O que Mario Frias e o velho time da Cultura de Bolsonaro ganham atacando os artistas

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Anitta, Mark Ruffalo, Dira Paes, Paolla Oliveira, Taís Araújo, Lázaro Ramos, Gilberto Gil, Daniela Mercury e José Padilha têm algo em comum. Todos foram alvos de críticas de Mario Frias nas redes sociais desde que o ex-secretário especial da Cultura do governo Bolsonaro lançou sua candidatura a deputado federal por São Paulo.

Atacar os artistas publicamente não é uma novidade na postura do ex-galã de "Malhação" e nem do núcleo duro da Cultura do governo, que inclui também Sergio Camargo, que comandava a Fundação Palmares, e André Porciuncula, o número dois de Frias.

Agora os três usam o discurso contra a classe artística e as Leis Rouanet e Paulo Gustavo de quando ainda eram funcionários públicos como plataforma de campanha. Mas no Brasil de 2022, com inflação e fome crescendo e com a discussão nas redes sociais dominada pelo campo do entretenimento, isso pode ser um tiro no próprio pé, segundo especialistas.

Mesmo que as redes sociais já tivessem um peso decisivo na última eleição presidencial, o discurso que colou naquele ano pode não colar agora. Lá, o clima era de "trocar por trocar", e se apresentar como antiestablishment era o suficiente para sentar num cargo, afirma Fabio Gentile, professor de ciências políticas da Universidade Federal do Ceará e pesquisador do Observatório da Extrema Direita.

"Numa conjuntura marcada por crise do país, as pessoas querem que soluções concretas para os problemas sejam apresentadas", diz ele. E não são muito bem essas propostas que os egressos da Cultura de Bolsonaro têm apresentado nas redes sociais.

O "Capitão André Porciuncula", como está escrito em seu material de campanha, gasta tuítes para defender "Top Gun: Maverick" porque "a sociedade é normal e anseia por entretenimento que não seja palanque da extrema esquerda". São alvos constantes de seus ataques a Petrobras, o governador da Bahia, Rui Costa, e o Partido dos Trabalhadores.

O ex-número dois de Frias também exalta o "choque de gestão e organização" que eles fizeram na Secretaria Especial da Cultura e afirma que a "elite artística mundial é um bando de macacos de circo adestrado".

As propostas do ex-PM, apesar do cargo pelo qual passou no governo, passam ao largo do setor cultural. No Legislativo, ele quer, por exemplo, "tornar crime hediondo ativismo judicial", em referência a uma decisão da Justiça que obrigou o Estado a fornecer hormônio a adolescente transexual.

Sérgio Camargo, que teve uma gestão na Fundação Cultural Palmares marcada pela luta contra pautas do movimento negro, quer acabar com a Virada Cultural se for eleito como deputado federal por São Paulo e está preocupado com o uso de gênero neutro em formaturas.

Num país que viu os homicídios de pessoas negras crescerem 11,5% só entre 2008 e 2018, segundo o Atlas da Violência, por exemplo, ele também diz acreditar que "dentre os principais problemas do Brasil, a 'questão racial' é a menor deles".

Já Frias se vangloria de ter "moralizado" a Rouanet, fala mal da Lei Paulo Gustavo e diz que "armas são parte do imaginário coletivo e estão presentes em obras artísticas no mundo inteiro", mais uma das bandeiras da sua passagem pelo governo. Há espaço para defender seu aliado Jair Bolsonaro, criticar a esquerda e as pesquisas eleitorais e, principalmente, atacar os artistas.

Não é só para reforçar um discurso contra essa dita elite cultural que eles tomam essa posição. Bater boca com determinado artista é uma forma de chegar ao centro da audiência das redes sociais hoje —o campo do entretenimento.

Para se ter dimensão do peso dessa área na corrida deste ano, Fabio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos Sobre Imagem e Cibercultura, o Labic, da Universidade Federal do Espírito Santo, coletou uma série de postagens relacionadas aos termos Lula, Bolsonaro, Ciro, Moro. Cerca de 37% de todo esse conteúdo foi produzido por perfis ligados ao campo do entretenimento.

Isso, ainda segundo o pesquisador, vem acompanhado do crescimento das bolhas de ativistas e influenciadores que debatem pautas políticas como o feminismo e de novas práticas do entretenimento nas plataformas digitais, caso da ascensão de narradores de jogos e de celebridades como o streamer Casimiro, nos últimos quatro anos.

Esses candidatos veem, portanto, essas celebridades das redes sociais como uma espécie de trampolim para chegar ao ecossistema da fofoca, influenciadores e artistas. Mas é aí que também reside o perigo, já que os fãs desses nomes, com frequência, entram numa dinâmica de investigação nas redes.

Foi o que aconteceu com Zé Neto e Anitta recentemente, exemplifica o pesquisador. Uma multidão passou a descortinar que o sertanejo usava verba pública depois que ele resolveu criticar a cantora e o uso da Lei Roaunet.

Essa ação de inteligência coletiva foi marcante durante a CPI da Covid, em que uma série de usuários alimentavam perfis com provas de incongruências de políticos e outros personagens ligados ao caso. Até um ranking dos senadores circulou na época, numa escala de "Bangu", a prisão, a "shantay, you stay", o bordão do apresentador RuPaul que garante uma sobrevida às participantes de seu reality show de drag queens.

"É uma espécie de sete a um que o entretenimento dá na política de maneira geral. O entretenimento é muito maior que a política", afirma Malini, o pesquisador. "A meu ver, a tendência deles a fazerem isso é muito mais desidratar e ampliar uma má reputação entre os eleitores bolsonaristas do que efetivamente ganhar esses eleitores."

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