Do que um líder precisa para formar um culto à sua personalidade?

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O que é necessário para se tornar líder de um culto? Foto: Reprodução/YouTube
O que é necessário para se tornar líder de um culto? Foto: Reprodução/YouTube

Narcisismo, certamente. Talvez um pouco de preguiça impaciente que o faça pegar atalhos rumo à adoração e devoção e evitar esforço.

Normalmente, este tipo de líder precisa ter uma personalidade que o permita explorar as pessoas por dinheiro e poder, sem que surja um sentimento de remorso, além disso, guarda um rancor razoavelmente intenso, seja pela desaprovação de colegas da escola, pela rejeição de uma mulher ou qualquer outra coisa que ajude a alimentar uma sede de, um dia, mostrar a eles, a todos eles, que estavam errados, um sentimento que nem é tão ruim assim, não é?

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Mas os líderes cultuados são pessoais normais. Bem, mais ou menos. Todos começam de algum lugar antes de ficarem obcecados pela ideia de ser uma espécie de mensageiro direto de Deus e vestir túnicas e cordões.

É um pouco reconfortante pensar que os líderes de culto à personalidade — em alguns casos, a encarnação do mau, do medo e do abuso — já tiveram empregos comuns. Como:

Escritor de histórias em revistas

L Ron Hubbard, fundador da cientologia (um grupo que algumas pessoas que podem contratar um advogado chamam de culto), alega que a principal base da pesquisa que originou sua “religião” são histórias de ficção e fantasia. Ele começou escrevendo histórias bregas em revistas mensais modestas cheias de contos de aventura e foi um grande colaborador desse movimento influente que se tornou o "pulp fiction".

Por conta dos elementos de ficção científica da história original da cientologia — coisas como: a raça humana começou com um ser supremo galáctico chamado Xenu, por exemplo — Hubbard é mais lembrado como autor de ficções científicas, mas também escreveu aventuras, romances, histórias de guerra e terror. Alguns dos trabalhos levam seu próprio nome como autor, já outros são atribuídos a pseudônimos como "Winchester Remington Colt", o nome mais viril que já existiu na face da Terra.

Vendedor da Amway

Keith Raniere acabou se tornando líder do NXIVM e de seu grupo secreto menor, o DOS, um culto de mulheres que, segundo Keith, foram marcadas com suas iniciais porque ele é um pouco depravado. Antes disso, ele era um cara normal que queria desesperadamente que as pessoas o vissem como um gênio do sexo. Infelizmente para esse plano, ele também era representante de marketing multinível. Começando como vendedor de futilidades da Amway, Raniere abriu sua própria empresa de marketing multinível em seguida, a Consumers’ Buyline, mas foi pego administrando um esquema de pirâmide, na verdade. Apesar de muitas competências que ele hiperdimensionava — alegava ser uma criança prodígio, pianista de concerto, inventor e capaz de curar a síndrome de Tourette — administrar fraudes multinível era seu único real talento, e foi dessa forma que ele modelou seu culto. Um horror.

Instrutora de ioga

Por mais que seja inocente, gratificante e benéfico na maioria dos casos, ainda acho que a ioga pode ser uma porta de entrada para a formação de cultos. Se você já sentiu aquela confiança e devoção que um bom instrutor de ioga pode inspirar, talvez saiba do que eu estou falando. Você faria praticamente qualquer coisa que ele pedisse, menos aquela posição de equilibrar os joelhos sobre o antebraço. Talvez, por causa dessa sensação, os instrutores de ioga são figuras frequentes em cultos.

Anne Hamilton-Byrne, líder do culto australiano The Family, começou a vida como instrutora de ioga, incutindo nas pessoas, entre uma pose e outra, suas ideias e deixas de que ela talvez fosse Jesus. Quando ganhou a admiração e a confiança de diversas mulheres cada vez mais flexíveis da classe média de Melbourne, ela também começou a convencê-las a ceder seus filhos e incluir LSD no ritual de iniciação do seu grupo exclusivo. Não é isso que as pessoas querem dizer com "encontrar o eu superior", Anne.

O que é necessário para se tornar líder de um culto? Foto: Reprodução/YouTube
O que é necessário para se tornar líder de um culto? Foto: Reprodução/YouTube

Antes de se tornar líder do Aum Shinrikyo, o culto que se notabilizou por um ataque a gás sarin, em 1995, no metrô de Tóquio, o quase cego Shoko Asahara dava aulas de ioga. Inicialmente, ele recrutou seguidores atraindo jovens batalhadores e inteligentes que queria ver em suas aulas de ioga e, depois, usou vídeos animados de si mesmo na posição de lótus, voando sobre a cidade. Só que não, né?

Certamente, os pais ficavam muito mais confortáveis em saber que seu filho de 20 anos estava indo para uma aula de ioga e meditação, não para um culto liderado por um louco cego que pretendia destruir o mundo. Havia, inclusive, fotos promocionais de Shoko levitando-se em posição de lótus, o que, dependendo do seu nível de ceticismo, leitor, poderiam facilmente ser imagens de Shoko contorcendo o rosto de tanto fazer força para pular com os joelhos em posição de lótus.

Músico frustrado

Procurando um lugar cheio de líderes de culto à personalidade? Você encontrou. Esse fenômeno pode ter alguma coisa a ver com a percepção de que o estrelato musical e a liderança por meio do culto são atalhos fáceis para atrair mulheres. Rael, líder do culto ufologista Raelians (ou raelianismo) começou a vida como Claude Vorilhon, mas foi Claude Cellar, uma estrela do pop francês que teve seus 15 minutos de fama, em meados da década de 1960. O Raelians é um culto muito sexy que acredita em relações íntimas com robôs e mulheres andando com os peitos à mostra, então, não surpreende que as músicas de Claude sejam um tanto ousadas. Minha favorita é "Monsieur, Votre Femme Me Trompe", que pode ser traduzida como "Senhor, sua mulher está me traindo". Ah, Claude, seu safado.

Existe a suposição de que Charles Manson ordenou que seus seguidores promovessem uma verdadeira matança porque estava irritado por não ter conseguido um contrato de gravação com produtores musicais de Hollywood. Ele saía com Dennis Wilson, do Beach Boys, em Los Angeles, e chegou a compor uma das músicas da banda, que foi reintitulada "Never Learn Not to Love" (Nunca aprenda a não amar, em tradução livre). Charles simplesmente não era bom o suficiente para construir uma carreira sozinho, por isso, optou por enviar um bando de hippies drogados em missões de assassinato. Típico do frontman: quer toda a glória, mas sem o trabalho.

David Koresh, do Ramo Davidiano, famoso pelo incêndio ocorrido em 1993 que acabou com seu culto perto de Waco, Texas, também tentou fechar um contrato de gravação na Califórnia — e também falhou. Na melhor das hipóteses, o trabalho de Koresh era um folk estilisticamente imaturo e mal gravado. Na pior, era rock gospel. Ele até tinha cartões profissionais personalizados com a palavra "Messiah" (ou Messias, em português) como uma espécie de brasão em que se intitulava guitarrista e vocalista — e esses cartões ainda são vendidos em leilões especializados em curiosidades, recordações e um toque de extravagância. É triste, mas os seguidores de Koresh acabaram sendo o principal público da sua música. Talvez o destino deles fosse melhor se Koresh fosse um músico mais talentoso. Terrível.