O que sabemos sobre as manchas de óleo no Nordeste

Manchas de óleo variam de tamanho e densidade. (Foto: Agência Brasil)

O que no início surgiu como um episódio, no mínimo, atípico tem tomado contornos de um sério problema ambiental e quem sabe diplomático. A notícia das primeiras manchas de óleo datam do dia 2 de setembro, no litoral de Pernambuco, e tratavam o caso como algo curioso.

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Ao longo dos 36 dias desde então, o número de localidades afetadas chegou a 132 praias, distribuídas em 61 municípios dos 9 Estados do Nordeste (Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia). A situação mais crítica é de Sergipe, que decretou situação de emergência no último fim de semana.

Confira abaixo o que já se sabe a respeito das manchas de óleo que atingem as praias nordestinas.

O QUE É?

Análises de coletas feitas pela Petrobras a pedido do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) revelaram que a substância é petróleo cru - e não um derivado, como gasolina e outros - e não possui origem brasileira. Em nota, a Petrobras afirma que o material encontrado não é produzido e nem comercializado pela empresa, mas não explica como a análise foi feita.

QUANDO COMEÇOU?

As primeiras manchas surgiram no dia 2 de setembro, e foram registradas nas praias das cidades de Ipojuca e Olinda, em Pernambuco. Até o dia 26 de setembro, 21 locais já tinham sido contaminados. Cinco dias depois, no dia 1º de outubro, mais 41 lugares apresentaram pontos de contaminação com o material, totalizando 62 lugares. Do dia 2 de outubro até hoje, o número de praias mais que dobrou, chegando às 132 localidades afetadas.

QUAIS LOCAIS JÁ FORAM ATINGIDOS?

Do dia 2 de setembro até agora, foram registradas 132 praias com manchas - pequenas e esparsas ou significativas e espessas - totalizando 61 municípios em 9 estados do Nordeste (Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia). Entre as praias atingidas estão alguns dos destinos turísticos mais famosos do Nordeste, como Pipa e Natal (RN), Carneiros, Porto de Galinhas e Boa Viagem (PE), e João Pessoa (PB).

QUEM INVESTIGA?

Ibama, Marina, Petrobras, ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), CPRH (Agência Estadual de Meio Ambiente) e UEPE (Universidade Estadual de Pernambuco), além de um inquérito ter sido aberto pela PF (Polícia Federal) após um decreto assinado pelo presidente Bolsonaro.

Mesmo sendo de origem estrangeira, os responsáveis estão sujeitos a multas de até R$ 50 milhões, em conformidade com a Lei de Crimes Ambientais, Lei 9.605/1988.

QUAIS OS RISCOS PARA OS SERES HUMANOS?

Dermatologistas afirmam que o contato de banhistas e pescadores com o óleo pode causar irritações na pele e alergias. De acordo com Alessandra Romiti, coordenadora do Departamento de Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia, deve-se tomar cuidado com os olhos, boca e nariz. Em caso de contato com o material, ela orienta procurar um dermatologista para o tratamento, que varia do uso de pomadas e sabonetes específicos à prescrição de remédios de ingestão oral.

O Ibama recomendou que se evite qualquer contato ou manuseio do material e que o banhista comunique a ocorrência imediatamente ao órgão ambiental local. Em caso de contato com o óleo, a recomendação do Ibama é que a pessoa passe primeiro gelo ou óleo de cozinha, antes de lavar com água e sabão.

QUAIS OS RISCOS PARA A FAUNA E FLORA?

Tartaruga encontrada na praia da Redinha, em Natal. (Foto: Divulgação/Centro de Descontaminação de Fauna Oleada da UERN)

Em quatro estados, foram encontradas mortas seis tartarugas marinhas e uma ave (Bobo-pequeno). Outras cinco tartarugas foram resgatadas com vida. Segundo o Ibama, não há evidências de contaminação de peixes e crustáceos, mas a avaliação da qualidade do pescado capturado nas áreas afetadas para fins de consumo humano é competência do órgão de vigilância sanitária. Animais marinhos menores que a tartaruga, como caranguejos, guaiamuns e aratus também sucumbiram à presença do óleo.

As manchas também ameaçam 600 filhotes de tartarugas marinhas que nasceram nas praias de Sergipe e Bahia, que têm sido retidos em seus ninhos para não haver contato com o óleo, segundo representantes do Projeto Tamar.

As organizações que atuam em parceria com o Ibama no resgate de animais também orientam as pessoas a entrar em contato para avisar de animais encontrados com óleo no corpo. O Projeto Cetáceos da Costa Branca, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (PCCB-UERN), é um desses parceiros, e divulgou uma lista no Facebook de entidades que devem ser procuradas, em cada estado,

A entidade pode ser contatada pelo telefone 084 99943 0058 e 084 98843 4621. As ligações podem ser feitas a cobrar.

De acordo com o PCCB-UERN, o atendimento aos animais com óleo segue protocolos técnicos nacionais e internacionais e é realizado por profissionais que passam por treinamentos e têm autorizações específicas. Dessa forma, são resguardadas a segurança e a salubridade do animal, dos profissionais e a da população.

MAS, AFINAL, QUEM É O RESPONSÁVEL?

Essa é a grande pergunta que os órgãos federais e estaduais ainda não conseguiram responder. Mas existem suspeitas:

1) Vazamento de refinaria: A substância surgiu nas praias poucos dias após um vazamento de cinco metros cúbicos de óleo e água na estação de tratamento de despejos industriais da Refinaria Abreu e Lima, em Ipojuca (PE), na região metropolitana do Recife. O vazamento ocorreu no dia 26 de agosto. A Semas (Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade) e a Petrobras, contudo, negam que o material despejado no mar tenha relação com o derramamento de óleo da refinaria.

2) Origem venezuelana: Na segunda-feira (7), o presidente Jair Bolsonaro afirmou que o governo já tem "no radar" um país de onde poder ter partido o óleo. Questionado sobre qual seria o país, Bolsonaro pediu desculpas e disse que não poderia revelá-lo. As análises feitas pela Petrobras apontaram a Venezuela como provável origem do petróleo. Já nesta terça, Bolsonaro disse que "parece" que o vazamento de óleo pode ter sido fruto de uma ação "criminosa". Segundo ele, o petróleo teria sido "despejado" na região.

Nesta quarta (9), um relatório da Petrobras encaminhado para investigadores afirma que os resíduos são uma mistura de óleos venezuelanos. O resultado saiu após a análise de 23 amostras. A hipótese mais provável é que óleo tenha vazado durante a transferência de um navio para o outro. Falta, no entanto, saber a nacionalidade de origem desse navio.

3) Navio estrangeiro: Outra hipótese levantada por Bolsonaro e pelo presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, foi de que um navio estrangeiro possa ter tido um vazamento de óleo. Segundo Bolsonaro, “aproximadamente 140 navios fizeram esse trajeto por aquela região e pode ser algo criminoso, pode ser um vazamento acidentado, pode ser um navio que naufragou também. Agora é complexo, existe a possibilidade (de ação criminosa)”.

Bolsonaro não descartou ainda a possibilidade de que o Brasil peça indenização caso seja detectada a origem do óleo, mas disse que isso está sendo tratado pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.