'O Telefone Preto' inverte o culto a serial killers e dá voz a jovens mortos

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Depois de se desentender com a Marvel por "diferenças criativas" na condução de "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura" e de ser substituído por Sam Raimi, Scott Derrickson retorna ao gênero do terror. Sem o bafo puritano da Disney em seu cangote, o diretor volta a tratar de temas sinistros, com direito a sangue e palavrões.

"O Exorcismo de Emily Rose", longa de estreia de Derrickson, era uma mistura irregular de "Law & Order" com "O Exorcista", pendendo mais para o drama jurídico do que para a possessão demoníaca. "A Entidade", no entanto, impressionou fãs de terror com cenas perturbadoras, ainda que o filme desafie a lógica aqui e ali.

Em "O Telefone Preto", que estreia nos cinemas, Derrickson trabalha novamente com o ator Ethan Hawke. Desta vez, Hawke é um vilão conhecido apenas como "o sequestrador" —um apelido genérico para um antagonista dramático— que aterroriza os meninos de um subúrbio já forrado com cartazes de crianças desaparecidas.

Interpretado por Mason Thames, Finney é o típico garoto inteligente que sofre bullying na escola. Sua carismática irmã Gwen, muito bem encarnada por Madeleine McGraw, tem sonhos que revelam detalhes dos sequestros —o que desperta a ira do pai vivido por Jeremy Davies, um bêbado que não aceita que a filha tenha poderes paranormais.

No caminho de casa, Finney se depara com um mágico de festa infantil que derruba as compras do mercado ao lado de uma suspeita van preta —e, claro, acaba raptado. Os sonhos de Gwen serão imprescindíveis para encontrar pistas de sua localização, mas o menino também contará com uma ajudinha sobrenatural para escapar do cativeiro.

A combinação de crianças desaparecidas, bullying, alcoolismo e mediunidade pode parecer bastante familiar. "O Telefone Preto" é baseado em um conto de Joe Hill, filho de Stephen King —que, apesar de não adotar o sobrenome famoso, parece ter se inspirado nas obras mais celebradas de seu pai, como "It: A Coisa", "Carrie, a Estranha" e "O Iluminado".

Desde 2017, quando a refilmagem de "It: A Coisa" arrebatou mais de US$ 700 milhões na bilheteria, várias outras obras de King foram ressuscitadas, como o recente "Chamas da Vingança". A série "Stranger Things" comprovou que nem é preciso ir direto à fonte —emular o estilo do autor americano já é suficiente para atrair a atenção do público.

Assim, "O Telefone Preto" faz uma aposta segura na nostalgia, tão predominante no ramo do entretenimento com a ascensão da cultura nerd nas últimas décadas. É inevitável a sensação de déjà-vu ao ver uma menina com um casaco de chuva amarelo pedalando numa rua pacata. Até as bexigas —pretas, não vermelhas— fazem parte da trama.

Produzido pela Blumhouse, "O Telefone Preto" custou por volta de US$ 18 milhões e já faturou mais de US$ 100 milhões na bilheteria mundial, uma vitória discutível para um filme que não faz parte de uma franquia, mas que é produto do zeitgeist. Mesmo sem arriscar, o novo terror de Derrickson é brutal no retrato de uma infância cheia de tormentos.

Entre surras de cinto dentro da própria casa e os valentões da escola que não se contentam com um soco ou dois, parece que o sequestrador não é a única ameaça da cidade. Um dos amigos de Finney diz a ele que, cedo ou tarde, ele precisará aprender a se defender. Não há inocência a ser corrompida, as crianças já vivem em um pesadelo.

Há alguns sustos baratos que causam solavanco no espectador —mais pelo barulho do que por alguma imagem horripilante. "O Telefone Preto" nos envolve quando abandona essas táticas batidas e se concentra nas emoções dos personagens. Uma jovem atriz para se acompanhar, McGraw é excelente como Gwen, o verdadeiro coração do filme.

É por meio dos sonhos dela que Derrickson humaniza os meninos raptados antes de Finney. Dentro do gênero do "true crime", há um culto perverso que endeusa serial killers como Ted Bundy ou John Wayne Gaycy. Em vez de tratar os mortos como vítimas anônimas, "O Telefone Preto" segue pelo caminho inverso.

O TELEFONE PRETO

Quando Estreia nesta quinta (21), nos cinemas

Classificação 16 anos

Autor Ethan Hawke, Mason Thames e Madeleine McGraw

Produção EUA, 2021

Direção Scott Derrickson

Avaliação Bom

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