Leia esse texto se você sente que "o Brasil te obriga a beber"

·6 minuto de leitura
Em maior ou menor grau, todo mundo já experienciou a raiva. E a questão não é evitá-la, mas aprender como extravasá-la. (Foto: Getty Creative)
Em maior ou menor grau, todo mundo já experienciou a raiva. E a questão não é evitá-la, mas aprender como extravasá-la. (Foto: Getty Creative)

Nesse texto, você encontra:

  • O que é e por que sentimos raiva;

  • Como encarar a raiva no dia a dia;

  • Dicas práticas para lidar com a raiva.

A pia está cheia de louça de novo, e a sua reação é gritar com a primeira pessoa que passa pela porta da cozinha. No Facebook, você vê alguém defendendo a ação de alguém que você não gosta ou com quem não concorda e o dedo do "Enviar" para aquela mensagem falando "umas verdades" chega a tremer. Seus filhos decidem fazer uma verdadeira balbúrdia na sala de casa na exata hora que você está fazendo uma apresentação no trabalho pelo Zoom e você sente a bile subir pelo esôfago mais rápido do que as ações de Bitcoin no último ano. Seja em maior ou menor grau todo mundo já precisou lidar com ela: a raiva.

O que é e como lidar com a raiva?

Em tempos como o que vivemos hoje, ela parece uma companheira incômoda que anda colada na gente para todos os (poucos) cantos pelos quais andamos. Aparece depois de um tuíte sem noção que você lê ao scrollar o feed do Twitter, ou quando você passa pelos Stories daquela pessoa que insiste que a pandemia não existe e está dando festinha clandestina em casa. Surge quando chega uma mensagem de trabalho depois do horário ou quando passam mais uma tarefa (complexa) para você fazer logo antes do expediente supostamente acabar. É o que motivou muitos crimes também, mas nós, "pessoas normais", achamos que nunca chegaremos ao ponto de ultrapassar esse limite.

No entanto, é aí que a gente se engana. Gastrite, burnout, dores crônicas nas costas. Falta de apetite ou um aumento absurdo dele. Tudo isso pode ser uma expressão da raiva que sentimentos no nosso dia a dia.

Leia também

"Se pensarmos na origem da raiva, podemos observar que ela aparece, na maioria das vezes, quando percebemos que estamos em perigo, ou seja, quando nos sentimos vulneráveis perante alguma situação ou até frustrados", explica a psicologa Fabiane de Faria, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental e idealizadora da plataforma aterapia. "A raiva é um sentimento avaliado pelo senso comum como algo extremamente negativo. Porém, assim como outros sentimentos também definidos dessa forma, como a tristeza, a raiva contém energia e podemos usá-la para sair daquela situação em que não desejamos estar."

Pense no seguinte cenário: centenas de milhares de anos atrás, num mundo em que os computadores ainda estavam bem longe de existir, o maior perigo que nossos ancestrais poderiam encontrar era algum animal selvagem mais forte e rápido que eles, que roubasse sua comida ou transformassem eles próprios em comida. Hoje em dia, dificilmente seremos perseguidos por um leão (apesar que não é impossível), mas a nossa resposta de raiva e estresse segue igual e como parte do nosso organismo. Se, antes, a ameaça era um mamute, hoje, para muitos de nós, é um e-mail do chefe fora do horário.

Nem precisamos entrar no âmbito de que não existem níveis de raiva - raiva é raiva, assim como tristeza é tristeza e sofrimento é sofrimento, é impossível medi-los de forma quantitativa -, mas elas se expressam de formas diferentes dependendo do contexto. Para quem trabalha em home office, ela pode surgir depois que os filhos quebram uma jarra de suco enquanto você está numa reunião de trabalho. Pra outros, surge como uma injustiça mais escancarada, como um assalto à mão armada e até a falta de um leito de hospital.

"Quando sentimos raiva esquecemos totalmente o objetivo de uma conversa, o porquê de estarmos ali e o que queremos conseguir. Por isso, demonstramos a raiva agredindo aquele que nos colocou em perigo", explica Fabiane. "Ela é usada, então, como forma de poder e controle, com a intenção de fazer mal, constranger e rebaixar o outro. A pessoa agressiva está cega e não enxerga o próximo. Percebemos, assim, que o sentimento de raiva não é um problema. O problema é o que fazemos com ele."

Stressed businesswoman holding head working on laptop
A raiva, muitas vezes, é fruto de uma frustração. (Foto: Getty Creative)

Raiva como motivação (ou como lidar com a raiva)

Quando a gente sente o sangue borbulhar, o grito subir a garganta e o estresse chegar num nível máximo, parece difícil reverter os efeitos do que está acontecendo, naquele momento, com a gente. Mas sair desse ponto de reatividade máxima é possível, só exige um pouco mais de autocontrole. Segundo a psicóloga, é possível escolhermos novos caminhos e aprender a manejar esses sentimentos, desenvolvendo novas habilidades.

"Conversar, por exemplo, é uma habilidade que pode ser desenvolvida", diz ela. "No entanto, esse treinamento requer disponibilidade, uma abertura a novas formas de pensar e agir diferente do que aprendemos desde pequenos." Não à toa, contar com ajuda para começar esse treino é sempre válido - é para isso que serve, dentre tantas outras coisas, a terapia.

E, sim, a gente sabe que olhando a situação atual do Brasil parece quase impossível não sentir raiva também. Com um presidente que joga contra a população, os números de óbitos por COVID-19 ultrapassando a (horrível) marca de 300 mil mortes e o sistema de saúde público entrando em colapso, a única alternativa possível é sentir raiva de tudo e de todos e buscar extravasá-la da maneira que parece mais fácil (o que parece acontecer bastante no Twitter, por exemplo).

De acordo com a psicóloga, lidar com um entorno tão raivoso sem entrar na raiva é difícil, mas não é impossível. E é a essa possibilidade, por menor que seja, que temos que nos apegar. "Temos que aprender como escoar a raiva (na maior parte das vezes, proveniente de frustração) de maneira saudável. O importante é jogá-la para fora e não se deixar contaminar."

Dicas para lidar com a raiva

Se desfazer da raiva completamente parece impossível para você? A gente entende que essa seja, mesmo, uma dificuldade, mas existem maneiras de fazer o que Fabiane recomendou no parágrafo acima. O primeiro ponto é reconhecer que você está sentindo e sente raiva (independentemente do nível, se é muito ou pouco). Reconheça esse sentimento para não lutar contra ele. Pelo contrário, quanto antes você perceber o que está sentindo, mais fácil direcionar essa sensação para uma solução. Abaixo, algumas dicas práticas:

  • Conversar com alguém sobre o assunto (um terapeuta, um amigo, até com a pessoa "alvo" da sua raiva, quando você estiver mais calmo);

  • Escrever sobre as questões envolvendo a raiva em um diário;

  • Fazer exercícios físicos (só tome muito cuidado para não se machucar);

  • Fazer uma pausa: para respirar, relaxar ou chorar o que precisa ser chorado.

No mais, não esqueça que se você sente que não tem conseguido lidar com os seus sentimentos e emoções, pode procurar ajuda especializada de um psicólogo ou psiquiatra. Encontrar maneiras cotidianas de lidar com a raiva é uma importante forma de desenvolver a sua resiliência, mas a vida não é uma competição e você não precisa lidar com situações complexas sozinho.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos