O que Seven ensinou sobre ódio há 25 anos

Thiago Romariz
·4 minuto de leitura
Morgan Freeman como Somerset em Seven – Os Sete Pecados Capitais (1995). Foto: Warner Bros. Entertainmen
Morgan Freeman como Somerset em Seven – Os Sete Pecados Capitais (1995). Foto: Warner Bros. Entertainmen

Por Thiago Romariz* — Em tempos que discutimos o efeito do ódio e da adoração a símbolos, me senti atraído por uma das obras magistrais de David Fincher: Seven - Os Sete Crimes Capitais. Primeiro pelo final que não sai da cabeça após a primeira sessão. Segundo por nada dentro da atmosfera criada pelo diretor estar ali por acaso, dos detalhes nas cenas do crime à trilha sonora da abertura. E terceiro, mas não menos importante, por lembrar como boa parte da força do filme está em mostrar como amor, ódio, solidariedade e crueldade andam lado a lado.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Google News

Fui assistir ao filme depois de algumas horas de trabalho, e decepção profunda com o noticiário pelo enésimo dia seguido. A capa do filme apareceu no início de um dos serviços de streaming, obscura e de tom ensanguentado. Não era a melhor opção para o meu humor, "mas quer saber?", pensei comigo, "mais do que nunca a ficção é o caminho para fugir da nossa realidade".

Leia também

Os primeiros minutos de Seven compõem o tom perfeito para a fotografia e o design de produção que vai tomar conta da história. Os créditos frenéticos, sem foco e pontuados pelo som do Nine Inch Nails deixam claro que há ordem no caos a ser apresentado. É como estar dentro da cabeça de um psicopata planejando seus próximos passos.

A partir dali, nada está limpo na tela. A chuva está presente em todo quadro, a não ser no último, uma paisagem quente que combina com a ira em questão. Os cômodos dos crimes são meticulosamente filmados para notarmos cada um dos detalhes do horror montado por John Doe, o assassino; e até a suposta calmaria da casa dos protagonistas é cheia de sombras e barulhos ensurdecedores.

O jeito que Fincher filma ainda remete aos videoclipes da década de 1990, mas nunca deixa de ser uma adição à narrativa - nenhum dos efeitos ou mesmo dos cortes rápidos da montagem atrapalham a compreensão da história. Tudo está ali para adicionar e, de lambuja, montar a identidade de um diretor que seria um dos símbolos do suspense nos próximos anos.

É impossível negar a atuação da dupla protagonista. Dentro deles está a aproximação entre amor e ódio que carrega a história. Como trocentos filmes de investigação, temos um detetive jovem e outro experiente. Um cético, outro crente. Um impetuoso, outro paciente. A dicotomia, porém, não é o que salta aos olhos em Seven, mas sim a proximidade destes dois extremos.

Durante todo o filme, Mills briga com sua impetuosidade, mas age com compaixão e ternura em boa parte da trama. Ainda que vivam sob a chuva e as fumaças de uma cidade suja, nos olhares e pequenos gestos, os dois investigadores mostram humanidade. E a atuação impecável da dupla eleva isso a uma potência digna de clássicos do cinema.

Somerset e Mills são opostos em muitos assuntos, mas se aproximam cada vez que chegam perto da resolução. Não existe a jornada de aprendizagem no filme, mas sim da exploração máxima do que o psicológico de alguém pode suportar, frente às dificuldades da vida e os desafios do trabalho.

Junte a isso o senso de urgência que a última semana de trabalho de Somerset traz ao roteiro, e temos um relógio que se esgota ao mesmo tempo que iguala os heróis da história.

Quando acaba o tempo e chegamos ao fim de Seven, vemos que até mesmo os mais puros podem ser corrompidos pelo ódio, pela ira. Afinal, por mais bondosos e bem intencionados que sejamos, continuamos a ser todos humanos - e ao flertar com extremos, acabamos sempre iguais.

*Thiago Romariz é jornalista, professor, criador de conteúdo e atualmente head de conteúdo e PR do EBANX. Omelete, The Enemy, CCXP, RP1 Comunicação, Capitare, RedeTV, ESPN Brasil e Correio Braziliense são algumas das empresas no currículo. Em 2019, foi eleito pelo LinkedIn como um dos profissionais de destaque no Brasil no prêmio Top Voice.

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Instagram, Facebook, Twitter e YouTube e aproveite para se logar e deixar aqui abaixo o seu comentário.