'O Náufrago' leva para o palco tipos obsessivos de Thomas Bernhard

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O encontro de três jovens estudantes de piano na aclamada escola de música clássica Mozarteum, em Salzburgo, na Áustria, será determinante para cada um deles.

Já tendo um talento extraordinário ao começar as aulas, Glenn Gould se tornaria um dos principais pianistas do século 20; sua destreza ao executar "As Variações Goldberg", de Bach, faz com que Wertheimer desista da carreira e se isole numa casa de campo no interior do país, pois ele acredita que nunca será tão bom no instrumento quanto seu amigo.

O terceiro personagem, o narrador sem nome de "O Náufrago", história de niilismo escrita por Thomas Bernhard nos anos 1980, também abandona o piano. Ele então se muda para Madri, onde tenta repetidas vezes e sem sucesso escrever um ensaio sobre a vida de Gould, o grande pianista. O leitor fica sabendo desses episódios todos quando o narrador viaja para a Áustria para comparecer ao velório de Wertheimer, que se enforca por não suportar o peso de não ser o melhor pianista do mundo.

Um dos principais livros do escritor austríaco fundamental da segunda metade do século 20, "O Náufrago" é agora adaptado para os palcos pelo diretor William Pereira, e estreia temporada nesta semana, no Sesc Bom Retiro, em São Paulo. "A primeira vez que eu li, achava que era impossível transpor isso para o teatro", diz ele, acrescentando que este foi o primeiro título de Bernhard com o qual teve contato e também o que mais o impactou.

Bernhard trabalha com personagens burgueses --nunca o homem comum-- "atropelados pelo tempo", pessoas radicais que ficaram fechadas na ideia do virtuosismo musical, presas a um ranço intelectual. É somado a isso o pavor da Áustria nutrido pelo escritor, para quem o país tinha um nazismo latente, o que se traduz na narrativa em descrições nem um pouco elogiosas das cidades e dos habitantes do país.

Em cena estão Luciano Chirolli, como o narrador e protagonista, e Romis Ferreira, no papel de Wertheimer, ambos encarando o desafio de interpretar a prosa intrincada de Bernhard. No livro, escrito como se fosse o fluxo de consciência do narrador, as frases parecem se encaixar com precisão umas nas outras, o que segundo os atores não dá margem para improvisos ou "cacos" no texto. Eles não contracenam diretamente na peça.

"Ele [Bernhard] é o que melhor traduz, na escrita, as histórias de personagens obsessivos. Ele é obsessivo por repetição. A repetição do pensamento, a ida ao presente e a volta ao passado, a ida para o fictício e depois para a não ficção. É uma escrita compulsiva. A gente tem que descobrir, como atores, uma linguagem que seja tão rica quanto a escrita dele. O espectador quer acompanhar a obsessão dos personagens", afirma Chirolli.

A peça havia tido poucas apresentações logo antes da pandemia, com elenco diferente, quando foi interrompida pelas medidas de contenção da Covid. O diretor, contudo, considera que "O Náufrago" está estreando de fato agora, depois de dois anos de convivência sua e dos atores com o texto, como se eles tivessem ensaiado o espetáculo durante esse tempo todo.

"É um teatro de texto. Isso no atual panorama é uma coisa muito difícil, até pela pandemia, a questão visual, imagética, de uma câmera filtrando tudo, ficou muito forte", afirma o diretor, dizendo que nesta montagem pensou o texto com o rigor de uma partitura musical.

Ele faz uma analogia com "As Variações Goldberg", que são executadas na versão de Gould durante o espetáculo. "Gosto quando você consegue manter o rigor musical no texto, como se estivesse trabalhando uma interpretação musical --você trabalha a pausa, a articulação de palavras, dinâmica de frases. O teatro é o espaço da palavra."

O NÁUFRAGO

Quando: De 13 de janeiro a 5 de fevereiro; apresentações de quinta a sábado, às 20h

Onde: Sesc Bom Retiro -al. Nothmann, 185, São Paulo

Preço: R$ 40

Elenco: Luciano Chirolli e Romis Ferreira

Direção: William Pereira

Link: https://www.sescsp.org.br/programacao/o-naufrago/

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