O que o esbranquiçamento de Beyoncé deveria nos ensinar

Vida e Estilo International
A figura no museu Madame Tussauds, Nova Iorque, em sua primeira aparição – Twitter
A figura no museu Madame Tussauds, Nova Iorque, em sua primeira aparição – Twitter

Como tantas outras jovens no mundo ocidental que foram criadas à base de filmes da Disney, revistas para adolescentes e programas de TV com heroínas impecáveis, eu também queria ser como as mulheres que via na mídia. Os padrões de beleza se infiltraram na minha consciência, até o ponto onde eu sabia que: a) não apenas era importante ser bonita; b) que a beleza era predominantemente branca, ou o mais perto possível disso.

Foi por isso que eu, que escrevi este artigo, sempre pensei na Beyoncé como o melhor membro do Destiny’s Child, porque ela era a mais bonita. Como uma jovem indiana, sempre quis desesperadamente ser branca, pois para mim isso significava ser mais bonita.

A triste verdade é: meninas não brancas, que crescem em países predominantemente brancos, sofrem. Este “padrão da beleza branca” é tão arraigada que é difícil para todas que não se encaixam nesses moldes se sentirem atraentes.

Todos esses sentimentos me atingiram com muita força essa semana, quando li sobre a nova estátua da Beyoncé no Madame Tussauds, Nova Iorque. Quando as imagens da figura de cera foram reveladas, houve uma confusão generalizada.

A imagem não parecia a Beyoncé. Parecia uma mulher loira e branca.

Teoria: Os fabricantes da imagem de Beyoncé não conhecem a Beyoncé

O museu simplesmente retratou uma Beyoncé como sendo branca. Seus criadores haviam transformado a cantora de 35 anos de idade em uma pessoa de pele mais clara. Após causar revolta da internet, eles removeram a estátua e “ajustaram o estilo e a iluminação da figura” para torná-la mais realista, ou seja, mais negra.

O museu disse à BBC: “No Madame Tussauds, nossa talentosa equipe de escultores se esforça para garantir o máximo de precisão na hora de retratar as celebridades. A iluminação no interior da atração, combinada com o flash das fotos, pode distorcer e desvirtuar a cor das nossas figuras de cera, algo que nossos escultores são incapazes de antecipar, na fase de produção”.

Esperamos que todo esse constrangedor fiasco tenha sido realmente acidental. Mas a questão sugere que, em um nível subconsciente, a estátua foi feita para retratar o que de fato retratou: uma pele mais clara, que seria vista com uma qualidade desejável.

Lupita Nyong’o
Lupita Nyong’o

Nos últimos anos, muitas empresas têm feito esforços conscientes para afastar os padrões. A atriz Lupita Nyong’o foi nomeada a mulher mais bonita da People em 2014. Pouco tempo depois, a Lancome empregou a primeira mulher negra para anunciar sua marca.

Mas é muito frequente que os negros e outros grupos étnicos, minoritários, não sejam reconhecidos como “bonitos” devido aos padrões ocidentais, nos quais há mulheres negras de pele clara, como Beyoncé, asiáticas com cabelos perfeitos e indianas de olhos verdes como Aishwarya Rai.

Não é de se admirar que mulheres de cor mais escura, como eu, crescem desejando ter a pele mais clara.

No ano passado, Lil’ Kim, uma rapper muito bonita e bem sucedida, ficou sob fogo cruzado por postar imagens suas com a pele clareada. Muitos ficaram chocados por ela ter cedido à pressão de parecer mais branca e ter enviado uma mensagem tão negativa aos seus seguidores. Ela foi criticada por parecer uma “Barbie”.

Mas, para mim, até que fez sentido. No passado, ela disse que, ao começar sua vida amorosa, “ser uma garota negra como qualquer outra não era suficiente” e que “todos os homens em sua vida diziam que ela não era bonita o suficiente, mesmo os que ela namorava”. Só porque Lil’ Kim é famosa, não quer dizer que ela está imune ao fato de que a sociedade entende que a pele clara é mais bonita do que a escura.

Uma foto de Lil’ Kim’s no Instagram. Créditos: Instagram
Uma foto de Lil’ Kim’s no Instagram. Créditos: Instagram

É claro que isso não deveria importar em um mundo ideal. Há muito mais nas mulheres do que simplesmente a aparência que elas deveriam aspirar.

Mas é quase impossível crescer como uma mulher ocidental sem se preocupar com sua aparência, seja por causa dos amigos, da mídia ou das redes sociais. A resposta, para ajudar a próxima geração a evitar a insegurança, não é dizer para elas não se importarem, mas promover uma mudança cultural que aceite a beleza em toda a sua diversidade.

Cada vez mais, vemos modelos e atrizes de minorias étnicas na TV, como na série Glow ou Orange is the New Black, mas, mesmo assim, raramente são apresentadas como protagonistas “bonitas”. Em Glow, a guerreira de pele negra recebeu a personalidade de uma bomba nuclear, enquanto em OITNB, as negras são mulheres complexas e fortes, mas, nas redes sociais, as regalias são todas para as latinas de pele clara.

Vocês se lembram de quando Noma Dumezweni foi escalada para o papel de Hermione na peça de teatro de Harry Potter? Houve um tumulto enorme entre aqueles que queriam a bruxa colegial retratada como uma garota branca. Mas o livro a descreve apenas como tendo “cabelos revoltos e dentes proeminentes”. Mesmo assim, o padrão de beleza ocidental nos faz imaginar que uma personagem de pele clara precisa ser branca para que a leitura seja interessante.

Noma Dumezweni e Cherelle Skeete interpretaram Hermione Granger e Rose Granger Weasley, na peça de Harry Potter: Charlie Gray
Noma Dumezweni e Cherelle Skeete interpretaram Hermione Granger e Rose Granger Weasley, na peça de Harry Potter: Charlie Gray

Agora, o pessoal do Madame Tussauds parece ter caído na mesma armadilha.

É desnecessário dizer que esse branqueamento deve parar, mas ele também é um lembrete de que precisamos de mais modelos negros que não se sintam pressionados a usar filtros no Instagram para parecerem mais brancos.

Uma nova versão de Aladdin está sendo feita e a Princesa Jasmine, a personagem principal, já foi escalada. Quem viverá a princesa nos cinemas será Naomi Scott, meio caucasiana e meio índia. Sem dúvida, ela é merecedora do papel, em diversos sentidos, e não deve ser desmerecida por ter a pele mais clara.

Mas o triste disso tudo é que essa seria a oportunidade perfeita para a Disney escolher uma atriz de pele realmente negra e ajudar milhões de mulheres ao redor do mundo a se identificarem com uma protagonista e finalmente se sentirem bonitas o suficiente.

Radhika Sanghani