O vídeo de Victor, o futebol de Jean e a impunidade em casos de violência contra a mulher

Victor Chaves (Foto: Instagram)

Notícias sobre violência contra a mulher nunca são felizes ou divertidas, mas o cantor Victor Chaves acreditou correto fazer uma sátira sobre a sua própria acusação. As imagens não são de hoje - elas foram gravadas pelo músico em fevereiro de 2019, mas viralizaram novamente essa semana, após a sua condenação. 

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Se você não sabe, Victor foi condenado a 18 dias de prisão em regime aberto por agredir a sua ex-mulher, Poliana, em 2017. Na época, os dois ainda estavam casados, e Poliana estava grávida de quatro meses.

No vídeo em questão, Victor faz pouco caso da acusação, fazendo uma entrevista consigo mesmo, em que diz: "Senhor Victor, consta que o senhor teria desferido 15 chutes na barriga de uma grávida, a pergunta é: O senhor joga futebol?". Logo em seguida, ele ri muito e responde: "Jogo de vez em quando, mas nunca consegui acertar um chute".

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O problema com o vídeo - além do teor, altamente ofensivo e que faz pouco caso de uma questão séria -, é que só escancara algo que é muito comum em situações como essa: a impunidade. Temos, no mundo inteiro provas de como casos de violência contra a mulher terminam com traumas gigantescos para um dos lados e respostas legais de menos para o outro. 

Outro exemplo de como isso acontece é o de Jean, jogador do São Paulo. Sim, ele, que foi, só no mês passado, acusado pela mulher, Milena Bemfica, de agressão, vai voltar a jogar, como se nada tivesse acontecido. 

Jean chegou a ser preso nos Estados Unidos, onde o caso aconteceu quando a família passava férias por lá. O caso, aliás, segue sendo investigado e Jean está proibido de chegar perto de Milena, porém, por aqui, as coisas são diferentes. 

O São Paulo afastou o jogador, mas já tem outro time interessado nele, o Atlético de Goiás. Afinal, o que conta mesmo é o talento de Jean para a bola e não a sua conduta fora dos gramados, não é mesmo? 

A questão é: não é sem motivo que mais de metade das mulheres deixam de denunciar casos de violência no Brasil. O recado que a justiça manda é simples: às mulheres, resta lidar com o trauma e o julgamento público a seu respeito (quem lembra do caso envolvendo o ator José Mayer, sabe do que estamos falando). Aos homens, fica claro que, mesmo diante de uma condenação, a punição é mínima com chance de recorrer. 

No caso de Victor, por exemplo, existem imagens de câmeras internas que mostram a violência usada por ele para tentar tirar a ex-esposa do elevador. Desde aquele dia, ele seguiu com a vida - foram dois anos até a condenação, que ainda conta com uma indenização de R$ 20 mil por danos morais. Os advogados do músico, claro, já recorreram à decisão. 

Também no ano passado, um caso que chocou muita gente mostro como a impunidade pode chegar a extremos quando o assunto é favorecer o homem. Nos Estados Unidos, no ano passado um adolescente foi acusado de estuprar uma jovem, visivelmente embriagada e sem capacidade de revidar às investidas do menino. 

O juiz James Troiano, no entanto, repreendeu a jovem por não "pensar no futuro" do adolescente, e decidiu não acusá-lo por estupro, mas por abuso sexual, evitando que o acusado fosse à um grande júri e mesmo com provas concretas do que tinha acontecido.

No caso, o próprio menino compartilhou com os amigos um vídeo do que aconteceu, chamando o que tinha feito de “estupro”. O juiz ainda disse que o jovem era "de boa família", tirava boas notas na escola e que era um bom candidato a conseguir vagas em boas universidades. Ainda disse ao promotor de justiça que a família da vítima deveria ter pensado antes nas consequências de fazer uma denúncia desse tipo. 

É importante lembrar que os casos de violência não acontecem apenas em situações “fora do comum" - como uma mulher ser atacada enquanto volta para casa do trabalho, à noite. Na verdade, 42% dos casos são domésticos, eles ocorrem dentro de casa. 

Segundo uma pesquisa feita pela ONG Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 76% das mulheres explica que o agressor é alguém conhecido. As mulheres negras e pardas, obviamente, são mais vitimadas do que as mulheres brancas. E as mais novas são, também, vítimas com mais frequência do que as mais velhas. 

Tudo isso para dizer que: se buscamos um mundo menos violento, precisamos, antes de mais nada, cobrar dos sistemas de justiça punições condizentes com os crimes cometidos. A mensagem que esses casos nos mandam é que é tudo bem fazer pouco caso de uma agressão séria, é tudo bem ser detido em outro país e continuar jogando bola no seu país de origem. As únicas consequências disso ficam, como sempre, no ombro das mulheres.