Vinho no lugar da comida? Anorexia alcoólica pode ser mais perigosa do que outros distúrbios

82,7% das estudantes universitárias relataram ter exibido comportamentos relacionados à anorexia alcoólica nos últimos três meses. Foto: Getty

Não é novidade nenhuma dizer que temos tomado uma ou duas taças de vinho com mais frequência durante esse período particularmente estressante de confinamento por conta do coronavírus. E, com o maior consumo de álcool, um novo estudo revelou que o isolamento social exerce uma influência no aumento da incidência da anorexia alcoólica – principalmente em mulheres jovens.

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A anorexia alcoólica é um comportamento perigoso e prejudicial, onde padrões alimentares desordenados são usados para compensar os efeitos do álcool. Em outras palavras: ela ocorre quando o indivíduo deixa de consumir os alimentos necessários para uma boa alimentação por conta do ganho de peso relacionado ao consumo de álcool.

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A University of South Australia analisou os padrões de consumo de bebidas alcoólicas de 479 estudantes universitárias australianas com idades entre 18 e 24 anos, e descobriu que incríveis 82,7% das participantes apresentaram comportamentos característicos da anorexia alcoólica nos últimos três meses.

Os pesquisadores descobriram que mais de 28% das participantes pulavam refeições regularmente e de forma proposital para consumir bebidas alcoólicas com poucas calorias ou livres de açúcares, forçando o vômito ou fazendo exercícios depois de beber para ajudar a reduzir a quantidade de calorias ingeridas a partir do álcool, em pelo menos 25% do tempo.

A psicóloga clínica e pesquisadora da UniSA Alycia Powell-Jones disse que a prevalência dos comportamentos associados à anorexia alcoólica entre as jovens universitárias australianas é preocupante.“Devido à sua idade e fase de desenvolvimento, os jovens adultos são mais suscetíveis a apresentar comportamentos de risco, que podem incluir o consumo excessivo de álcool,” disse.

“O consumo excessivo de álcool, em conjunto com os padrões alimentares restritivos e desordenados, cria uma combinação extremamente perigosa que pode aumentar significativamente o risco de desenvolver condições sérias de saúde física e psicológica, incluindo hipoglicemia, cirrose, deficiências nutricionais, danos no coração e no cérebro, lapsos de memória, desmaios, depressão e déficits cognitivos”.

“Não há dúvida de que muitos de nós já ingerimos álcool demais em algum momento da vida, e sabemos, pela forma como nos sentimos no dia seguinte, que isso não faz bem. No entanto, se um terço das jovens estudantes universitárias está comendo menos, simplesmente para compensar o excesso de calorias derivadas das bebidas alcoólicas, isso é muito grave”.

A combinação do consumo excessivo de álcool com os comportamentos alimentares restritivos para compensar a ingestão calórica pode resultar em um coquetel altamente tóxico para esta população.

O isolamento social contribuiu para o aumento do consumo de álcool. Foto: Getty

O estudo foi realizado em dois estágios. O primeiro mensurou a prevalência das atividades de restrição compensatórias relatadas pelas próprias participantes em relação ao seu consumo de álcool.

O segundo estágio identificou os Early Maladaptive Schemes (EMS, ou Esquemas Desadaptativos Precoces, em tradução livre) das participantes – padrões de pensamento que podem se desenvolver na infância e influenciar todas as esferas da vida – e descobriu que os esquemas de pensamento que tornavam as jovens mais suscetíveis à anorexia alcoólica foram “autocontrole insuficiente”, “privação emocional” e “isolamento social”.

Em geral, o comportamento característico da anorexia alcoólica parece ser motivado por duas ‘normas sociais’ principais que os jovens adultos enfrentam: o consumo de bebidas alcoólicas e a magreza: “Esta não apenas pode ser uma estratégia de enfrentamento para gerenciar a ansiedade social de ser aceito e de se encaixar em um grupo de amigos ou em expectativas culturais, mas também mostra uma dependência das estratégias de enfrentamento baseadas na evitação,” disse Alycia.

“É importante que os médicos, psicólogos, educadores, familiares e amigos estejam atentos aos fatores que motivam as jovens mulheres a incorrer nesses comportamentos perigosos e prejudiciais, incluindo normas culturais, crenças que influenciam a autoestima, senso de pertencimento e conexão interpessoal”.

“Ao estarem conectados, os pesquisadores e médicos podem desenvolver intervenções clínicas e abordagens de apoio apropriadas para jovens vulneráveis no âmbito da saúde mental”.

Kristine Tarbert