O que podemos aprender com as mulheres pretas do "BBB22"?

Natália e Lina se reencontram após o
Natália e Lina se reencontram após o "BBB22" (Reprodução Globoplay)

O "BBB22" chegou à reta final sem nenhuma mulher entre os finalistas, mas foram elas que definiram a edição e trouxeram as melhores problematizações e discussões desta temporada. Mulheres pretas como Natália, Jessi, Maria e Lina protagonizaram momentos importantes ao discutirem racismo, questões de gênero, sexualidade e classismo, e têm muito a ensinar sobre temas que deveriam ser problematizados com mais frequência no entretenimento da TV aberta.

Identidade de gênero

Cativante, divertida e inteligente, Lina pode ter errado no jogo ao indicar Paulo André para a berlinda, mas foi impecável ao falar sobre sua vivência e se posicionou de forma contundente ao exigir respeito diante da transfobia dos demais participantes. É inadmissível que a sister tenha sido vítima de preconceito no confinamento, e a artista deixou claro para todo o Brasil que merece ter seu corpo respeitado.

Em um dos casos de transfobia mais graves do 'BBB22", Lucas se referiu a Lina no pronome masculino durante a festa do líder e exigiu que a sister o perdoasse imediatamente. Lina explicou, com paciência mas visivelmente magoada, que a intenção não importa quando não se trata de um erro, e sim de um episódio de transfobia. A cantora tem seu pronome tatuado no rosto, e o apresentador Tadeu Schmidt chegou a pedir para que ela reforçasse a importância de ser chamada no feminino.

A situação chamou a atenção pela recusa de Lucas de assumir sua transfobia, e a insistência inclemente do brother de ser perdoado imediatamente. "Eu preciso ficar sozinha", pediu Lina. "Poxa, eu entendo que você tem o direito de ficar chateada, e eu também", rebateu Lucas. "Esse constrangimento agora não é meu, é seu", disparou Lina. Novamente, Lucas não aceitou: "Desculpa, desculpa, por favor, cara". "Posso até te desculpar depois, mas desse constrangimento agora eu não vou te aliviar", encerrou Lina.

Lina no
Lina no "BBB22" (Reprodução Globoplay)

A sister continuou pedindo para ficar sozinha, e Lucas não parava de repetir que sua fala transfóbica "não foi de propósito". "Pois você tem que pensar antes de falar. Fechou?", disparou Lina, saindo da festa e indo para o quarto.

A recusa de Lucas de assumir a transfobia e de entender que perdão não é algo imediato resume a situação delicada de pessoas trans e de identidades marginalizadas diante da branquitude e da estrutura de poder heteronormativa. Transfobia é crime, e mesmo Lina tendo sido diretamente afetada pela fala de Lucas, é ela que na visão do brother tem obrigação de aliviar seu erro. Até mesmo no sofrimento, pessoas marginalizadas são obrigadas a confortar seus opressores.

A situação piorou ainda mais para Lina quando Eslovênia tentou convencer Lina a perdoar o brother de forma imediata. "Você está tentando aliviar a dor dele", afirmou Lina, sem aceitar a fala da Miss. Em seguida, Eslovênia tentou tapar a boca da cantora, que se revoltou: "Não tapa a minha boca. Cada vez que vocês fazem isso, é como se negassem minha existência".

Liberdade sexual

A trajetória de Maria trouxe ao 'BBB22" uma mulher preta que não teve medo de se posicionar diante de sua sexualidade, e a atriz falou diversas vezes sobre sua bissexualidade e sobre o preconceito que sofre por não querer se relacionar obrigatoriamente de forma monogâmica. Maria viveu o "BBB 22" de forma intensa: a artista beijou Linn da Quebrada, movimentou o edredom com Eliezer e deixou claro que estava no confinamento para se divertir e ser ela mesma. Livre e empoderada, ela fala sobre sexo sem tabu e adora compartilhar suas experiências com os colegas confinados. Em uma das festas da casa, a sister não escondeu a vontade de transar, pegou três camisinhas e chamou Eliezer para o quarto.

O comportamento de Maria, porém, chocou algumas pessoas. Nas redes sociais, a atriz foi alvo de comentários machistas e misóginos. O que parece incomodar é o fato dela saber o que quer e ser bem resolvida a ponto de não se importar com as câmeras. Em contrapartida, pouco se fala sobre Eliezer, que curtiu ser desejado, aproveitou a noite com Maria e também é responsável por seus atos.

Os ataques, embora destinados à atriz, refletem o que todas as mulheres, anônimas ou famosas, sofrem em uma sociedade patriarcal. O machismo estrutural faz com que as meninas aprendam desde novas que precisam ser submissas e dispostas a realizar os desejos do homem, principalmente na cama.

Classismo e injustiça social

Doce, engraçada e leal, Jessi foi uma das sisters que conquistou o carinho do público e de brothers que não faziam parte de seu grupo na casa, como Scooby e Douglas. A sister teve diversos discursos interessantes e relevantes na casa, e em um deles falou sobre o abismo social que separa ela, professora de biologia, e Tiago Abravanel, milionário herdeiro.

No papo, o neto de Silvio Santos disse com naturalidade que não sabe o que significa financiamento estudantil e que não conhece a função do Fies, programa do governo federal criado durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso que permite que estudantes consigam pagar cursos em universidades privadas.

Jessi, professora de biologia, já falou sobre sua luta para investir em educação em um país desigual como o Brasil, e explicou para Tiago que precisou do Fies para conseguir pagar sua faculdade. A sister, preta e de origem humilde, mencionou em outra conversa que passou três meses de 2020 ganhando menos que R$800 como professora. "Fiz o financiamento estudantil numa faculdade particular, mas no curso que eu queria, biologia", começou a sister. "O que é financiamento estudantil?", questionou Tiago. Surpresa, Jessi rebateu: "O Fies. Já ouviu falar?". "Já, mas me conta o que é", completou o brother.

Jessi também protagonizou uma discussão importante ao jogar a real sobre a situação financeira de grande parte do Brasil. Em conversa sobre sua atuação como professora, a sister revelou que passou muito tempo afundada em dívidas e em 2020, no pico da pandemia da Covid-19, precisou se virar com um salário de R$870 de setembro a dezembro.

"Eu ganho em geral agora, com as aulas voltando, R$1.600 máximo. Daí quando eu soube que eu podia ir pro BBB, eu falei pra minha mãe que eu ia, porque é a única oportunidade que tenho de mudar a vida da gente, de construir coisas pra minha família. Eu passei em outro processo seletivo depois, que ia dar uns 5 mil, mas eu queria poder ter uma segurança pra ter coisas melhores pra quem eu amo", explicou ela.

Capacitismo e enfrentamento

Natália foi uma das protagonistas do "BBB22': mesmo tendo sido acusada de descontrole emocional por suas explosões no confinamento, a sister mostrou muito mais do que isso em suas interações na casa. Decidida, corajosa e sem problemas em dizer o que sente, Natália protagonizou diversos momentos interessantes no reality, e enfrentou com tranquilidade até mesmo os ataques que recebeu por sua personalidade.

Em sua entrevista pós-eliminação no "Mais Você", Natália precisou ouvir a apresentadora falando mal dela pelas costas. Palmeirense, Ana Maria repercutiu o jogo mais recente de seu time, e deu risada do falatório incessante entre os novos dois personagens do "Mais Você", os dois "louros" que chegaram para substituir a presença de Louro José. Ao zombar do barulho dos dois, Ana Maria disparou: "Vocês estão parecendo a Nat, que não respeita os outros falando".

O ataque de Ana Maria surpreendeu especialmente porque não foi dito na frente de Natália, que não teve a possibilidade de se defender. Em seguida, a apresentadora insistiu várias vezes no assunto, mostrando discussões do programa e colegas de confinamento reclamando da incapacidade de Natália de ouvir e não interromper uma conversa.

Visivelmente constrangida, Natália permaneceu em silêncio, e foi elegante na hora de responder os questionamentos de Ana Maria. "O jogo deixa a gente muito a flor da pele. Fora da casa, sempre tenho pessoas ao meu lado que não querem impor o que elas pensam, e sim que entendem que no diálogo precisamos rebater, não é só um fala e o outro cala. Acredito que tem momentos que interrompo sim as pessoas, sou impulsiva, e naquele convívio, em um momento de tensão, não consegui controlar esse meu jeito. Eu errei muito lá dentro e admiti", explicou.

Natália não esmoreceu durante essa entrevista, a mesma postura que demonstrou ao falar sobre o preconceito que sofreu por seu vitiligo. "Eu ouvi coisas do tipo: 'Ninguém nunca vai querer estar com você. Ninguém nunca vai te amar, porque você é manchada'. Eu ouvi isso com 10 anos de idade. Isso pra mim, na hora, foi muito forte. E eu sou muito de fazer as pessoas morderem a língua. Eu amo. Eu nasci para provar o contrário, de tudo", afirmou.

É injusto e sintomático que mulheres pretas precisem ser fortes o tempo todo, especialmente quando suas dores se transformam em entretenimento no reality show mais visto do país. Em situações difíceis, preconceituosas e com poucas opções, mulheres pretas como Maria, Natália, Jessi e Lina deram aula no "BBB22" e merecem ganhar muito mais do que o prêmio final ofertado pelo reality.