O que mudou desde a Semana de Arte Moderna de 1922?

Registro do Teatro Municipal, construído para a alta sociedade paulistana no início do século XX (Commons)Um grande símbolo das aspirações cosmopolitas do início do século 20, o teatro foi construído para alta sociedade paulistana com incentivos fiscais e investimentos dos barões do café. Sua construção teve início em 1903, e a inauguração em 12 de setembro de 1911. Com forte influência da Ópera de Paris, foi considerada uma construção ousada para a época. Recebeu as mais importantes companhias artísticas da primeira metade do século 20, que trouxeram a São Paulo nomes como Enrico Caruso, Maria Callas, Villa-Lobos, Ella Fitzgerald e Baryshnikov. O teatro foi também cenário de um dos principais eventos da história das artes no Brasil, a Semana de Arte Moderna em 1922. (Commons)
Registro do Teatro Municipal, construído para a alta sociedade paulistana no início do século XX (Commons)

Em 1922, os mais promissores e inovadores pintores, poetas, músicos e arquitetos se reuniram para mudar a arte. Esse encontro não só foi um marco para a época, mas também para toda a arte brasileira, sendo marcado como a Semana de Arte Moderna. Contudo, o grupo era constituído por pessoas brancas e majoritariamente homens. No ano que marca o centenário da Semana de Arte Moderna, o que mudou nas exposições e no consumo de arte?

Em 100 anos, o Brasil e o mundo já viveram diversos movimentos artísticos como a pop art, op-art, surrealismo e a arte contemporânea. Ainda assim, museus e as principais mostras de arte costumam privilegiar artistas homens e brancos.

Isso foi pauta de discussão do Museu de Arte de São Paulo (MASP), que em 2017 abriu a discussão, em parceria com o coletivo Guerrilla Girls, com um questionamento: "As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo?”.

A pesquisa levantada por elas levou ao resultado que apenas 6% dos artistas do acervo em exposição eram mulheres, mas 60% dos nus eram femininos. Com isso, o MASP começou lentamente a modificar suas políticas internas, adicionando exposições femininas.

Em 2020, o museu adquiriu 269 obras de artistas femininas e, em 2021, todas as exposições do museu foram de artistas femininas. Contudo, o mesmo não é feito com artistas não-brancos, como mostra um estudo realizado pelo projeto Negrestudo, que analisou dados sobre gênero, raça e local de nascimento de artistas de 24 galerias de arte de São Paulo durante o período entre agosto e dezembro de 2019.

Os dados apontam que 92,56% dos artistas em exposições são brancos e 68,82% são homens cis. Outros números também demonstram uma maioria sudestina e europeia frente a todos os outros estados brasileiros e continentes globais.

Dos 619 artistas expostos, apenas quatro homens pardos, nove são asiáticos, 23 são negros e não tem nenhum homem indígena. Já as artistas femininas são representadas por uma mulher indígena, quatro asiáticas e cinco negras.

Esses dados escancaram uma disparidade nas oportunidades que brancos e não-brancos têm dentro do mundo da arte e em toda sociedade no geral. A invisibilidade desses corpos e artistas recria um Brasil colonial, eugenista e elitizado.

No ano que se comemora os 100 da Semana de Arte Moderna, o MASP expõe a mostra “Abdias Nascimento: um artista panamericano” que reúne cerca de 60 trabalhos do artista, ativista, ator, escritor e dramaturgo.

Abdias foi um dos responsáveis pela formação da Frente Negra Brasileira - primeira organização de ativismo negro no país -, além de fundar o Teatro Experimental do Negro (TEN) e foi o idealizador do Museu de Arte Negra.

O Masp fica na Av. Paulista, 1578, Bela Vista. Fica aberto às terças das 10h às 20h com entrada gratuita e quarta a domingo, das 10h às 18h. Ingressos a partir de R$ 25.

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