O problema de classificar a sobriedade como uma “tendência”

A sobriedade está em alta no momento. No começo deste mês, o New York Times publicou um artigo sobre “a nova sobriedade”, declarando que cada vez mais pessoas estão excluindo temporariamente as bebidas alcoólicas de suas vidas por acreditarem que é saudável, e não por terem um problema com o álcool.

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Para ser justa, este não é um conceito novo. No final de 2018, a autora Ruby Warrington lançou um livro chamado ‘Sober Curious’ (Sóbrio Curioso, em tradução livre).

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A ideia por trás da obra é dissipar os mitos relacionados à sobriedade, além de servir como guia para pessoas que querem mudar seu relacionamento com o álcool. No ano passado, surgiram outros produtos que ajudavam as pessoas a adentrar as águas da sobriedade pela primeira vez – ou, pelo menos, a repensar seu consumo de álcool. Bares com coquetéis não alcoólicos, como o Redemption, em Londres, estão fazendo sucesso.

Influencers sóbrios estão atraindo milhares de seguidores no Instagram, e já existem até aplicativos de paquera criados especialmente para que jovens sóbrios se encontrem.

Estatisticamente, esta mudança parece ser necessária. Um novo artigo do King's College London publicado na revista Addiction Journal sugere que uma em cada cinco pessoas do sistema de saúde do Reino Unido “consome álcool de forma prejudicial, e uma em cada dez é dependente do álcool”.

A análise, que examinou mais de 124 estudos envolvendo 1.657.614 participantes, também descobriu que o uso prejudicial do álcool é mais comum em unidades de saúde mental, e que a dependência do álcool é mais facilmente encontrada em pacientes frequentando departamentos de acidentes e de emergência.

O Dr. Emmert Roberts, pesquisador principal e membro do Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência da King's College London, disse: “Muitos médicos estão cientes de que condições relacionadas ao álcool são comuns entre os pacientes internados em hospitais, mas nossos resultados indicam que o problema é muito maior do que imaginávamos”.

Beber menos, e incentivar as pessoas a explorar a sobriedade é altamente positivo. No entanto, alguns membros da comunidade sóbria, como Holly Glenn Whitaker, fundadora e CEO da Tempest, uma escola de sobriedade online, alegam que enquadrar e “vender” a sobriedade como uma tendência ou um novo produto pode fazer mais mal do que bem.

Escolher apenas as partes bonitas da sobriedade remove completamente o seu significado.

“A sobriedade não foi construída sobre um ideal de consumo,” disse Holly. De muitas maneiras, a sobriedade é um ato de rebeldia, porque ela rejeita a norma cultural que sugere que é preciso consumir álcool para se enturmar. Para muitos indivíduos sóbrios ou enfrentando processos de recuperação, a escolha de parar de beber tem um custo. Eles podem ter feito essa opção correndo o risco de perder o emprego, ferir a sua reputação, ou afetar seu lugar na sociedade.

“Escolher apenas as partes bonitas da sobriedade remove completamente o seu significado,” afirma ela. No Instagram, Beth Holden, de 21 anos, que gerencia o blog Sober Bitch, concordou com este sentimento. “A sobriedade não é uma tendência, mas uma forma de quebrar a tendência,” escreveu ela, numa legenda no Instagram respondendo ao artigo do New York Times.

“É ótimo que as pessoas estejam falando mais abertamente sobre as suas jornadas rumo à sobriedade,” disse Carter Barnhart, CEO do Newport Academy, um centro de tratamento para adolescentes com foco em problemas psíquicos, distúrbios alimentares e abuso de substâncias.

“As pessoas em recuperação costumavam se reunir em porões de igrejas e mantinham segredo sobre o processo, além de sentirem vergonha do que estavam passando,” disse Holly. Segundo ela, o aumento da aceitação e normalização da sobriedade ajuda a acabar com parte do estigma do alcoolismo e do vício. “Isso é muito animador para mim,” acrescenta.

Entretanto, há uma preocupação de que o uso de termos como “sóbrio curioso” embace a linha entre o que realmente constitui aspectos como o transtorno pelo uso de álcool e a sobriedade. Para esclarecer, o “transtorno pelo uso de álcool” é definido no DSM-5 como “uma doença cerebral crônica recorrente, caracterizada pelo uso compulsivo de álcool, perda do controle devido à ingestão de álcool, e estado emocional negativo ao não consumir álcool”. Quando alguém está “em recuperação”, isso significa que esta pessoa está passando por um processo para identificar as causas do vício em álcool e em drogas. “Sobriedade”, ou “estar sóbrio”, por outro lado, são termos usados para descrever o estado em que não há consumo de álcool, por um curto período de tempo, como parte do estilo de vida de alguém. Então, você não pode estar em recuperação sem estar sóbrio, mas pode estar sóbrio sem estar em recuperação.

Manter a sobriedade não é um jogo ou uma brincadeira. É literalmente a sua vida em jogo.

Estas distinções são importantes, especialmente diante do número cada vez maior de pessoas adotando um estilo de vida sem álcool. Há um medo de que introduzir termos como “sóbrio curioso” no vocabulário popular faça com que “indivíduos e sociedade comecem a minimizar a natureza séria e potencialmente fatal do abuso de álcool e do alcoolismo,” argumenta Barnhart. “Para a maioria das pessoas em recuperação, tomar um único drinque é perigoso”. Sanam Hafeez, neuropsicóloga e professora da Universidade de Columbia, espera que este movimento não banalize o alcoolismo, mas que talvez torne o fato de não beber, mais socialmente aceitável, e permita dar início a uma conversa sobre a realidade por trás da doença. “Manter a sobriedade não é um jogo ou uma brincadeira,” disse ela. “É literalmente a sua vida em jogo”.

Basicamente, precisa haver uma definição mais clara do que o movimento “sóbrio curioso” realmente é, disse a Dra. Hafeez. Algumas pessoas o entendem como a decisão de não consumir álcool por razões relacionadas à saúde, sono e bem-estar. Outros podem interpretá-lo como a possibilidade de estar sóbrio em alguns momentos, mas de beber ocasionalmente. “Ser ‘sóbrio curioso’ dá às pessoas a chance de verificar a temperatura da água antes de mergulhar, sem sentir o fardo de se rotular como um alcoólatra,” disse ela. MJ Gottlieb, CEO do Loosid, um aplicativo para conectar pessoas sóbrias, acredita que qualquer um que esteja em recuperação já foi “sóbrio curioso” em algum momento. “Precisamos mostrar às pessoas como é a vida do outro lado,” disse ele. Entretanto, ao assumir uma atitude de “tudo ou nada”, as pessoas “sóbrio curiosas” podem se sentir completamente excluídas da sobriedade, acrescenta Gottlieb. E este, obviamente, não é o objetivo.

Na verdade, você não precisa ser dependente do álcool para reavaliar o seu relacionamento com ele. Mas “ficar sóbrio” e “beber menos” são duas coisas diferentes, que requerem abordagens diferentes. Para um dependente, o tratamento é fundamental pois aumenta sua chance de uma recuperação segura e bem-sucedida, segundo Barnhart. E qualquer coisa que intensifique as conversas em relação ao vício e ao transtorno de uso do álcool é positiva. Mas ser dependente do álcool e querer beber menos definitivamente não são situações parecidas, e não devem ser tratadas como tal.

Cory Stieg