O que dizer a alguém que sofreu um aborto espontâneo

Pesquisas indicam que, para começar, não devemos ter medo de perguntar sobre o bebê, e até de usar o seu nome. Imagem: Getty/iStock

Perder um bebê é algo que pode levar a um grande isolamento para as mulheres e suas famílias. O luto é intenso, mas os sentimentos de quem sofre nem sempre são reconhecidos – mesmo por amigos próximos ou parentes – porque não se fala abertamente sobre o aborto espontâneo.

Por que tantas pessoas não conseguem encontrar as palavras certas para confortar um membro da família? Por que muitos escolhem ficar em silêncio mesmo quando sentem empatia por uma colega? Afinal, perder um bebê é uma experiência relativamente comum. No Reino Unido, cerca de uma em cada quatro gestações acaba sendo interrompida por um aborto espontâneo, e em 2016, 3.112 bebês foram natimortos – um em cada 225 nascimentos.

No projeto Death before Birth (Morte antes do Nascimento), analisamos as experiências de famílias que haviam passado por diferentes tipos de perdas na gestação. Estávamos particularmente interessados nas metáforas usadas para descrever a experiência.

Metáforas são figuras de linguagem pelas quais as pessoas definem algo usando sentidos figurados – como descrever uma perda como uma “jornada”. Recorremos às metáforas quando estamos com dificuldade para comunicar emocionalmente experiências difíceis, como a depressão, a dor e a morte. Analisar as metáforas que as pessoas usam, pode nos ajudar a entender os sentimentos complexos que um aborto espontâneo provoca. Ao fazer isso, junto com nossas colegas do projeto, Danielle Fuller, Sheelagh McGuinness, Karolina Kuberska e Meera Burgess, tínhamos como objetivo achar um jeito de quebrar o silêncio que envolve o tema.

Algumas das mulheres que participaram do nosso estudo descreveram a perda física e emocional como um vazio. Embora seja comum falar sobre o sentimento de vazio depois de um luto, para as pessoas que entrevistamos, este vazio parecia ser muito mais mordaz por causa da sua ligação à experiência física da gravidez.

Para lidar com a perda, muitas das pessoas entrevistadas escolheram tatuar o nome do bebê – ou símbolos associados a ele – no corpo, como uma forma de manter uma conexão permanente.

Embora amigos e familiares bem-intencionados usem uma linguagem que minimiza o que foi perdido (“seja grato por nunca tê-lo conhecido”) ou que tenta focar a atenção em aspectos positivos, como outros filhos (vivos ou futuros), isso diminui a dimensão física. Para muitas pessoas, os bebês perdidos ainda estão muito “vivos” em um nível espiritual. Uma mãe comentou: “Eu queria enterrá-lo com outros bebês para que ele tivesse companhia”.

Um profissional de saúde com quem conversamos ressaltou que é importante que os pais e mães tenham um tempo para pegar o filho no colo. Os pais de um bebê natimorto ou que experimentam uma perda na gravidez ainda são pais.

Muitas pessoas entrevistadas expressaram a necessidade de continuar mantendo comportamentos de pais e mães, anos depois da perda. Alguns escolheram desempenhar atividades parentais por meio de trabalhos voluntários – um casal disse que esta foi a única forma que eles sentiram que lhes permitiria “ser pais” de seu bebê perdido.

O que dizer

Como começar uma conversa com amigos e familiares que tenham enfrentando uma perda na gravidez? Alguns querem oferecer apoio, mas simplesmente não sabem o que dizer. Nossa pesquisa indica que, para começar, não devemos ter medo de perguntar sobre o bebê (e até de usar o nome dele ou dela, caso já o tivesse), em vez de apenas prestar condolências pela “perda”.

Fazer perguntas sobre o bebê, seja a respeito do nome ou de brinquedos que os pais haviam escolhido para ele, mostra uma compreensão de que, para quem está de luto, a perpetuação da identidade da criança é muito importante.

Muitas das pessoas com quem conversamos disseram que sentiram estar em um “mundo diferente”, com outra percepção do tempo, como se estivessem vivendo numa realidade paralela. Elas são conscientes de que o tempo está passando para os outros, mas não para elas. Uma entrevistada disse: “É muito difícil, porque você sai do hospital e o mundo continua girando normalmente, mas o seu mundo parou”.

Ao conversar com um colega ou amigo que possa estar se sentindo assim, é importante estar atento à percepção de tempo da pessoa. Não tente apressá-los dizendo que se sentirão melhor em alguns meses ou no ano que vem. Em vez disso, pode ser mais útil simplesmente perguntar aos pais como eles estão se sentindo em um determinado dia.

Quando o tempo está passando de outra forma para alguém que perdeu um bebê, um dia pode parecer uma eternidade, ou uma semana pode parecer um segundo. Evite perguntas questionando se eles “já se sentem melhor” ou se “superaram” o que aconteceu.

Reconhecer que um pai ou mãe pode estar experimentando uma realidade diferente da sua, também é muito útil. Usar uma linguagem que demonstra empatia pelo que eles estão passando, em vez de criar mais distâncias, costuma ser muito bem-vindo. Evite, por exemplo, uma linguagem que sugira que você está observando-os do lado de fora, como “Eu não consigo imaginar o que você está passando”. Em vez disso, assim como a Miscarriage Association sugere em sua campanha Simply Say, experimente dizer: “Estou aqui para ouvir”.

A nossa pesquisa reforça o conselho oferecido por importantes organizações de apoio como as instituições Sands e Antenatal Results and Choices. A chave para ser solidário começa com o entendimento de que alguém que sofreu uma perda na gravidez está enfrentando um luto, e é útil dizermos palavras que expressem que reconhecemos esta perda. Devagar, podemos ajudar a quebrar o silêncio.

Sarah Turner, Jeanette Littlemore, Kate Rumbold

The Independent