O que ninguém conta sobre o que acontece quando você finalmente consegue emagrecer

Sorrindo em Santa Fé em 2018. (Foto cortesia de Jamie Cattanach)

No provador de uma Limited Too em Miami, eu disse à minha mãe: “Você está me magoando”. Ela estava tentando fazer meu corpo caber em uma camiseta com a bandeira dos Estados Unidos no maior tamanho que a loja vendia.

Ela estava tentando ajudar.

Quando estava na terceira série, eu passava horas olhando o catálogo deles, sonhando em ter não apenas aqueles tops maravilhosos, mas também um corpo que me permitisse vesti-los. A camiseta seria para um evento patriótico na escola, com o vermelho, o azul e o branco substituindo temporariamente nossos uniformes de cores neutras. Eu acabei usando outra coisa.

Depois de passar toda a minha infância dentro de um corpo obeso, eu finalmente perdi 36 quilos, quando tinha 20 e poucos anos, depois de tantas tentativas frustradas e de acreditar que eu já havia tentado de tudo. Eu disse isso ao meu namorado da época, que elogiava frequentemente a beleza de outras mulheres mais magras. Ele me garantia que era uma questão de termodinâmica, e falava que eu poderia perder peso se “realmente quisesse”. Em uma jornada passivo-agressiva para provar que ele estava errado, eu comecei a passar fome. (Deu para entender o quanto esse relacionamento era saudável?)

Conforme os quilos a mais iam sumindo, tive que admitir que ele estava certo – mas como conquistei meu novo corpo, eu também ganhei. Ou pelo menos foi isso que pensei na época.

De muitas formas, meu emagrecimento mudou a minha vida para melhor. Minha pressão sanguínea e frequência cardíaca em repouso atingiram níveis normais e, mais tarde, atléticos; descobri uma paixão por trilhas íngremes e pela musculação.

Além disso, eu definitivamente tive uma fase mais “saidinha” depois de ter perdido a maior parte do meu excesso de gordura corporal, intoxicada pela atenção masculina que sempre quis e passei a ter. Eu testei meu novo corpo com seis parceiros diferentes em alguns meses, em comparação com apenas dois nos quatro anos desde que eu havia perdido a virgindade.

No entanto, agora que tenho este “novo” corpo há meia década, tenho um conhecimento maior a respeito das consequências não tão intuitivas – e não tão boas – da perda de peso.

É difícil emagrecer, embora todos saibamos o que precisamos fazer: consumir menos do que queimamos. Parece simples, mas no dia a dia o esforço requerido é monumental, e pode ter efeitos duradouros na psique.

Caminhando na praia em Saint Augustine, Flórida, em 2008 ou 2009. Um dos dias mais felizes da minha vida, mesmo com 100 quilos. (Foto cortesia de Jamie Cattanach)

Na série original do Netflix, ‘To the Bone’, a paciente de anorexia Lily Collins é acusada de ter ‘Asperger calórico’. Embora eu nunca tivesse sido considerada anoréxica, consigo entender. Para mim, a comida não parece mais comida, e sim uma série de números: calorias, gramas de carboidratos, minutos de atividade física. Eu ainda monitoro cada alimento que como, até os chicletes e goles de água com gás; eu passo até duas horas na academia quase todos os dias. Sigo regras restritivas e relativamente arbitrárias em relação à alimentação e tenho sessões de enorme compulsão tarde da noite. Embora eu só coma exageradamente os alimentos que pertencem às categorias ‘seguras’, eu posso chegar a consumir 2 mil calorias de uma só vez, ingerindo mais de 200g de amêndoas ou uma caixa inteira de barras de proteína. Na manhã seguinte, eu faço transport na velocidade máxima, tentando queimar tudo que comi.

Se isso lhe soa como um distúrbio alimentar… sim, provavelmente é. Ainda que eu não tenha um diagnóstico oficial, eu costumo falar, como se fosse piada, que numa escala de um à bulimia de exercícios, estou no nível três. E o que é pior: parte da razão pela qual eu não fui diagnosticada é o fato de que a ideia de buscar um tratamento é mais assustadora do que continuar a viver assim. Eu gosto da minha alimentação desordenada, gosto da sensação de controle que ela me dá, embora esteja tão obviamente fora do meu controle.

O problema é que isso me dá um certo poder: o homem que coloca a cabeça para fora da janela do caminhão para dizer “Moça, você é muito bonita – caso ninguém tenha lhe falado isso hoje”. O homem que se ajoelha na minha frente na calçada, com as mãos unidas como se estivesse rezando. O homem que observa minhas pernas cruzadas na cafeteria e pergunta se sou dançarina. Também há benefícios mais tangíveis, como o homem que sorri timidamente para mim, atrás do vidro, e encontra um ingresso gratuito, mesmo quando o show está esgotado. Todas as multas por excesso de velocidade que foram transformadas em meros avisos.

Cheguei a esse patamar depois de ouvir, com todas as letras, que era repulsiva. Eu era o tipo de menina que os meninos se desafiavam a beijar no ensino médio, porque a possibilidade de fazer isso por vontade própria era extremamente hilária. E quando eles me beijavam, meu coração pulava, faminto por atenção. Ver este outro lado da vida é entorpecente, impensável. Eu escrevi em meu diário O mundo inteiro cai aos pés das mulheres bonitas, sem conseguir me convencer de que merecia este adjetivo.

O problema é que você não entende, até muito tempo depois, por que queria tanto aquela atenção – a realidade cultural de que o valor de uma mulher está amplamente atrelado à sua aparência física. Em uma cultura que prova que você vale apenas a objetificação do seu corpo, você vai fazer absolutamente tudo para manter a versão aceita na sociedade.

Foto depois de subir o Mount Wheeler, o mais alto do estado do Novo México, no outono de 2018. (Foto cortesia de Jamie Cattanach)

O medo da minha aparente beleza – ou, mais precisamente, o medo de perdê-la – me mantém presa em uma jaula, uma vida de contagem de calorias e degraus no aparelho de escada da academia, que não é nada do que eu imaginava. Eu me lembro de observar as meninas bonitas e magras no ensino médio e notar como elas comiam pizza e batata frita no almoço e, milagrosamente, não sofriam as consequências. Eu pensava que a vida delas era uma grande festa: uma fila de meninos interessados nelas e indulgências culinárias livres de culpa.

No entanto, quando o meu corpo se aproximou do delas, a escravidão para manter minha recém-alcançada e frágil magreza me impediu de ter aquele estilo de vida aparentemente despreocupado. O álcool tem calorias demais; meus treinos matinais insanos na academia fazem com que eu fique cansada demais para sair à noite – além disso, sou introvertida e tenho uma personalidade suscetível a vícios. Então, fico em casa na maioria das noites, lendo um livro ou resolvendo palavras-cruzadas, sentindo a minha beleza como um recurso minguante, uma lâmpada, cada vez mais fraca, que estou desperdiçando.

Talvez a parte mais surpreendente da perda de peso extrema seja o seguinte: eu fiz todo o trabalho, eu me esforcei ao máximo, mas ainda sofro. Apesar de tudo, ainda passo mais tempo odiando o meu corpo do que amando-o.

Eu cutuco e analiso meu rosto no espelho, beliscando a pele do meu queixo, checando se a minha beleza ainda está intacta – se é que ela já esteve lá, antes de tudo. Eu passei os últimos cinco anos morrendo de medo e acreditando que estava prestes a ganhar todo o peso de volta; eu observo ansiosa as minhas selfies tiradas no espelho e vejo que não, mantive praticamente o mesmo tamanho todo esse tempo. Mesmo assim, eu ainda acho que todo mundo pensa que sou gorda quando me conhece pela primeira vez.

Uma perda de 36 quilos significa que as coisas não estão exatamente onde elas deveriam estar. Embora eu consiga vestir um tamanho de roupa que antes parecia impensável, minha aparência não se assemelha em nada com a das modelos da Victoria’s Secret cujas fotos eu usava como inspiração. A gordura que eu ainda tenho está acumulada em pedaços de excesso de pele: as coxas continuam se tocando independentemente de quantos exercícios eu faço na academia, e minha barriga continua cheia de flacidez.

De certa forma, as percepções vão mudando. Quando eu emagreci, criando aquele novo “eu” a partir de uma pessoa muito mais gorda, estas imperfeições pareciam minúsculas quando comparadas ao que eu era antes. Hoje, elas são devastadoras e intransponíveis – tanto que é possível que eu odeie mais meu corpo agora do que odiava quando era obesa. Certamente tenho mais medo de ficar nua. Quando eu pesava 100 quilos, pelo menos meus pretendentes sabiam onde estavam se metendo.

(Eu também sei que estou exagerando, que sou mais dismórfica do que deformada. O que eu realmente quero é ver o meu corpo como algo além da externalização do meu triunfo ou do meu fracasso).

Quando eu estava na faculdade, fiquei interessada em um cara que nem sabia meu nome, apesar de fazer várias matérias comigo. Depois que perdi os primeiros 20 quilos, ele passou a vir atrás de mim – e anos depois, ainda me envia presentes de Natal e mensagens com segundas intenções. Uma delas, enviada após uma visita na qual eu rejeitei suas tentativas de ficar comigo, ficou gravada na minha memória.

Você é uma mulher linda e brilhante,” ele escreveu, “e eu me sinto muito grato por ser tão próximo de você como sou hoje”.

Eu queria responder: “OK, mas o ‘brilhante’ não significava nada até eu me tornar ‘linda’”.

É isso que ninguém fala (mas todo mundo sabe) sobre a perda de peso: ela importa. Ela importa muito. É por isso que minha mãe sofreu comigo naquele provador, tentando fazer com que eu coubesse em algo mais apropriado; é por isso que os meninos que costumavam me ignorar agora se esforçam para sorrir, para assobiar, para me dizer seus nomes.

A aparência importa. Dizer o contrário é uma mentira. A melhor coisa que podemos fazer é tentar mudar isso, escolher a positividade corporal, olhar no espelho e decidir ativamente amar a nós mesmos – e os outros – exatamente da maneira como somos.

Jamie Cattanach

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