'O Novelo' acompanha drama de uma família negra sem vitimismo

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(FOLHAPRESS) - O leitmotiv de "O Novelo" é o tricô que dona Elza, mãe de cinco filhos, ensina a eles. Seu marido, o pai das crianças, some no mundo. Como ela morre alguns anos depois, sobram os filhos, cada qual com seus problemas e, sobretudo, seus caminhos.

O mais velho deles, Mauro, é o que se sacrifica pelos irmãos e trabalha como um burro para que os demais sobrevivam. No momento em que os reencontramos, Mauro mora com os irmãos Cicinho, que tenta abandonar o vício do álcool, e o mais jovem, Cacau, que ensaia uma carreira como ator de teatro. Restam os dois mais bem-sucedidos, Zeca, advogado, e João, escritor de livros de divulgação científica de sucesso.

Talvez seja um mérito da peça original de Nanna de Castro a divisão da prole de dona Elza por cinco, de modo a dar a todos traços e destinos próprios. No cinema isso é um pouco problemático, pois a existência de tantos filhos tende à dispersão.

Assim, por exemplo, no início, o filme se dedica a Cicinho, alcoólatra e separado da mulher, de resto bastante hostil a ele, tanto que o impede até de ver as filhas. Temos a impressão de que este será o centro da ação, mas depois a mulher some da história sem nem dizer adeus. Talvez na peça ela seja só uma referência. Mas no cinema, do ponto de vista dramático isso é um inconveniente, abre uma subtrama que jamais será fechada.

Os que mais se afastaram são Zeca, o advogado, e João, o intelectual. Zeca carrega a mágoa de ter sido traído pelo próprio irmão, Cacau. Quanto a João, se distanciou seja por ser intelectual, seja por ser gay. O segundo motivo é mais importante, até porque Zeca não aceita a orientação sexual de João. O encontro no hospital será uma oportunidade para os cinco irmãos se reencontrarem e, sobretudo, para que passem em revista suas relações e dificuldades.

É importante, nessa altura, chamar a atenção para o fato de que os irmãos são negros. O espectador notará isso logo de cara, fatalmente. Mas, caso não tenha reparado, perceberá por uma cena. Zeca sai de um julgamento com uma cliente. Ela faz questão de chamar a atenção tanto para suas virtudes profissionais, quanto para o alto valor que paga por seus serviços. Dúvida -será que uma cliente branca chamaria a atenção para o relógio caro ou o terno Armani de seu advogado caso fosse ele branco como ela?

Em todo caso, sendo evidente que os personagens são negros, a dramaturgia tem a virtude de não enfatizar o fato desnecessariamente. Eles não são muito diferentes do que poderia ser uma família branca de origem proletária --mas as famílias negras e pobres são muito mais frequentes.

Essa é uma virtude do texto. Não precisa caracterizar negros como vítimas; é evidente que são. Idem quanto ao irmão gay --mas, okay, dava para evitar o caracterizar como "gay-que-adora-ópera".

Com isso, o encontro no hospital pode ser um acerto de contas com o pai, com a ideia de pai, com o rancor, mas também com a falta que fez e ainda faz. Tudo isso e mais as questões pessoais e interpessoais dos irmãos desemboca no novelo em que dona Elza trabalhava. Tudo é questão de puxar os fios e os trançar. Haja o que houver, é no hospital que o filme, após muito oscilar, se apruma e puxa o fio dessas existências.

No todo, seu interesse vem em boa parte da presença de um grupo de ótimos atores. Nesse sentido, Cláudia Pinheiro se sai bem. Mas é preciso dizer que sua direção é um tanto incipiente. Ela se apoia demais no roteiro e dispensa qualquer ideia forte que se possa dizer cinematográfica.

No entanto, me parece importante acompanhar o drama de uma família negra que não se define por serem presidiários, traficantes, evangélicos et cetera em um mundo cultural onde vidas negras com tanta frequência são percebidas como se seu único destino possível girasse em torno de sua relação com a polícia.

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O NOVELO

Quando Estreia nesta quinta (25)

Onde Nos cinemas e no sob demanda

Classificação 16 anos

Elenco Nando Cunha, Sérgio Menezes e Rocco Pitanga

Direção Claudia Pinheiro

Link para trailer no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=4KU4XhCCNq4

Avaliação: Bom

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