Obey, autor de cartaz de Obama, diz não entender por que alguém apoia Bolsonaro

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*ARQUIVO* BRASILIA, DF, BRASIL, 19-03-2011, 15h: O Pres. Barack Obama participa da Cupula Empresarial Brasil- Estados Unidos, realizada no hotel Brasil 21. (Foto: Sergio Lima/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASILIA, DF, BRASIL, 19-03-2011, 15h: O Pres. Barack Obama participa da Cupula Empresarial Brasil- Estados Unidos, realizada no hotel Brasil 21. (Foto: Sergio Lima/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O sobe e desce de andaimes junto a duas empenas de um prédio de escritórios na rua Teodoro Sampaio, em São Paulo, chamava a atenção de quem por ali passava nos últimos dias. Munidos com mais de 400 latas de spray e alguns baldes de tinta acrílica, cinco artistas instalados nas estruturas faziam aparecer aos poucos um mural coloridíssimo no que antes era apenas uma parede branca com uma pichação.

Na parede da esquerda surgiram motivos florais, uma balança simbolizando a justiça e um elefante carregando o mundo nas costas com a inscrição "carga frágil"; na da direita, o rosto de uma garota vestindo um boné e um livro aberto onde se lê na capa "o futuro não está escrito", uma referência à banda punk The Clash. Paradas na entrada do prédio, cerca de dez pessoas nutriam a expectativa de que um dos artistas descesse do andaime e viesse falar e trocar adesivos com elas.

"O mural lida com alguns temas que são importantes para mim --a justiça, o cultivo da harmonia, ser um bom fiscal do planeta, ativismo. Ela [a garota da imagem] é uma ativista ambiental. É um apelo para tentar encontrar maneiras de cultivar os melhores anjos de nossa natureza", afirma Shepard Fairey, o Obey, um dos maiores nomes do grafite e da arte de rua em atividade, ao detalhar os dois painéis de 23 metros de altura por dez de largura que fez com a ajuda de sua equipe.

O artista americano, que ganhou muita popularidade em 2008 ao criar o famoso cartaz com o rosto do ex-presidente Barack Obama e a palavra "hope", esperança, adotado pelo democrata em sua campanha, esteve na cidade a convite da segunda edição do festival internacional de arte urbana NaLata, organizado por Luan Cardoso. O evento resultou em diversas empenas pintadas por vários artistas na região de Pinheiros, incluindo uma pela brasileira Verena Smit e essa de Obey, sua primeira obra dessa escala na América do Sul.

Conhecido por cartazes de motivos progressistas, nos quais blocos chapados de cor e palavras de ordem ironizam guerras das quais os Estados Unidos participam ou apoiam um movimento de mulheres contra o ex-presidente Donald Trump, por exemplo, Obey diz não achar que sua arte é de confronto, mas sim que muitas das ideias bancadas por ele são desafiadoras.

"Você sabe, acreditar na ciência, na mudança climática e no aquecimento global --algumas pessoas não querem ver ou ouvir isso, então estou tentando encontrar maneiras de as seduzir em vez de simplesmente dar um soco."

Entre goles de uma latinha de refrigerante que segura com as mãos sujas de tinta preta após passar horas pintando sob o sol de mais de 30 graus, Obey fala pausadamente sobre a situação política de seu país. Ele se considera um democrata mais à esquerda no espectro do partido, não tem dúvidas ao dizer que Trump foi o pior presidente da história dos Estados Unidos e acrescenta que sua preocupação número um nas últimas eleições presidenciais era se livrar do republicano.

O repórter pergunta sua opinião sobre a estética trumpista, citando uma situação na qual Trump aparece enrolado na bandeira americana e outra em que o republicano encheu uma mesa da Casa Branca com "fast food". "Trump usa todos os métodos para apelar para gente sem sofisticação. Ele usa essas ferramentas que eu acho vergonhosas, porque quando observo como [elementos] visuais podem direcionar uma conversa, olho para como usar isso com responsabilidade."

Uma das diferenças entre Trump e Obama, ele afirma, é que o democrata encarava o país como uma coleção diversa de pessoas, sem se basear em políticas identitárias, mesmo que ele fosse um homem negro que poderia facilmente ter falado muito mais sobre racismo. Já o republicano tentava inculcar nos americanos brancos o sentimento de que os não brancos ameaçariam o seu acesso ao "sonho americano", a chance de ter uma vida boa.

"Política tocada dessa forma nunca será benéfica para o coletivo. Se aproveitar da raiva das pessoas é muito mais fácil do que tentar encorajar as pessoas a pensarem de maneira mais generosa e elevada. O que está acontecendo aqui [no Brasil] não é tão diferente. Todo mundo que eu encontrei aqui parece muito legal. Por que qualquer pessoa dessas apoiaria [o presidente Jair] Bolsonaro?"

Hoje com 51 anos, Obey se diz mais otimista com a chegada de Joe Biden ao poder, mas teme que isso ainda não seja o fim da era Trump, já que o trumpismo se infiltrou como um câncer no partido republicano, ele afirma, de modo que agora a sigla tenta fazer de tudo para bloquear as propostas do novo presidente de avançarem no Congresso.

De meados dos anos 1990 para cá, Obey ganhou relevância cultural com sua arte de comentários políticos e linguagem pop influenciada por Barbara Kruger, Andy Warhol e Jamie Reid, o designer das capas dos discos do grupo punk Sex Pistols. Mas seu início foi mais despretensioso. Obey era um skatista que fazia serigrafias de suas bandas preferidas em camisetas e colava adesivos nos postes e paredes de Providence, cidade onde cursou a faculdade de artes na prestigiosa Rhode Island School of Design.

Um de seus adesivos, com a ilustração do lutador francês Andre the Giant, começou como uma piada mas veio a definir parte da estética associada à arte de rua e também a ajudar a popularizar a própria cultura de colar adesivos no espaço púbico. Essa imagem foi o rascunho do que se tornaria sua marca mais conhecida, um adesivo com um rosto de feições bravas e a palavra "obey", ou obedeça. É claro que ele colou alguns por São Paulo e distribuiu tantos outros.

No decorrer de sua carreira, mesmo já tendo sido preso cerca de 20 vezes por colar cartazes, adesivos e escrever sua "tag", ou assinatura, em lugares não autorizados, Obey nunca deixou de defender que o espaço visual das ruas é para todos se expressarem, não só para quem pode comprar espaço publicitário num outdoor ou para o governo instalar informes.

Tudo isso, ele diz, "baseado na ideia de que as pessoas ficam muito anestesiadas para os seus arredores e elas precisam de coisas que despertem um senso de maravilhamento e as façam olhar mais analiticamente e com mais cuidado para tudo ao seu redor". "Então senti que adesivos e pôsteres integrados à paisagem, mas que não deveriam estar lá, teriam esse efeito. Há valor na expressão que não é comercial."

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