"O que separa a mulher negra do sucesso são as oportunidades", diz empreendedora

Karla Lopes é produtora de conteúdo e dona da loja de autocuidado Lunna Care

Reconexão consigo mesma. Foi isso que levou a jornalista e empreendedora Karla Lopes a lançar a sua própria marca de autocuidado, a Lunna Care. Em um país onde aproximadamente 15% dos novos empreendedores são mulheres, não é uma surpresa que ela tenha decido entrar nessa empreitada hoje em dia. Porém, Karla chama a atenção para um fator que, para ela, foi decisivo: o papel do racismo na sua jornada para o sucesso.

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Em uma thread no Twitter, Karla explicou como trabalhou duro nos últimos anos para superar crenças limitantes em relação ao dinheiro. Ela acreditava que não só não merecia ser bem sucedida financeiramente como receber pelo seu próprio trabalho. "Todas essas crenças de não merecimento vinham do racismo. Mesmo com muitos privilégios, ver negros bem sucedidos era algo raro pra mim. Ver negros frequentando lugares legais, comendo em lugares legais, viajando, conduzindo o próprio negócio com prosperidade era raríssimo", escreveu ela.

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Karla comenta que hoje ela vê o sucesso como "ter mais felicidade do que tristezas com o que faz". Levando uma jornada dupla, tanto com produção de conteúdo online quanto com a sua loja, ela diz que alcançou esse lugar de equilíbrio, já que ama o próprio trabalho e consegue levar as duas carreiras com o mínimo de falhas e o máximo de aproveitamento.

Representatividade importa!

Mas chegar até aqui levou tempo - e foi uma jornada quase às cegas. Isso porque, desde pequena, Karla não teve tantas referências do que eram pessoas negras bem sucedidas. Seja na televisão ou no seu entorno, era raro encontrar pessoas dessa comunidade em papéis de destaque. Para se ter uma ideia, a primeira protagonista negra da Globo foi Preta, personagem de Taís Araújo na novela 'Da Cor do Pecado’, em 2004. Desde então, mais de 150 novelas foram ao ar entre as principais emissoras brasileiras, mas apenas 13 tiveram negros no elenco principal, segundo análise do Geledés.

Mais do que isso, muitas vezes a pouca representatividade encontrada mostrava mulheres negras que não necessariamente eram bem-sucedidas. Pode parecer distante, mas isso tem um efeito direto na autoestima de pessoas como Karla: "Achava que seria igual a elas. Por muito tempo achei que não conseguiria prosperar no trabalho", explica.

Racismo na TV, nas revistas, no cinema

Para a também jornalista, o racismo foi a base de todo o sistema, porque ver pessoas negras retratadas apenas como empregadas domésticas, escravas ou pessoas pobres da periferia - o que é comum para os negros na televisão, por exemplo - era uma visão do seu futuro. "Não que eu seria empregada ou escrava, mas que não teria um futuro próximo da maneira como eu queria", diz.

Os dados confirmam como essa realidade é muito mais ampla do que se imagina. Segundo o IBGE (o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as mulheres negras representam 27% da população brasileira, o maior grupo do país, e o analfabetismo entre elas ainda é o dobro comparado às mulheres brancas. Além disso, em 2015 foi registrado que a taxa de desemprego entre essas mulheres era de 17,4%, 6% acima da taxa média feminina de 11,6%.

"Ainda acho que o racismo continua podando mulheres negras em suas carreiras, porque são muito menos oportunidades e locais que essas mulheres podem ocupar. Quantas mulheres negras em cargos de liderança você conhece? Conheço pouquíssimas, a maioria desses cargos são ocupados por homens brancos. Para uma mulher já é difícil chegar lá. Para uma mulher negra, mais ainda", reflete ela.

Karla vê uma reversão nesse quadro a partir das oportunidades apresentadas. O que separa uma mulher negra do sucesso são as oportunidades que ela tem, ou seja, se o mercado não abre as portas para que essas mulheres tenham sucesso nas suas respectivas profissões, ocupando cargos de chefia e de liderança, e tendo uma voz ativa, dificilmente algo vai mudar.

Muita gente insiste ainda que essas diferenças não existem - é uma visão muito meritocrata e perpetuada pela população que, hoje, ainda ocupa os principais espaços da nossa sociedade. Mas é fato que as mulheres negras ganham, no Brasil, salários 60% menores do que os homens brancos, de acordo com uma pesquisa feita em 2017 pelo Ipea, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. A falta de oportunidades e de espaço também se reflete nas profissões exercidas por essas mulheres. Não à toa, mais de 55% das empregadas domésticas no país são mulheres negras.

"Para mim, isso mudou no momento em que as portas foram abertas. Sempre trabalhei com moda e cultura no jornalismo, e o que mudou pra mim foram as pessoas me darem oportunidades para estar em locais em que outras mulheres como eu não chegariam", explica ela. Como produtora de conteúdo, ela trabalha lado a lado com Lu Ferreira, do Chata de Galocha. "Ela abriu uma porta gigantesca para mim dentro da empresa, ela me dá voz, me ouve, acata o que falo, e eu sinto que naquele local tenho o sucesso profissional porque sou ouvida, não sou só uma funcionária".

Karla reconhece que a sua história é única - mesmo dentro da comunidade negra, ela tem muitos privilégios que outras como ela não tiveram ao longo da vida -, por isso, diz que não espera ensinar outras mulheres sobre como alcançar o sucesso, mas que seja, no mínimo, vista como uma referência por aquelas que buscam algo diferente.

"O sucesso é uma construção. Principalmente para as mulheres negras, que tem muitas portas fechadas, elas estão assim antes mesmo de chegarmos a elas. É um processo de muita luta, de muito esforço, de muita frustração, mas que é maravilhoso no momento em que você encontra essas portas abertas, porque você entende o seu valor".