Mitos, truques: o pornô que você assiste tem pouco a ver com sexo de verdade

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Um entregador de pizza atlético toca a campainha, uma mulher sensual de cabelos perfeitos e cílios postiços -- embora esteja em casa -- abre a porta, eles trocam poucas frases e começam a transar freneticamente, de forma intensa, cheia de tesão, completamente encaixada. (Enquanto isso, a pizza fica lá esfriando). Nos filmes pornôs, esse tipo de dinâmica sexual é super comum. O problema é que, se você espera que na realidade o sexo seja como nas telas do Xvideos, a frustração será inevitável: a indústria pornográfica é cinema e, assim como a vida não acontece como nos filmes, na maior parte do tempo, o sexo não acontece como nos pornôs.

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A sexóloga Paula Napolitano acredita que desconstruir a mística de que a pornografia, sobretudo a heterossexual, seja a representação do sexo real é urgente. “É uma ilusão acreditar no que você vê na imensa maioria dos pornôs e traz inseguranças, expectativas irreais”, alerta ela, que lista, a seguir, grandes clichês.

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Padronização dos corpos

Se você entra em um site pornô (e não procura nenhuma preferência particular), quase sempre os mesmos corpos serão vistos ali. Homens e mulheres saradas, elas quase sempre com cabelos longos, ambos com genitais extremamente depilados.

“É como se houvesse um único tipo de tamanho de pênis, uma vagina sempre no mesmo padrão, tudo sempre sem pelos. Isso faz com que homens e mulheres comecem a questionar o próprio corpo”, diz ela.

Isso não faz sentido, já que atores e atrizes são escalados justamente por determinados atributos físicos. “Você pode acreditar que aquele é o tamanho médio do pênis, quando na verdade aqueles são pênis acima da média, os atores são escolhidos por isso. Além disso, há ângulos, luz, esquecer disso faz com que a gente ache que tudo é natural e não é”, diz ela.

Posições mil e muito contorcionismo

Paula ressalta como a forma como se muda de posições nos filmes é, além de acima da média, bem pouco palpável.

“Mudar de posições mil vezes como se fosse tranquilo, sem precisar das mãos e sem a mínima perda de ereção. Sexo não é assim. Eu já tive um casal que relatou que não se encaixava na cama, que quando mudavam de posição precisavam usar as mãos. Eu perguntei qual era a questão com isso e eles disseram que nos filmes pornôs era mais natural", mas é exatamente o contrário, garante a especialista. Mudar de posição pode requerer ajuda com as mãos, causar alguma perda de ereção e tudo bem. Além disso, vale lembrar que sexo bom não precisa ser acrobático.

Maratonistas do sexo

“Nunca vi alguém ficar cansado em filme pornô. As pessoas transam muito, intensamente e ninguém nunca precisa parar”, diz Paula. A consequência desse tipo de imagem é a de que se falhou quando determinado ato está cansativo. “Se a mulher está, por exemplo, cavalgando, é normal cansar, ou que a perna doa, ou que não fique mais bom, mas a pessoa sente que há algo de errado por conta disso”, explica ela. Na verdade, não há, afinal de contas, o sexo real não é editado, filmado, regravado até parecer perfeito e sem erros e cortes.

Tesões que vêm do nada

De um beijo de língua à penetração em um minuto ou menos. Quase milagrosamente, o pênis fica enrijecido, a mulher super lubrificada: na pornografia, a construção do desejo costuma ser completamente instantânea.

“E a penetração simplesmente acontece, sendo que para a mulher se lubrificar precisa de tempo, de estímulo, pro pênis subir, o tesão precisa ser construído. E acaba que o homem e mulher acham que há algo de errado com eles por não ser assim, como um botão liga e desliga”, diz ela. O que nos leva ao próximo ponto.

Genitalização total do sexo

É muito comum que nos pornôs, que costumam ser extremamente focados em penetração, haja a estimulação única de pênis, dos seios (quando há) e da vagina, já que, como comentamos, os tesões surgem muito rapidamente, sem que haja nem tempo para explorar outras partes do corpo.

“A estimulação do resto corpo fica abandonada, o clitóris, uma zona erógena crucial para as mulheres, onde há 8 mil terminações nervosas, fica quase sempre completamente esquecido”, diz Paula Napolitano. E é importante lembrar que se goza com o corpo todo e não unicamente nos genitais.

Pornô: gênero masculino

Já percebeu como há uma desigualdade imensa no tempo para praticar sexo em homens e naquele designado às mulheres durante os filmes pornôs? Elas se dedicam incessantemente a dar prazer oral aos parceiros; eles, quando o fazem, não ficam nem um terço do tempo retribuindo.

“Uma questão muito grande dessa indústria é que o objetivo é o prazer do homem. Então, ali a mulher demonstra uma vontade insaciável pelo pênis e pela penetração, com foco e o objetivo de dar prazer para o parceiro. Ela precisa ficar satisfeita para mostrar para ele o quanto ele pode fazê-la gozar”, diz ela.

Caso as mulheres reais acreditem que devam se focar tanto no prazer dos parceiros como em um roteiro de filme pornô, como e quando reivindicarão o próprio prazer?

Chegar ao orgasmo é moleza

Se a educação sexual que você recebe vem da pornografia, você deve ter uma crença bem estabelecida: orgasmos acontecem sempre, através da penetração e de forma rápida, de preferência. Nos filmes, é assim. “As pessoas reclamam no consultório de demorar para atingir o orgasmo, o que é natural. O orgasmo com a penetração, que é o mais comum nos filmes, é o mais difícil para as mulheres, ainda mais sem outros estímulos, então temos que parar de achar que acontece sempre e que é fácil e rápido”, esclarece.

Sexo violento demais

As relações sexuais representadas em filmes pornôs passam muitas vezes pela violência. “E a violência nunca é da mulher para o homem, é sempre do homem para a mulher, inclusive, atrizes pornôs relatam que combinados são desrespeitados, que tapas e agressões que não estavam previstos acontecem”, diz Paula Napolitano. Um sexo mais agressivo, consensual e desejado é ok, mas isso deve ser muito bem negociado.

Outra característica comum ressaltada pela sexóloga é o sexo no estilo “britadeira”, com uma penetração rápida, incessante e profunda, que na verdade pode até ser desconfortável para as mulheres.

Sexo anal todo dia e toda hora

“Na pornografia, ter prazer anal é corriqueiro, fácil, sem preparo e todas as mulheres amam”, diz Paula. Na prática, a teoria é bem outra. “Antes da relação, a mulher precisa estar muito no clima, extremamente excitada, usar bastante lubrificante e ir aos poucos, com introdução de dedos, com plug anal, bem devagar, a mulher é quem vai dar a regra do jogo”, ressalta Paula. Além disso, muito diferente do que costuma estar nas telas, a estimulação do clitóris durante o sexo anal ajuda muito no aumento do prazer, diz a sexóloga, ressaltando que o ânus é uma zona erógena e que é sim possível ter prazer (só que se você fizer como nos filmes, provavelmente vai acabar se machucando).

E por que então parece tão fácil fazer sexo anal no pornô? “As atrizes ficam com um plug anal um tempão antes de começar a cena, há todo um preparo para que pareça tão instantâneo, justamente porque não é”, diz ela.

Ejaculação feminina

Existe toda uma mística em torno da ejaculação feminina. Muitas mulheres nunca viveram a tal sensação, mas não na pornografia: nos filmes do gênero, mulheres ejaculam o tempo todo.

“Na vida, são poucas as que conseguem e, além disso, não existe uma relação direta com mais ou menos prazer ou mesmo com o orgasmo. No filme, sempre parece que é o melhor gozo da vida e isso nem é real, você pode ejacular sem gozar e, claro, gozar sem ejacular”, explica Paula. O motivo para as atrizes pornôs ejacularem tanto é simples: há uma simulação, um líquido é colocado, há uma técnica de pompoarismo usada e, na hora do “gravando”, o gozo é expelido de forma totalmente falsa.

Gritos e gemidos altos, altíssimos

É comum observamos que, em obras pornográfica, se há prazer, a mulher está gritando e gemendo desde o primeiro toque. “É importante que as pessoas saibam que não é assim, muitas sentem que precisam fingir gemidos porque é o que o parceiro está esperando, justamente por conta dessa indústria”, diz Paula. O prazer, no entanto, pode ser em volume mais baixo, ofegante ou não: existem inúmeras maneiras de demonstrar.

Paula alerta para o fato de que, por outro lado, o homem nunca geme e tem um gozo quase sempre em silêncio. “Então por que as mulheres gemem e os homens ficam calados? Se associamos o prazer da mulher ao quanto ela geme, então os homens não sentem prazer? O homem também pode se expressar com gemido, ofegante, mas ele entende na pornografia que deve estar sempre quieto”, diz ela.

Ereções à prova de furacão

Nesse ponto, os homens, para quem a indústria pornográfica é tão pensada, são muito afetados por uma grande farsa: ereções que parecem ser à prova de tudo, que acontecem rapidamente e duram horas.

“Acontece de forma quase mágicas, de uma hora pra outra e a gente sabe que é assim porque os atores tomam medicamentos eretivos, o que dá a sensação de que não precisa de estímulo, de que o homem está sempre disposto e tem ereção a qualquer momento, em qualquer circunstância”, diz ela.

Não é bem assim. “As diferentes intensidades da ereção nunca são mostradas nas telas. Isso se reflete em vários pacientes que se dizem ansiosos quando há uma leve perda de ereção durante uma troca de posição, por exemplo, o que é absolutamente normal. Mas tanta ansiedade pela ereção inabalável faz com que o homem possa acabar tendo problemas reais em ficar ereto, por pressão. Não é nada saudável”, diz ela

Como é fácil o sexo casual

O encanador, o entregador de pizza, o pedreiro, o instrutor de yoga: basta que um homem apareça em uma situação razoavelmente propícia e pronto, dali o tesão brota, o sexo acontece de maneira intensa, perfeita, safada, encaixada, com todo o tesão de uma vida que aparentemente estava apenas esperando aquela situação certa para acontecer.

“Nada disso é verdadeiro, essas situações são bastante incomuns na vida e é ainda mais incomum que um sexo casual seja incrível logo de cara. Essa expectativa é bastante irreal”, diz a especialista.

E onde ver um pornô melhor?

Hoje, já existem pessoas pensando em pornôs mais humanos. “Existe até um movimento que pede para que as pessoas paguem pelos pornôs que assistem porque isso assegura que aqueles atores e atrizes estejam recebendo um tratamento humanizado, mais digno”, diz Paula Napolitano. Abaixo, algumas sugestões de pornôs que buscam um sexo mais real.

O conteúdo abaixo é NSFW (Não é seguro para abrir no trabalho).

https://www.joybear.com/

http://www.luciemakesporn.com/

https://erikalust.com/

http://www.brightdesire.com/

http://www.forthegirls.com/

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