O que professores que amamos no cinema pensariam da Escola Sem Partido?

Robin Williams em ‘Sociedade dos Poetas Mortos’ (Imagem: divulgação Touchstone)

No último dia 15 de outubro, publicamos uma galeria com 10 mestres inesquecíveis do cinema e das séries, para homenagear o Dia do Professor. Nas últimas semanas, com a vitória de Jair Bolsonaro na eleição e a possibilidade do projeto Escola Sem Partido ganhar cada vez mais força, seria interessante fazer o exercício de imaginar a opinião sobre o assunto destes professores que tanto amamos ver nas telas.

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O inspirador John Keating, vivido por Robin Williams no emocionante Sociedade dos Poetas Mortos, por exemplo, nunca teve como especialidade seguir regras.

O projeto do Escola Sem Partido defende que cada sala de aula do Brasil tenha um cartaz com uma série de mandamentos. Entre eles, “o professor não se aproveitará da audiência cativa dos alunos para promover seus próprios interesses, opiniões, concepções ou preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias”, que vai totalmente aos ensinamentos de Keating.

O personagem de Williams no filme dirigido por Peter Weir provavelmente daria o mesmo destino ao pôster que deu aos livros com fórmulas de poesia empunhados pelos alunos do primeiro dia de aula: simplesmente rasgaria.

Quando Robin Williams é demitido no final de ‘Sociedade dos Poetas Mortos’, justamente por ter dado seu toque especial às lições de literatura, sentimos o absurdo daquela decisão de seus superiores. É impossível não ficar com os olhos marejados quando os jovens o reverenciam, repetindo os bordões que ele os ensinou. Já pensou se, na verdade, os próprios estudantes resolvessem filmar o professor e denunciá-lo por “doutrinação”? Talvez o gênero do filme mudasse.

Vamos então para o personagem de Jack Black em Escola de Rock. Alguém imaginaria o sujeito reclamando de Roger Waters por ter colocado mensagens contra o fascismo em seus shows? Difícil. O professor de música da comédia lançada em 2003 chegou ao cargo por acidente, é verdade, mas mesmo assim deu lições valiosas às crianças. Ele acreditava no poder do rock em confrontar o autoritarismo, algo básico da raiz do gênero.

Numa das cenas, o professor entrega CDs de algumas das maiores bandas de rock de todos os tempos para seus alunos estudarem. Entre eles, “Dark Side Of The Moon” do Pink Floyd. (Imagem: Divulgação)

Quem canta Bella, Ciao por influência do Professor de La Casa de Papel sabe que a canção era entoada na Segunda Guerra Mundial como um hino de resistência ao fascismo? Quem assiste Merlí, também na Netflix, acredita que estudar filosofia é prejudicial à formação?

O cinema e as séries servem para entreter, é verdade. Mas, assim como todo tipo de arte, servem para gerar uma reflexão, especialmente por nos deixar com a “guarda baixa” – no sentido de desativar aqueles preconceitos iniciais e com pouco fundamento. Se achamos ruim quando os personagens como os de Robin Williams e Jack Black são demitidos, talvez seja a hora de rever posicionamentos sobre o Escola Sem Partido.

Afinal, herói e vilão, no fundo, são apenas uma questão de perspectiva.