Masculinidade e masculinidade tóxica: como essas ideias afetam a vida de homens e mulheres no Brasil

Ana Ignacio
·Especial para o HuffPost Brasil
·10 minuto de leitura
Arte: Thiago Limón
Especialistas e pesquisadores falam sobre a ideia de masculinidade que temos hoje e de que forma podemos ampliar e modificar nosso olhar sobre o tema. Arte: Thiago Limón

Estreia nesta quinta-feira (17) no Yahoo!, o primeiro, de 15 textos que serão publicadas diariamente, sobre masculinidade saudável. A ideia é falar sobre quando ela se torna tóxica, discutir paternidade responsável, o comportamento masculino no ambiente de trabalho e tantos outros espaços, além de propor uma reflexão sobre o assunto. Abaixo o primeiro:

Talvez o assunto seja rodeado por clichês. Dos mais antigos, repetidos e conhecidos por aí. Todo mundo já ouviu essa história. “Homem não chora”. “Homem se defende”. “Homem não cuida da casa”. Como se falássemos de questões fisicamente impraticáveis ou habilidades transmitidas geneticamente. Não é o caso quando o assunto é masculinidade. Ou masculinidades, no plural, para ser mais justa com os tempos em que vivemos. Hoje, certas ideias e expressões estão mais presentes no dia a dia, de fato: gênero, masculinidades, masculinidade tóxica - para se ater a poucas. E isso nos faz pensar sobre a origem desses conceitos e o significado que eles carregam. E o primeiro ponto pode ser esse. Não estamos falando de algo natural e impossível de mudar.

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“A gente não nasce nem homem e nem mulher, a gente se faz. O ponto principal é esse, o masculino se constrói, ele não é dado, ele não está no gene, ele não está na natureza, ele se faz através de processos de educação”, explica Gustavo Bandeira, doutor em educação, pesquisador que atua há mais de dez anos na área de relações de gênero, com trabalho voltado para o futebol.

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Assim, o conceito não pode ser reduzido a uma definição única e simplista. Guilherme Valadares, diretor de pesquisa no Instituto PDH (Papo de Homem, Instituto de Pesquisa & Desenvolvimento em Florescimento Humano), fundador e diretor de conteúdo no PapodeHomem e membro consultivo do Comitê #ElesporElas da ONU Mulheres no Brasil, cuja atuação é voltada para a equidade de gênero, explica essa ideia e a importância de não se fechar ou buscar uma definição tão precisa. “Masculinidade, a meu ver, diz respeito a se construir e se entender como homem, a performar e ser reconhecido como tal. Ser homem, a depender da cultura, região do mundo e período histórico no qual existo, vai tomar formas bem distintas”, diz.

“Penso que uma boa rota para investigar esse conceito é partir da premissa que não estamos falando de algo fixo e imutável. Estamos tratando de um fluxo que co-emerge em relação com o feminino, sendo atravessado por nossa raça, orientação sexual, classe, assim como por outros aspectos históricos, biológicos e sociais complexos, se manifestando de maneiras particulares ao longo da história. Não existe uma masculinidade suprema, única. Existem masculinidades, no plural”, completa.

Mariana Fidelis, advogada e pesquisadora no Observatório dos Direitos e da Cidadania da Mulher, também enxerga como algo complexo de definir. “É uma idealização, assim como acontece com nós mulheres, a ideia do padrão. O heterossexual, provedor, magro, branco, tudo dentro da hegemonia, então é um ideal. Apesar de ter várias pessoas que gozam disso não é a masculinidade predominante, da maioria, digamos assim, o que acaba gerando diversos traumas naqueles que não seguem essa ideia”, avalia.

Mas, apesar dessas variações importantes a serem consideradas, há uma explicação e existe um motivo para conhecermos a masculinidade do modo que conhecemos no Brasil. Sérgio Máscoli, psicanalista e filósofo, visita a história da humanidade para olhar sobre essa ideia.

A questão da masculinidade remonta aos princípios da horda [espécie de tribo] antiga quando as mulheres engravidavam e tinham que ficar paradas, não podiam correr, andar e depois tinham que cuidar da prole e dessa forma, então, o homem foi conduzido a sair correndo com outros homens para serem coletores de frutas, grãos e caçadores... e a origem da masculinidade começa disso

Divisão de tarefas bastante conhecida. O papel do homem é ser o provedor e o da mulher é cuidar dos trabalhos domésticos e dos filhos. Na linha do tempo, muitas coisas foram mudando e se reconfigurando, mas algumas ideias permaneceram com as mesmas raízes.

“A masculinidade brasileira sempre foi calcada em cima do modelo mais latino, cuja grande característica era ser homem, ter um corpo grande porque esse cara ia para a guerra, ele era um soldado. Então, essa masculinidade vem ganhando contorno e com as grandes guerras a gente percebe isso. É o homem que matou mais, que estuprou mais mulheres, que destruiu mais inimigos. A cultura latina nasceu guerreira e por isso colocou o homem nessa condição. O homem é briguento, ele usa arma, álcool em excesso, é violento, ele tem que brigar na rua, bater nos caras, tem que ser macho de verdade”, finaliza Mascoli.

Masculinidade tóxica

Além da discussão sobre a ideia do que é masculinidade, nos últimos anos popularizou-se o uso de uma outra expressão: masculinidade tóxica. “O termo começou a ser usado pelo movimento mitopoético dos homens estadunidenses, no final da década de 80. Se tornou objeto de reflexão na academia, com análises dispersas. Mas vem ganhando força na mídia nos últimos dez anos, em especial nos últimos cinco. Nesse sentido, seu pico de popularidade é um fenômeno recente”, contextualiza Valadares.

“Interpreto masculinidade tóxica como um conceito guarda-chuva que se refere a crenças, expectativas colocadas sobre os homens e seus comportamentos nocivos mais usuais. Ações destrutivas, em diferentes medidas. Seja com as mulheres, outros grupos oprimidos, com outros homens e consigo próprio”, completa.

No entanto, a ideia não é exatamente recente, como explica Máscoli. “A palavra vem do grego e significa envenenar, então masculinidade tóxica é um homem envenenado de ser másculo, de ter que exercer esse papel”.

Mas o uso mais corriqueiro da expressão realmente é novo. Bandeira avalia que o termo nasce mais da militância e que exerce um papel importante no olhar sobre essa questão. “Popularizou uma demanda que já tínhamos e nos estudos dos anos 80 e 90 falávamos de masculinidade hegemônica, normativa e o tóxica conseguiu ser muito mais ‘pop’ e ele é bom porque permitiu que a gente conseguisse conversar, ele é visível, as pessoas entendem”.

E o que seria uma masculinidade tóxica na prática? Valadares elenca alguns: comportamentos de brigas, violência, feminicídios, tiroteiros em massa - quase sempre cometidos por homens -, assédio, estupro, vício e compulsões por álcool, drogas, games, apostas, comida, pornografia, sexo. “Vemos isso no namorado que tenta impor o que a namorada deve vestir, no universitário que entra em coma alcóolico pra mostrar que é macho, no marido que se recusa a cuidar da casa porque isso não é coisa de homem. É o homem que sempre duvida de mulheres que relatam abusos, que não as escuta, não aceita ser liderado por elas, as interrompe a todo momento quando tentam falar em uma reunião e acredita que elas não são feitas para a política ou para a economia. Tudo isso se conecta ao termo masculinidade tóxica — mas não me parece haver um consenso à respeito de uma definição precisa”.

Assim, apesar de importante para auxiliar no debate, ele pontua alguns cuidados com o seu uso. “A meu ver, o principal risco ao usarmos o termo indiscriminadamente, sem delimitar o que é, o que não é e seus pontos cegos, é direcionarmos toda nossa crítica a uma luta cultural contra um inimigo que não sabemos localizar exatamente onde está ou de onde vem. Um ponto chave é deixar claro que masculinidade é diferente de masculinidade tóxica”.

Um outro ponto de atenção é misturar algumas dessas ideias, na opinião de Valadares. “Os homens não são tóxicos, o masculino não é uma doença a ser curada. Infelizmente vejo muitos artigos e discussões públicas que levam adiante essa mensagem. Isso pode gerar consequências especialmente severas para meninos e jovens em formação, que podem internalizar a noção de que eles são inerentemente tóxicos e ruins, que são homens lixo”, avalia. “Minha defesa não é eliminar o termo. Acredito que o debate pode amadurecer e se equilibrar mais, talvez. E que faz sentido também jogarmos luz em exemplos construtivos, saudáveis, que inspirem a transformação dos homens”, completa.

Mudanças e futuro

Há consenso entre pesquisadores e especialistas de que houve avanços e mudanças na maneira de encarar as masculinidades no Brasil. Mariana Fideles destaca alguns pontos, mas com ressalvas. “Tem mudado, mas o Brasil é bem grande e existem camadas e territórios com seus próprios símbolos e referências mas o que percebo dentro é que houve uma maior aceitação de questões estéticas e questões ligadas ao consumo, mas acho que outros padrões, principalmente ligados a violência contra a mulher, se repetem e se atualizam nesse lugar. O homem não consegue mais ser o provedor, mas ele não se revê, não vai fazer o trabalho de casa”.

Para ela, o início da mudança pode ser colocar em prática algumas medidas que já existem, além de trabalhar a educação. “Colocar em prática investimentos de política públicas que já acontecem. A Lei Maria da Penha traz a possibilidade de grupos de apoio, acompanhamento psicológico desse homens agressores, muitas vezes reincidentes e para ter uma mudança esse homem precisa entender que esse lugar de violência também é violento com ele, e é muito importante esse tipo de política. Vejo com bons olhos, assim como educação de gênero nas escolas”.

Para Máscoli a revisão também seguiria esse caminho. “A masculinidade que não é tóxica é a que se aproxima mais da pessoa humana. Um grande desafio é repensar uma educação transversal que pudesse mudar no sentido de nos tornarmos mais humanos e menos machos ou fêmeas, socialmente falando. Temos que reconstruir pela educação nossa sociedade, onde a toxicidade não mate tanto, não seja tão violenta, não induza ao suicido”.

Guilherme Valadares do PapodeHomem, também destaca as mudanças e uma certeza de abertura de olhares para o tema. “Se pegarmos os últimos 15 anos, notamos mudanças muito significativas. Abusos, assédios e machismos que eram tolerados na década de 90 são inaceitáveis hoje. Em um país como o nosso, a masculinidade ‘ensinada’ a muitos de nós passava por alguns pilares, como: ser provedor, ser protetor, ser reprodutor, ser auto-suficiente. Isso não funciona mais. Essa ilusão de um macho todo poderoso e infalível foi vista pelo que realmente é: uma fantasia”.

E se reconhecer como parte do problema é difícil, mas tem que ser o ponto de partida.

É amadurecer. Olhar para o espelho e ser capaz de dizer que é um homem machista, racista, homofóbico… e isso dói. Então, há uma triste sinuca aí. Homens imaturos e infantis estão sendo demandados a se transformar. E não estão dando conta.

"Em nossa experiência de 13 anos no PapodeHomem e no Instituto PdH, mapeamos alguns dos principais gatilhos de transformação dos homens, no que diz respeito às normas de gênero. Os gatilhos são (não é uma ordem de prioridade): Crise - luto, divórcio, doença, demissão, falência -, paternidade, afeto, espiritualidade, exaustão profissional, acesso a espaços seguros e de acolhimento, exposição ao sofrimento das mulheres, exposição ao sofrimento dos próprios homens”.

Então, há movimento e situações que fazem com que as pessoas queiram mudar. Com isso, é possível repensar certas construções e estruturas. “Acredito na potência de ações individuais, coletivas e institucionais. Juntas. No campo individual, isso significa intervir quando um amigo for machista e nós mesmos questionarmos nossas ações. Significa romper o pacto de silêncio entre os homens e ter a coragem de não se calar diante de abusos. No campo coletivo e social mais amplo, estamos falando de empresas e partidos com mulheres no comando, por exemplo. E não só as brancas, mas também as negras, indígenas e não binárias. Institucionalmente, veremos leis que não toleram estupro e abusos sexuais ganhando cada vez mais força.”.

Questionar. Educar. Ouvir. As palavras-chave para buscar uma mudança de fato. “Alguns homens têm que entender que vamos perder mão de privilégios que nós tivemos para tornar o mundo em que a gente vive em um mundo melhor. Porque um mundo em que metade da sociedade sai de casa com medo da outra metade, não faz nenhum sentido”, finaliza Guilhereme Valadares.

Só assim podemos mudar os clichês e construir novas formas de se relacionar em sociedade.

**Concepção e Coordenação de Amauri Terto e Diego Iraheta

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