O que casais heterossexuais podem aprender com casais gays

O que casais heterossexuais podem aprender com casais gays

Quando eu embarquei na jornada de sete anos que resultaria numa trilogia de performances de comédia e em meu primeiro livro, não tinha ideia do enorme papel que a orientação sexual desempenharia neste processo.

Sim, sou lésbica, e isso influenciou muito a forma como socializei e namorei nos últimos 20 anos, desde que assumi a minha homossexualidade. Sim, conforme eu falava com cada vez mais pessoas LGBT – principalmente aqueles um pouco mais velhos do que eu, que já haviam enfrentado muito mais discriminação – percebi que ser forçada a pensar “fora da caixa” em relação aos conceitos de amor e família, resultou em estratégias muito conscientes, inteligentes e compassivas, para lidar com as complexidades dos relacionamentos humanos.

Embora eu aprecie as mudanças legais, progressistas, que levaram a um aumento enorme da aceitação das pessoas LGBT, me preocupo com a possibilidade de que a suposição de que todos nós queremos nos casar, ter filhos e ser “normais” signifique que podemos perder de vista algumas das melhores ideias pioneiras do movimento.

Gwyneth Paltrow e Chris Martin usaram o termo “separação consciente”. Crédito: Colin Young-Wolff /AP

Relacionamentos abertos podem ser incrivelmente bem-sucedidos. Homens homossexuais costumam, com certa frequência, negociar um esquema aberto de relações sexuais, e o fazem há muitas décadas. No entanto, o que é menos divulgado é o quanto eles são bons em se manter emocionalmente fiéis ao parceiro primário. Seus índices de separação são os menores em todos os setores da sociedade. Números de 2013 da Agência Nacional de Estatísticas do Reino Unido mostraram que as taxas de dissolução de casamentos entre mulheres são duas vezes maiores do que as observadas nos casamentos entre homens. Novas estatísticas de divórcio no Reino Unido evidenciam que estas diferenças seguem aumentando.

Então, quais são as lições que os casais homossexuais podem aprender com a comunidade gay?

  1. Um ex pode ser um melhor amigo

Muito antes da autora e terapeuta familiar Katherine Woodward Thomas ter definido o termo ‘conscious uncoupling’ (que pode ser traduzido como ‘separação consciente’) e de Gwyneth Paltrow tê-lo tornado famoso, as lésbicas eram as madrinhas do conceito de separações compassivas.

Recentemente a Dra. Jane Traies conduziu o primeiro estudo abrangente, envolvendo lésbicas mais velhas no Reino Unido. Ela me disse: “Não é raro que uma ex-parceira lésbica, seja hoje, a melhor amiga”. Ela descreveu um casal, que hoje tem cerca de 70 anos, em que uma das mulheres, no passado esteve num casamento heterossexual. A outra sempre havia sido abertamente gay e tinha muitas ex-namoradas significativas, e ambas as encontravam regularmente, para que todas passassem tempo juntas. O relacionamento central parecia ser recompensado de forma muito rica por este sistema de conexões de apoio.

  1. Morar “junto separado” pode ser ótimo

Embora esta ideia seja discutida mais abertamente entre os casais atuais, foi a comunidade LGBT que plantou esta semente. Como meu amigo, o poeta homossexual Dominic Berry, aponta: “Talvez, se as pessoas estão fazendo algo amplamente visto como desviante, fazer outro desvio da norma não seja um salto tão grande”.

Muitas das suposições automáticas feitas sobre os relacionamentos – de que você precisa se casar, ser monogâmico, ter filhos, morar junto – foram alegremente dispensadas. Em muitos casos, uma estrutura romântica alternativa pode ser muito melhor para os indivíduos envolvidos na relação.

Alguns casais heterossexuais podem relutar em falar abertamente sobre a sexualidade. Crédito: Hinterhaus Productions
  1. Falar sobre amor, desejo e sexo, é bom

Quando eu fiz uma pesquisa para o meu show de comédia, perguntei aos entrevistados se eles discutiam o sexo e a fidelidade com seus parceiros. Uma mulher heterossexual escreveu: “De jeito nenhum! Fazer, é uma coisa, mas nós somos tímidos demais para falar sobre ele”.

Meus amigos gays, por outro lado, tendem a passar tantos anos angustiados com sua identidade sexual que a discussão dela com amigos e familiares acaba sendo essencial como parte do processo de “sair do armário”. Em muitos casos, isso leva a uma abertura para falar sobre temas muito importantes envolvendo desejos, limites e consentimento num relacionamento adulto.

  1. “Família” não precisa ser sangue

Quando eu cheguei a Londres, como uma jovem estudante nos anos 90, a comunidade LGBT me proporcionou o maior senso de pertencimento que eu já havia experimentado até então.

Diante do preconceito e da discriminação, as pessoas homossexuais se divertiam muito juntas e cuidavam mais umas das outras em meio à bolha do separatismo. Elas cultivavam um conceito de “amigos como família”, algo que o escritor Armistead Maupin chama de “família lógica”.

Rose Wilby
  1. O amor não é como nos filmes

Como os filmes que retratam relacionamentos do mesmo sexo geralmente são muito diferentes das comédias românticas, açucaradas, heterossexuais, as pessoas gays são mais pragmáticas e realistas em relação aos desafios extremos de se apaixonar, deixar de amar, e ficar junto.

Em 2017 podemos até não estar enfrentando tantas adversidades quanto os personagens mostrados em ‘Carol’ ou ‘O Segredo de Brokeback Mountain’, mas sabemos que o romance de ‘conto de fadas’ é uma grande bobagem.

  1. Regras são feitas para serem quebradas

Quando o grupo ativista Gay Liberation Front se formou no começo dos anos 70, eles celebraram alegremente suas diferenças em relação às “normas” opressivas que a maior parte da sociedade tinha que seguir. Isso resultou numa atmosfera inclusiva e afetuosa e num senso de diversão e liberdade para qualquer um que quisesse reinventar e repensar os relacionamentos tradicionais e experimentar formas diferentes de estar ao lado de alguém.

Rose Wilby