio é uma constante na literatura cubana. Mas o interessante de mergulhar na vida de Heredia é que naquela época essa tradição não existia, ele abriu e trilhou sua própria vida, ou seu próprio romance, como ele gostava de dizer".

"O Romance de Minha Vida" acabou rendendo frutos além das páginas do livro. Um fragmento da obra serviu de inspiração ao filme "Regresso a Ítaca", dirigido pelo cineasta francês Laurent Cantet, com um roteiro escrito a quatro mãos entre Cantet e Padura. Para quem não viu, o filme se passa num terraço em Havana, num fim de tarde em que amigos se reúnem para comemorar o retorno de um deles, depois de um exílio.

O encontro dura toda a noite, recheada de lembranças de cada personagem e de suas ilusões e desilusões.


LIVRO

O Romance de Minha Vida

Leonardo Padura.

Trad.: Monica Stahel.

Ed. Boitempo. R$ 54 (328 págs.)